Hoje estou triste, stou triste.
Starei alegre amanhã...
Sempre em qualquer coisa vã.
Ou a chuva, ou o sol, ou a preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.
Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
Stou triste. A tarde está fria.
Amanhã, o sol e a razão.
FERNANDO PESSOA
Wednesday, April 27, 2005
Nunca amamos alguém

Nunca amamos alguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso – em suma é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade a toda a escala do amor.
(...)
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constituia actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. (...)
O LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando pessoa
Monday, April 25, 2005
SEDE
Ó minha amada, de ti sou insaciável
Tenho fome e sede do teu corpo como de pão e água!
Uma ânsia infinita dos teus olhos,
Uma premência inaudita do teu ser
E da tua boca, oh! Nem quero falar porque desvairo
E desfaleço da sede de te beijar!
Ó delíquio da fusão, ó sonho de ti renascer
E como na origem só uma ser.
Eu e tu , mãe eterna na minha alma inteira a vibrar,
Liquefeita eu nesse mar do teu olhar,
para sempre no teu Santo Nome mergulhar.
Ó minha amada, de mim sou insaciável!
In “Mulher Incesto” -R.L.P.
Tenho fome e sede do teu corpo como de pão e água!
Uma ânsia infinita dos teus olhos,
Uma premência inaudita do teu ser
E da tua boca, oh! Nem quero falar porque desvairo
E desfaleço da sede de te beijar!
Ó delíquio da fusão, ó sonho de ti renascer
E como na origem só uma ser.
Eu e tu , mãe eterna na minha alma inteira a vibrar,
Liquefeita eu nesse mar do teu olhar,
para sempre no teu Santo Nome mergulhar.
Ó minha amada, de mim sou insaciável!
In “Mulher Incesto” -R.L.P.
“MINHA MÃE MEU AMOR”
1
Falei-te
De um passado
Cheio de ondinas
De sereias e de aves
Com uma mãe por detrás
A comandar as fadas
»»»»»»»»»
1
Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:
Com árvores
e oceanos
Penumbras incessantes
num enredado princípio
E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início
MARIA TERESA HORTA:
Falei-te
De um passado
Cheio de ondinas
De sereias e de aves
Com uma mãe por detrás
A comandar as fadas
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1
Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:
Com árvores
e oceanos
Penumbras incessantes
num enredado princípio
E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início
MARIA TERESA HORTA:
neste mesmo momento
6 - Tenho pela mentira um horror quase físico. Sinto-a à distância e agora...neste mesmo momento... sinto-a a vaguear, asquerosa e suja, em volta de da minha alma que vibra no orgulho de ser pura. Se os outros me não conhecem, eu conheço-me, e tenho orgulho, um incomensurável orgulho em mim!
DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO - Florbela Espanca
DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO - Florbela Espanca
Sunday, April 24, 2005
OS UPANISHADES
"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração,
então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."
"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim.
Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."
então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."
"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim.
Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."
HÁ NOITES
Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
(...)
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo ...
Natália Correia
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
(...)
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo ...
Natália Correia
Saturday, April 23, 2005
A CONSCIÊNCIA, O AUTÓMATO E O GATO...
(...)
"O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.
Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.

Ao contrário de outros animais que nos dão uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.
Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto;
a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono:
há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília;
a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo;
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade;
constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão:
vencedor indiferente, ele nunca é vencido.
"A serenidade é o fruto da independência.
Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... Um a coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição."(...)
In « L’OUVERTURE DU CHEMIN » de ISHA s. DE LUBCZ
"O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.
Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.

Ao contrário de outros animais que nos dão uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.
Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto;
a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono:
há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília;
a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo;
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade;
constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão:
vencedor indiferente, ele nunca é vencido.
"A serenidade é o fruto da independência.
Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... Um a coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição."(...)
In « L’OUVERTURE DU CHEMIN » de ISHA s. DE LUBCZ
LONGE E PERTO
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
(....)
Escrever seria amar-te? Seria
Interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu corpo frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
ANTÓNIO RAMOS ROSA
Boca Incompleta, 1977
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
(....)
Escrever seria amar-te? Seria
Interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu corpo frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
ANTÓNIO RAMOS ROSA
Boca Incompleta, 1977
Tuesday, April 19, 2005
Noite de saudade
A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho
Florbela Espanca
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho
Florbela Espanca
Sunday, April 17, 2005
Há uma rosa caída

Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa
MARIA ÂNGELA ALVIM
“Il est mortel de se moquer d’un poète,
d’aimer un poète, d’être un poète".
amor que eu amo com amor sagrado

Pelo sagrado amor que vem de ti,
amor que eu amo com amor sagrado;
pelo Ideal descoberto e realizado,
- bendita seja a hora em que te vi!
Pelas malditas horas que vivi
no desejo de amor tão desejado;
pelas horas benditas ao teu lado,
- bendita seja a hora em que nasci!
Pelo triunfo enorme, pelo encanto
que me trouxeste, é que eu bendigo tanto
a hora suave que te viu nascer...
Amor do meu amor! Amor tão forte,
que se um dia sentir a tua morte,
será bendita a hora em que eu morrer!
VIRGÍNIA VITORINO (1897-1967)
Friday, April 15, 2005
OS TEUS OLHOS

"Onde estão os teus olhos – onde estão? – oh, milagre de amor que escorres dos meus olhos!
Na água iluminada dos rios da lua eu os vi descendo e passando e fugindo
Iam como as estrelas da manhã. Vem, eu quero os teus olhos, meu amor!"
VINICIUS DE MORAES,
Sonata do amor perdido (excerto)
AMAR
Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
De uma doida cabeça encanecida.
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetra o meu ser - não só de beijos
Dados no ar - delírios e desejos
Mas amor... dos amores que têm vida.
Antero de Quental
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
De uma doida cabeça encanecida.
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetra o meu ser - não só de beijos
Dados no ar - delírios e desejos
Mas amor... dos amores que têm vida.
Antero de Quental
SALOMÉ
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...
Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...
Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando...
Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:
Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...
Lisboa, 3 de Novembro de 1913
MÁRIO DE SÁ-CARBNEIRO
Luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...
Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...
Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando...
Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:
Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...
Lisboa, 3 de Novembro de 1913
MÁRIO DE SÁ-CARBNEIRO
Thursday, April 14, 2005
Esfinge

Nasci antes de Cristo, muitas vidas antes,
antes de Rama, Buda , Khrishna ou Maomé .
Vivi em Atlântida e Mu, muito antes da Queda.
Conheci os egípcios, vivi nos seus Templos antigos,
fui iniciada nos Grandes Mistérios,
antes mesmo das Pirâmides de Gizé.
Viajava no Nilo entre as duas terras, era fiel a Hapi e a Ptah.
Lia nas estrelas a glória de Nout e cantava nas festas a Hathor!
Ah! Era dourada a Sua Imagem e, como os teus
os seus olhos brilhavam doces na alvorada...
Outras vezes, íamos ver Shekmit, evocar a deusa Bastit,
a quem me ensinavas a amar nas noites de luar.
E como a gata do templo, tu dançavas e esvoaçando
as tuas vestes deixavas antever o teu corpo nu de estátua...
E eu extasiada pela tua visão, não sabia se eras tu
ou a própria deusa encarnada quem para mim dançava.
Nesse tempo era feliz !
Amava a vida e a terra ainda era sagrada.
IN ANTES DO VERBO ERA O ÚTERO - r.l.p.
Tuesday, April 12, 2005
Para além das Brumas
O seu formoso
Corpo cruel de Deusa omnipotente,
Voluptuoso,
De pé, naquela altiva soledade,
Como enlevado, extático, sorrindo,
Domina a planetária imensidade
E o céu infindo...
Teixeira de Pascoais
Corpo cruel de Deusa omnipotente,
Voluptuoso,
De pé, naquela altiva soledade,
Como enlevado, extático, sorrindo,
Domina a planetária imensidade
E o céu infindo...
Teixeira de Pascoais
SAFO - CANTO LXXIV

...em Sardes vive aquela
que em pensamentos muita vez
aqui regressa, ao tempo que foi nosso,
quando tu para ela eras a Deusa
e só como o teu canto se exaltava.
Entre as mulheres da Lídia brilha
agora, como Selene de rosados dedos,
quando postos ao sol,
empalidece os outros astros, e alta
inunda de luar os floridos prados,
os salgados mares:
enquanto o orvalho cai, enquanto as rosas
abrem, e cresce o trevo em flor
e o timo delicado
FEITIÇO
Possessa sim,
mas de de amor o teu!
Amante de mim sim,
mas de tanto em mim viveres,
Ó Deusa
Crente e serva de um único olhar,
o teu invisível olhar,
que me fulminou de magia
e ardente nostalgia,
mal nasci!
in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"
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