Tuesday, April 12, 2005

SAFO - CANTO LXXIV



...em Sardes vive aquela
que em pensamentos muita vez

aqui regressa, ao tempo que foi nosso,
quando tu para ela eras a Deusa
e só como o teu canto se exaltava.

Entre as mulheres da Lídia brilha
agora, como Selene de rosados dedos,
quando postos ao sol,

empalidece os outros astros, e alta
inunda de luar os floridos prados,
os salgados mares:

enquanto o orvalho cai, enquanto as rosas
abrem, e cresce o trevo em flor
e o timo delicado

FEITIÇO


Possessa sim,
mas de de amor o teu!
Amante de mim sim,
mas de tanto em mim viveres,
Ó Deusa

Crente e serva de um único olhar,
o teu invisível olhar,
que me fulminou de magia
e ardente nostalgia,
mal nasci!


in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"

Sunday, April 10, 2005

Sonatas e prelúdios...

Lembras-te, foi em Tentyres,
quando a deusa com máscara de gata
dançou e lançou um feitiço quando te viu?
Levou-te com ela... desde aí fiquei só.



Leva-me contigo ao Egipto,
vamos na direcção norte-sul, ver a tua Mastaba,
Quero ver o Serdab.

Tenho saudades da terra vermelha
e de contigo andar e olhar o sol a brilhar.

Anda comigo a Dendera, ver Hathor, ouvir cantar:

Adoro a mulher dourada
louvo a sua majestade
celebro a senhora do céu
canto os louvores a Hathor
e à sua gloria soberana



SACRIFÍCIO

Gosto dos egípsios,
queria voltar aos seus templos antigos,
à sua vida vida simples e pura...

Está viva ainda na minha alma a imagem de Ptat.
Sobe na minha coluna o fogo da origem
e os meus braços abertos o seu doce fluxo recebem.

Abraço Shekmit e os seus seios descobertos
e deito-me no seu manto de rainha escarlate.

Ofereço-me em sacrifício a Bastet,
para ver os seus olhos amendoas de gata sorrirem...

Ficar presa nos seus sortilégios,
ser iniciada nos mais altos Mistérios,
e poder olhar de frente Ra, Amon e Maat.


in "Mulher Incesto" - Sonata E Prelúdio" R.L.P.

Friday, April 08, 2005

Nos meus olhos

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sobe as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...


FLORBELA ESPANCA

O mundo, no qual nascemos, sofre de século e meio de renúncia e de violência – da renúncia dos superiores e da violência dos inferiores, que é a sua vitória.

Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se modernamente, tanto na acção, como no pensamento, na esfera política, como na espéculativa.

A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde uma sensibilidade fina não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contacto da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço.


FERNANDO PESSOA

Tuesday, April 05, 2005

Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todos
ratos e gatos.


Mário Cesariny


A ESTÁTUA

O teu corpo branco e esguio
Prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido…

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu
sonhei…

- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados


JUDITH TEIXEIRA

Monday, April 04, 2005

Em redor da Lua os astros
Velam seu branco rosto quando plena
Inunda de resplendor a terra toda.


SAFO - FRAGMENTOS

ISHA

Meu amor, finge que eu sou louca e faz de Deusa para mim!
Disfarça-te de Fada e deixa que te ponha estrelas a enfeitar os cabelos...

Sim, finge que eu sou louca e aceita o que te peço,
veste-te de Rainha...
Põe safiras na testa e pérolas no peito
e deixa que me ajoelhe a teus pés e as mãos te beije...

Deixa que te dispa e cubra de flores, acácias, rosas e jasmins.
Deixa-me, sacrílega, cobrir-te com um manto de Luz
E rezar-te como se divina imagem fosses!

Ah, finge que eu sou louca e mais do louca, demente
E aparece como que vinda de outros mundos...
Pega na minha mão e leva-me contigo para longe daqui!

Ah, finge que sou mesmo louca!
Deixa que te beija a boca e morra de vez...


Do Livro "Mulher Incesto Sonata e Prelúdio"
R.L.P.

Sunday, April 03, 2005

CAVALEIRO ERRANTE

Amo-vos tanto, Senhora minha,
mais do que nenhum cavaleiro errante
neste mundo jamais vos amou.

Amo-vos tanto, eterna dama,
tanto e mais como jamais
santo algum nesta vida vos adorou.

Amo-vos cada dia mais e mais, e tanto mais
quanto mais perto da minha alma estou.

Ah, amo-vos muito mais do que Dante
no inferno Beatriz amou,
mais do que Romeu amou Julieta,
que só por uma morte passou...

São tantas as minhas mortes por amor de vós
que nem Cristo por amor da humanidade,
tantas vezes ressuscitou...


in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"
Rosa Leonor Pedro

Friday, April 01, 2005

"A revelação e a dor nos salvam da zona morta. Elas nos permitem deixar para trás o culto fatal dos segredos. Podemos chorar e chorar muito, e sair cobertas de légrimas, mas não manchadas de vergonha. Podemos sair daí mais profundas, com o total reconhecimento de quem somos e plenas de uma nova vida."
C.P.E.



OH estrela da tarde,
dos astros todos o mais formoso...


SAFO - FRAGMENTOS

SAUDADE DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: « vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
Eh de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!


ANTÓNIO PATRÍCIO (1878-1930)

Thursday, March 31, 2005

EU QUERIA SER MULHER


Eu queria ser mulher para me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas “banquettes” dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos no café.

Eu queria ser mulher para não Ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedir dinheiro --
Eu queria ser para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer “potins” - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar --
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se pode desculpar.

Eu queria ser mulher para Ter muitos amantes
E enganá-los a todos -- mesmo o predilecto --
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar...



(Poema inacabado de Mário Sá-Carneiro enviado a Fernando Pessoa)

Wednesday, March 30, 2005

A DEUSA BRANCA



A frase “invocar a Musa” foi empregue muitas vezes de forma errada, o que obscurece o sentido poético: íntima comunhão do poeta com a Deusa Branca considerada como a fonte de toda a verdade.

Os poetas representaram a verdade como uma mulher nua, uma mulher privada de qualquer artifício que permitiria pela sua visão ligarem-se a um certo ponto do tempo ou do espaço. (...) O poeta é um apaixonado da Deusa Branca da Verdade: o seu coração consome-se por ela e na espera do seu amor.


in “A DEUSA BRANCA” de Robert Graves

e voar na minha alma

Ao céu da tua boca eu quero ir
e na minha língua sentir o néctar jorrar...

Enquanto tu, figura alada,
com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar,
eu convulsamente mergulho no teu ventre
indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater
para romper os véus da nossa existência,
vir de novo à terra
voltar ao céu da tua boca
e voar na minha alma ao teu lado deitada.


in "Mulher Incesto"
Rosa Leonor Pedro

Tuesday, March 29, 2005

A PALAVRA COMO DESTINO

"A palavra também é destino, pois ela anuncia aquilo que foi decidido pelos poderes; além disso, a maldição e a benção dependem dos rituais mágicos que estão sob o domínio das mulheres. Aquilo que mais tarde passamos a chamar de poesia teve origem na fórmula dos sortilégios e nos cânticos mágicos que emergem espontaneamente das profundezas do inconsciente de onde trazem à tona suas formas características; seu próprio ritmo, além do vigor e da sensualidade peculiares de sua imagem"

(...)

in "A Grande Mãe"

Tinha o trono onde ter uma rainha




Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria...
Ó mar sem cais nem lado nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá em baixo estamos
E é subita a lembrança
Da velha quinta e do espalmar dos ramos
Sob os quais a merendar - Oh, amor da glória!
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos...


FERNANDO PESSOA

Sunday, March 27, 2005

OS UPANISHADES

"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração, então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."

"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim.
Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."

OH ISTHAR

Oye mi ruego, Isthar,
Luna de los Amantes.
De quien no sabe dar
enséñame a recibirlo todo.
D e quien no sabe abrirse
hazme llenar...

...llenar qué?, cómo era afinal? Ay, todavía olvidada! algo de un instante, de una copa...

in "LA VIEJA SIRENA" de José Luis Sanpedro