Thursday, March 31, 2005

EU QUERIA SER MULHER


Eu queria ser mulher para me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas “banquettes” dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos no café.

Eu queria ser mulher para não Ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedir dinheiro --
Eu queria ser para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer “potins” - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar --
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se pode desculpar.

Eu queria ser mulher para Ter muitos amantes
E enganá-los a todos -- mesmo o predilecto --
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar...



(Poema inacabado de Mário Sá-Carneiro enviado a Fernando Pessoa)

Wednesday, March 30, 2005

A DEUSA BRANCA



A frase “invocar a Musa” foi empregue muitas vezes de forma errada, o que obscurece o sentido poético: íntima comunhão do poeta com a Deusa Branca considerada como a fonte de toda a verdade.

Os poetas representaram a verdade como uma mulher nua, uma mulher privada de qualquer artifício que permitiria pela sua visão ligarem-se a um certo ponto do tempo ou do espaço. (...) O poeta é um apaixonado da Deusa Branca da Verdade: o seu coração consome-se por ela e na espera do seu amor.


in “A DEUSA BRANCA” de Robert Graves

e voar na minha alma

Ao céu da tua boca eu quero ir
e na minha língua sentir o néctar jorrar...

Enquanto tu, figura alada,
com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar,
eu convulsamente mergulho no teu ventre
indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater
para romper os véus da nossa existência,
vir de novo à terra
voltar ao céu da tua boca
e voar na minha alma ao teu lado deitada.


in "Mulher Incesto"
Rosa Leonor Pedro

Tuesday, March 29, 2005

A PALAVRA COMO DESTINO

"A palavra também é destino, pois ela anuncia aquilo que foi decidido pelos poderes; além disso, a maldição e a benção dependem dos rituais mágicos que estão sob o domínio das mulheres. Aquilo que mais tarde passamos a chamar de poesia teve origem na fórmula dos sortilégios e nos cânticos mágicos que emergem espontaneamente das profundezas do inconsciente de onde trazem à tona suas formas características; seu próprio ritmo, além do vigor e da sensualidade peculiares de sua imagem"

(...)

in "A Grande Mãe"

Tinha o trono onde ter uma rainha




Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria...
Ó mar sem cais nem lado nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá em baixo estamos
E é subita a lembrança
Da velha quinta e do espalmar dos ramos
Sob os quais a merendar - Oh, amor da glória!
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos...


FERNANDO PESSOA

Sunday, March 27, 2005

OS UPANISHADES

"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração, então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."

"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim.
Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."

OH ISTHAR

Oye mi ruego, Isthar,
Luna de los Amantes.
De quien no sabe dar
enséñame a recibirlo todo.
D e quien no sabe abrirse
hazme llenar...

...llenar qué?, cómo era afinal? Ay, todavía olvidada! algo de un instante, de una copa...

in "LA VIEJA SIRENA" de José Luis Sanpedro

Saturday, March 26, 2005

A DEUSA



Ah, verdadeiramente a deusa! -
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com sòmente a adivinhar.

Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.

Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonho, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.


IN poesias inéditas - FERNANDO PESSOA

Friday, March 25, 2005

UMA POETISA IGNORADA....



Quero confesar, pois, á vossa inteligencia, que toda a luxúria em que ritmei certas attitudes nos meus poemas representa sobretudo a forma mais pomposa e elegante que poderia corresponder a uma atitude interior mais comandada pela Arte do que pelos avisos duma moral que uma sociedade se cansa em recomendar aos outros á força de a infringir.
Vivi nas horas dessa ardente concepção, esta luxúria, que era a forma de minha Sinceridade.16
(...)
Para os que reduzem a vida a um sistema de simulação e mentiras, desde os actos mais íntimos do seu carácter até á negação duma dívida na mercearia vizinha, o público, é o seu pânico irreprimible. Parece que a estas boas almas que o público lhes lê nos olhos o forro torpe da sua vida.
Desta minha alta concepção dos processos morais da existência, desta minha singular lealdade de «afirmar», nasceu, pois, o desacordo entre mim e a Maioría.


JUDITH TEIXEIRA - Escritora portuguesa vanguardista dos anos 20

SINFONIA HIBERNAL

Adoro o Inverno.
Envolvo-me assim mais no teu carinho
Friorenta e louca
Nascem-me na alma os beijos
Que se vão aninhar na tua boca!

Gosto da neve a diluir-se ao sol
Em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo
E a neve fulgente
Dos meus dentes trémulos
Vai fundir-se na taça ardente,
Rubra e original
Na qual eu bebo os teus beijos em fogo!

Tu adormentas a minha dor na doce
sombra dos teus cabelos,
E eu envolvo-me toda nos teus braços
Para dormir e sonhar!
- Lá fora que não deixe de chover,
E o vento que não deixe de clamar!

Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
Se me abrasa o teu olhar
Vivíssimo?!
Ateia, meu amor, o fogo em que me
exalto
- Enrola-me mais
Ainda mais no teu afago;
Que esta alegria do nosso amor
Suavíssimo,
Será mais forte e gritará mais alto!


Judith de Teixeira
POEMÁRIO DE MARIANA

Wednesday, March 23, 2005

Só quero torná-la grande

Pensar em nada
é ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida.




Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha".

Álvaro de Campos

FRAGÂNCIAS...



Não te sintas só
mesmo na aparente ausência

Por mistério ascendem
das nossas almas inquietas
brancas silhuetas ecos perdidos
pulsantes como um coração cósmico
retido muito tempo no Olvido

Há cruzamentos já
nós a atarem-se
um tumulto imenso de ascensão

Sobre nós só Força
a repuxar a alma e os sentidos

Não te sintas só
que eu nunca largo
os portos bem amados da minha alma

Se ao menos hoje
eu pudesse deixar-te
o meu antigo vaso de fragrâncias
para que a hora te não doesse tanto

MARIANA INVERNO

Tuesday, March 22, 2005

Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke
"Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem..."

A.C.

Monday, March 21, 2005

A MUSA E O POETA



Porém nada valeu em face da última visão:
Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caíndo agora, em jorros, do alto da cúpula -- e o pano rasgou-se sobre um vago tempo asiático...Ao som de uma música pesada, rouca, longínqua -- Ela surgiu, a mulher fulva...
E começou dançando...

Envolvi-a uma túnica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos, loucamente. Jóias fantásticas nas mãos; e os pés descalços, constelados...
Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, húmidos, frios de cristal; o marulhar da sua carne ondeando; o alcóol dos seus lábios que, num requinte, ela dourara -- toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente...
Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se...


in A CONFISSÃO DE LÚCIO de Mário Sá-Carneiro


Ao céu da tua boca eu quero ir
e na minha língua sentir o néctar jorrar...

Enquanto tu, figura alada,
com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar,
eu convulsamente mergulho no teu ventre
indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater
para romper os véus da nossa existência,
vir de novo à terra
voltar ao céu da tua boca
e voar na minha alma ao teu lado deitada.


in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"
ROSA LEONOR PEDRO

Sunday, March 20, 2005

uma rosa no fundo do meu coração

Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas,
(...)
Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.

Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita;
A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,
Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro
Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração.

Yeats



FOGOS...

"Partes? Partes?...Não, não te vais embora.
Retenho-te... nas minhas mãos deixaste a tua alma como se fosse um manto."

"Não cairei. Alcancei o centro. Escuto a pulsação de não sei que divino relógio através do fino invólucro carnal da vida plena de sangue, de sobressaltos e de suspiros. Estou perto do núcleo misterioso das coisas como, à noite, estamos às vezes perto de um coração."


Marguerite Yourcenar

Thursday, March 17, 2005

A DIVINA BELEZA



os colares de corolas várias
e fragrantes
em redor de um colo delicado;

as essências de ervas raras
e um perfume real
derramado sobre a pele;

o leito onde o desejo
profundamente apaziguavas
a meu lado...


SAFO

A "divina beleza", que aqui nos aparece envolta em seda verde, ornamentada com prata, ouro e pedras preciosas, possui uma carga fortemente numinosa, e conduz o adepto a uma experiência do centro"(...)

in "AlQUIMIA DO AMOR" de Y.K.Centeno

Wednesday, March 16, 2005

um átomo da oração

A ORAÇÃO

Na ponta do coração um átomo que é activado pela súplica...
Podem esmagar-vos de tal maneira que pensais que já nada resta de vós. No entanto, subsistirá sempre um átomo de vós, e ele poderá reconstituir para vós o universo inteiro. Esse átomo é o Dom de orar, de suplicar. É o maior Dom que Deus deu ao ser humano, pois se ele não existisse o ser humano teria desaparecido há muito tempo.

Essa ideia de um “átomo da oração”, de que ninguém fala, deve parecer-vos absolutamente inaceitável, impossível de acreditar... Contudo, na Ciência iniciática já ouviste dizer que existe na ponta do coração um átomo que tem como papel registar tudo o que o ser humano pensa, sente e vive ao longo da vida. Esse átomo não tem o poder de intervir para modificar seja o que for; ele apenas regista. Na realidade é uma bobine minúscula que se vai desenrolando sem parar do começo ao fim da existência e, no momento da morte, ela pára para sempre.


In Poderes do pensamento
Omraam M. A.ivanhov

“ELA É OUTRO MUNDO”

(...)
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a minha alma tenho acesa.
Mas nos olhos mostrou quanto podia.
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.


Camões

Sunday, March 13, 2005



"Temos de descobrir por nós mesmos - e não por intermédio de quem quer que seja - o que é a meditação. Tem-se aceitado a autoridade de instrutores, salvadores e mestres. Se realmente queremos saber o que é a meditação temos de pôr de lado toda a autoridade."


"Na meditação temos de descobrir se é possível um cessar dos conhecimentos, e libertarmo-nos, assim, do conhecido."


J. Krishnamurti