Wednesday, March 16, 2005

“ELA É OUTRO MUNDO”

(...)
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a minha alma tenho acesa.
Mas nos olhos mostrou quanto podia.
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.


Camões

Sunday, March 13, 2005



"Temos de descobrir por nós mesmos - e não por intermédio de quem quer que seja - o que é a meditação. Tem-se aceitado a autoridade de instrutores, salvadores e mestres. Se realmente queremos saber o que é a meditação temos de pôr de lado toda a autoridade."


"Na meditação temos de descobrir se é possível um cessar dos conhecimentos, e libertarmo-nos, assim, do conhecido."


J. Krishnamurti

O mundo estava no rosto da amada

O mundo estava no rosto da amada -
e logo se converteu em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei



RAINER MARIA RILKE

Thursday, March 10, 2005

Viver não dói



Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?
(...)
(Carlos Drummond de Andrade)

"O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo."

Marguerite Yourcenar

SEPARAÇÃO

Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.


(1940)

Anna Akhmátova

Wednesday, March 09, 2005

Não são nossos os frutos nem as flores

BEBIDO O LUAR

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN

Pagã

Sou uma religiosa sem igreja,
Uma reclusa sem convento, amante de uma deusa sem altar.
Vivo na pele o tormento de uma humanidade que ainda não é.
Vivo no mundo sem nele já acreditar.

Sou sacerdotisa de um templo destruido
à procura de um novo amor e uma nova fé.
Olho num único sentido, íntimo, profundo
no centro de mim mesma e espero a luz...

A luz de um outro mundo e a única esperança.
Com ele há-de vir a nova criança e a deusa
Em que ainda descansa e as duas serão um só.
Numa epifania de cores e harmonia, ele virá,
Sem armas nem ódios, o novo Milénio.


Rosa Leonor Pedro


"Não sou um escritor, sou alguém que busca; conduzo um combate espiritual; espero que o meu espírito se abra a uma luz qualquer que não tenha nome nos nossos idiomas."

e.m. cioran

Tuesday, March 08, 2005

DÁ-ME ROSAS...

EU QUERIA POISAR COMO UMA ROSA
SOBRE O MAR O MEU AMOR NESTE SILÊNCIO


SOPHIA de Mello Breyner



Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...

(...)
Fernando Pessoa

Monday, March 07, 2005

As duas faces do Mistério

Era o ser de olhar duplo, contemplando
O reino a que pertence e o seu etéreo
Desdobramento anímico; e, por isso
Olhava as duas faces do Mistério.


Teixeira de Pascoaes, Marânus

Suavidade

Pousa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.

Hás-de contar-me nessa voz tão qu'rida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás-de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão-de fazer-se leves e suaves...

Hão-de pousar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente,
Sobre o teu rosto, como penas de aves...


Florbela Espanca

Saturday, March 05, 2005

Um dia estarás morta e ninguém
de ti terá saudades ou memória
pois as rosas de Piétria não colheste.
Desconhecida até na casa de Hades
entre sombras deambularás dos mortos.


SAFO - Poemas e Fragmentos

Não quero rosas



Não quero rosas, desde que haja rosas

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...


FERNANDO PESSOA

À MUSA

Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".




ANNA AKHMÁTOVA

Friday, March 04, 2005

olhar dentro de mim



Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro?

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego,
A PRIMEIRA ELEGIA

Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens dos anjos?
e mesmo que um me apertasse de repente contra o coração:
eu morreria da sua existência mais forte. Pois o belo não É senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassivel, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrivel
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento dum soluçar escuro. Ai! de quem nos
poderiamos então valer? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes reparam já que nós não estamos muito confiantes em casa
neste mundo explicado.

(...)

AS ELEGIAS A DUINO - Rainer Maria Rilke

Monday, February 28, 2005

O RISO E O CHORO

(...)

Sendo a condição humana dramática, o seu destino e a sua existência embebidos em dor, o Ser lúcido que possua em alto grau a força de pensar e de sentir, estará mais naturalmente inclinado à tristeza do que ao riso. Assim a tragédia, produto natural de um pensamento-vivência, premente de angústia e de tristeza é, apesar disso, dinamizante na medida em que estimula um progresso. Colocando o ser perante um destino que parece inexorável, aponta-lhe paradoxalmente os caminhos de esperança da transcendência


ANA HATHERLY

"Eles tomam, sonhando, nobres atitudes.
Grandes esfínges alongadas no fundo das solidões
que parecem dormir um sono sem fim."


BAUDELAIRE


OS Gatos são a nossa paixão abençoada
pela alma que põem no que são e no que sabem,
pela ternura que guardam no que escondem.
São os gatos de Baudelaire, de Eliot e Paul Klee,
os da rua, do oriente ou do universo,
os gatos gémeos das estrelas e das mariposas,
os gatos que se perdem entre as açucenas,
os guardiões da alquimia do não dito.
Pela boca dos gatos diz-se a liberdade
de quem se dá só a quem ama.
Perfil bordado sobre os panos de luar.

(...)

JOSÉ JORGE LETRIA

Sunday, February 27, 2005

O lótus na rosa



(...)
As mãos cingindo o perfume da rosa abrindo em lótus
- tarde de muros -
No teu porte de abandono!


Tília Ramos

"NO LADO ESQUERDO DA ALMA"

Nossa Senhora de Paris

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir...Onde açoitar-me?
Os braços duma cruz.
Anseiam-me, e eu fujo também do luar...

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa do Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...

Fico supulto sob círios,
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de ideais...

- Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho ...Estrelas...
Vitrais! Vitrais!

Flores de Lis...

Manchas de cor a ogivarem-se...
as grandes naves e sangrarem-se...
- Nossa Senhora de Paris!...


Paris, Junho de 1913
MÁRIO SE SÁ-CARNEIRO

Saturday, February 26, 2005

Surge dos lados do oriente a luz loura do luar de outro. O rastro que faz no rio largo abre serpentes no mar.

O LIVRO DO DESASSOSSEGO
fernando pessoa



MUSA

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos
Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu subito falar
Que me foge de repente


Sofia de M. B.