"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração, então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."
"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim. Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."
Há noites que são feitas dos meus braços E um silêncio comum às violetas. E há sete luas que são sete traços De sete noites que nunca foram feitas. (...) Há noites que nos deixam para trás Enrolados no nosso desencanto E cisnes brancos que são só iguais À mais longínqua onda do teu canto.
Há noites que nos levam para onde O fantasma de nós fica mais perto; E é sempre a nossa voz que nos responde E só o nosso nome estava certo ...
(...) "O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes. Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos. Ao contrário de outros animais que nos dão uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma. Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto; a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono: há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília; a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo; Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade; constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão: vencedor indiferente, ele nunca é vencido.
"A serenidade é o fruto da independência. Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... Um a coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição."(...)
Estou tão longe da realidade como do poema A distância é infinita Tu não estás aqui E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos e de mais (....) Escrever seria amar-te? Seria Interromper este deserto limpar a ferida aberta? Seria entrar no interior do centro fresco percorrer essa praia que ninguém ainda pisou beijar os teus sinais e a sede límpida que desenha toda a chama alta do teu corpo?
Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça Estou tão perto de ti que o poema principia Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo A minha língua arde sobre o teu corpo frágil O perdão do teu olhar é o amor da luz
ANTÓNIO RAMOS ROSA Boca Incompleta, 1977
Tuesday, April 19, 2005
Meu ser vive na Noite e no Desejo. Minha alma é uma lembrança que há em mim...
FERNANDO PESSOA
Feliz aquele que, para encontrar a sua "Imagem" eterna, ousa queimar sem piedade os fantoches do seu passado ...
"Onde estão os teus olhos – onde estão? – oh, milagre de amor que escorres dos meus olhos! Na água iluminada dos rios da lua eu os vi descendo e passando e fugindo Iam como as estrelas da manhã. Vem, eu quero os teus olhos, meu amor!"
VINICIUS DE MORAES, Sonata do amor perdido (excerto)
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo, Luz morta de luar, mais alma do que lua... Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua, Alastra-se para mim num espasmo de segredo...
Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas... O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou... Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou... E o seu corpo resvala a projectar estátuas...
Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me, Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando... Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:
Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto... Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me Na boca imperial que humanizou um Santo...
Nasci antes de Cristo, muitas vidas antes, antes de Rama, Buda , Khrishna ou Maomé . Vivi em Atlântida e Mu, muito antes da Queda.
Conheci os egípcios, vivi nos seus Templos antigos, fui iniciada nos Grandes Mistérios, antes mesmo das Pirâmides de Gizé.
Viajava no Nilo entre as duas terras, era fiel a Hapi e a Ptah. Lia nas estrelas a glória de Nout e cantava nas festas a Hathor! Ah! Era dourada a Sua Imagem e, como os teus os seus olhos brilhavam doces na alvorada...
Outras vezes, íamos ver Shekmit, evocar a deusa Bastit, a quem me ensinavas a amar nas noites de luar. E como a gata do templo, tu dançavas e esvoaçando as tuas vestes deixavas antever o teu corpo nu de estátua...
E eu extasiada pela tua visão, não sabia se eras tu ou a própria deusa encarnada quem para mim dançava. Nesse tempo era feliz ! Amava a vida e a terra ainda era sagrada.
O seu formoso Corpo cruel de Deusa omnipotente, Voluptuoso, De pé, naquela altiva soledade, Como enlevado, extático, sorrindo, Domina a planetária imensidade E o céu infindo...
Enche o meu peito, num encanto mago, O frémito das coisas dolorosas... Sobe as urzes queimadas nascem rosas... Nos meus olhos as lágrimas apago...
FLORBELA ESPANCA
O mundo, no qual nascemos, sofre de século e meio de renúncia e de violência – da renúncia dos superiores e da violência dos inferiores, que é a sua vitória.
Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se modernamente, tanto na acção, como no pensamento, na esfera política, como na espéculativa.
A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde uma sensibilidade fina não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contacto da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço.
FERNANDO PESSOA
Tuesday, April 05, 2005
Burgueses somos nós todos ó literatos burgueses somos nós todos ratos e gatos.
Meu amor, finge que eu sou louca e faz de Deusa para mim! Disfarça-te de Fada e deixa que te ponha estrelas a enfeitar os cabelos...
Sim, finge que eu sou louca e aceita o que te peço, veste-te de Rainha... Põe safiras na testa e pérolas no peito e deixa que me ajoelhe a teus pés e as mãos te beije...
Deixa que te dispa e cubra de flores, acácias, rosas e jasmins. Deixa-me, sacrílega, cobrir-te com um manto de Luz E rezar-te como se divina imagem fosses!
Ah, finge que eu sou louca e mais do louca, demente E aparece como que vinda de outros mundos... Pega na minha mão e leva-me contigo para longe daqui!
Ah, finge que sou mesmo louca! Deixa que te beija a boca e morra de vez...
Do Livro "Mulher Incesto Sonata e Prelúdio" R.L.P.
Amo-vos tanto, Senhora minha, mais do que nenhum cavaleiro errante neste mundo jamais vos amou.
Amo-vos tanto, eterna dama, tanto e mais como jamais santo algum nesta vida vos adorou.
Amo-vos cada dia mais e mais, e tanto mais quanto mais perto da minha alma estou.
Ah, amo-vos muito mais do que Dante no inferno Beatriz amou, mais do que Romeu amou Julieta, que só por uma morte passou...
São tantas as minhas mortes por amor de vós que nem Cristo por amor da humanidade, tantas vezes ressuscitou...
in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio" Rosa Leonor Pedro
Friday, April 01, 2005
"A revelação e a dor nos salvam da zona morta. Elas nos permitem deixar para trás o culto fatal dos segredos. Podemos chorar e chorar muito, e sair cobertas de légrimas, mas não manchadas de vergonha. Podemos sair daí mais profundas, com o total reconhecimento de quem somos e plenas de uma nova vida." C.P.E.
OH estrela da tarde, dos astros todos o mais formoso...
Tenho saudades do teu corpo: ouviste correr-te toda a carne e toda a alma o meu desejo – como um anjo triste que enlaça nuvens pela noite calma?...
Anda a saudade do teu corpo (sentes?...) Sempre comigo: deita-se ao meu lado, dizendo e redizendo que não mentes quando me escreves: « vem, meu todo amado...»
É o teu corpo em sombra esta saudade... Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra: a luz do seu olhar é escuridade...
Fecho os olhos ao sol para estar contigo. Eh de noite este corpo que me assombra... Vês?! A saudade é um escultor antigo!
Eu queria ser mulher para me poder estender Ao lado dos meus amigos, nas “banquettes” dos cafés. Eu queria ser mulher para poder estender Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos no café.
Eu queria ser mulher para não Ter que pensar na vida E conhecer muitos velhos a quem pedir dinheiro -- Eu queria ser para passar o dia inteiro A falar de modas e a fazer “potins” - muito entretida.
Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -- Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios, Que num homem, francamente, não se pode desculpar.
Eu queria ser mulher para Ter muitos amantes E enganá-los a todos -- mesmo o predilecto -- Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto, Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse, Eu queria ser mulher para me poder recusar...
(Poema inacabado de Mário Sá-Carneiro enviado a Fernando Pessoa)
A frase “invocar a Musa” foi empregue muitas vezes de forma errada, o que obscurece o sentido poético: íntima comunhão do poeta com a Deusa Branca considerada como a fonte de toda a verdade.
Os poetas representaram a verdade como uma mulher nua, uma mulher privada de qualquer artifício que permitiria pela sua visão ligarem-se a um certo ponto do tempo ou do espaço. (...) O poeta é um apaixonado da Deusa Branca da Verdade: o seu coração consome-se por ela e na espera do seu amor.
Ao céu da tua boca eu quero ir e na minha língua sentir o néctar jorrar...
Enquanto tu, figura alada, com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar, eu convulsamente mergulho no teu ventre indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater para romper os véus da nossa existência, vir de novo à terra voltar ao céu da tua boca e voar na minha alma ao teu lado deitada.
"A palavra também é destino, pois ela anuncia aquilo que foi decidido pelos poderes; além disso, a maldição e a benção dependem dos rituais mágicos que estão sob o domínio das mulheres. Aquilo que mais tarde passamos a chamar de poesia teve origem na fórmula dos sortilégios e nos cânticos mágicos que emergem espontaneamente das profundezas do inconsciente de onde trazem à tona suas formas características; seu próprio ritmo, além do vigor e da sensualidade peculiares de sua imagem"
Eh, como outrora era outra a que eu não tinha! Como amei quando amei! Ah, como eu via Como e com olhos de quem nunca lia Tinha o trono onde ter uma rainha
Sob os pés seus a vida me espezinha. Reclinando-te tão bem? A tarde esfria... Ó mar sem cais nem lado nem maresia, Que tens comigo, cuja alma é a minha?
Sob uma umbela de chá em baixo estamos E é subita a lembrança Da velha quinta e do espalmar dos ramos Sob os quais a merendar - Oh, amor da glória! Fecharam-me os olhos para toda a história! Como sapos saltamos e erramos...
"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração, então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."
"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim. Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."
Quero confesar, pois, á vossa inteligencia, que toda a luxúria em que ritmei certas attitudes nos meus poemas representa sobretudo a forma mais pomposa e elegante que poderia corresponder a uma atitude interior mais comandada pela Arte do que pelos avisos duma moral que uma sociedade se cansa em recomendar aos outros á força de a infringir. Vivi nas horas dessa ardente concepção, esta luxúria, que era a forma de minha Sinceridade.16 (...) Para os que reduzem a vida a um sistema de simulação e mentiras, desde os actos mais íntimos do seu carácter até á negação duma dívida na mercearia vizinha, o público, é o seu pânico irreprimible. Parece que a estas boas almas que o público lhes lê nos olhos o forro torpe da sua vida. Desta minha alta concepção dos processos morais da existência, desta minha singular lealdade de «afirmar», nasceu, pois, o desacordo entre mim e a Maioría.
JUDITH TEIXEIRA - Escritora portuguesa vanguardista dos anos 20
Adoro o Inverno. Envolvo-me assim mais no teu carinho Friorenta e louca Nascem-me na alma os beijos Que se vão aninhar na tua boca!
Gosto da neve a diluir-se ao sol Em risos de cristal! Vem-me turbar a ânsia do teu rogo E a neve fulgente Dos meus dentes trémulos Vai fundir-se na taça ardente, Rubra e original Na qual eu bebo os teus beijos em fogo!
Tu adormentas a minha dor na doce sombra dos teus cabelos, E eu envolvo-me toda nos teus braços Para dormir e sonhar! - Lá fora que não deixe de chover, E o vento que não deixe de clamar!
Deixá-lo gritar! Que importa o seu clamor, Se me abrasa o teu olhar Vivíssimo?! Ateia, meu amor, o fogo em que me exalto - Enrola-me mais Ainda mais no teu afago; Que esta alegria do nosso amor Suavíssimo, Será mais forte e gritará mais alto!
Pensar em nada é ter a alma própria e inteira. Pensar em nada É viver intimamente O fluxo e o refluxo da vida.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha".
Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim.
Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim.
Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim.
Quem agora morre em algum lugar no mundo, Sem razão morre no mundo, Olha para mim.
Rainer Maria Rilke
"Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente, Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens, Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem..." A.C.
Porém nada valeu em face da última visão: Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caíndo agora, em jorros, do alto da cúpula -- e o pano rasgou-se sobre um vago tempo asiático...Ao som de uma música pesada, rouca, longínqua -- Ela surgiu, a mulher fulva... E começou dançando...
Envolvi-a uma túnica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos, loucamente. Jóias fantásticas nas mãos; e os pés descalços, constelados... Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, húmidos, frios de cristal; o marulhar da sua carne ondeando; o alcóol dos seus lábios que, num requinte, ela dourara -- toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente... Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se...
in A CONFISSÃO DE LÚCIO de Mário Sá-Carneiro
Ao céu da tua boca eu quero ir e na minha língua sentir o néctar jorrar...
Enquanto tu, figura alada, com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar, eu convulsamente mergulho no teu ventre indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater para romper os véus da nossa existência, vir de novo à terra voltar ao céu da tua boca e voar na minha alma ao teu lado deitada.
in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio" ROSA LEONOR PEDRO
Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas, (...) Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.
Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita; A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário, Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração. Yeats
FOGOS...
"Partes? Partes?...Não, não te vais embora. Retenho-te... nas minhas mãos deixaste a tua alma como se fosse um manto."
"Não cairei. Alcancei o centro. Escuto a pulsação de não sei que divino relógio através do fino invólucro carnal da vida plena de sangue, de sobressaltos e de suspiros. Estou perto do núcleo misterioso das coisas como, à noite, estamos às vezes perto de um coração."
os colares de corolas várias e fragrantes em redor de um colo delicado;
as essências de ervas raras e um perfume real derramado sobre a pele;
o leito onde o desejo profundamente apaziguavas a meu lado...
SAFO
A "divina beleza", que aqui nos aparece envolta em seda verde, ornamentada com prata, ouro e pedras preciosas, possui uma carga fortemente numinosa, e conduz o adepto a uma experiência do centro"(...)
A ORAÇÃO Na ponta do coração um átomo que é activado pela súplica... Podem esmagar-vos de tal maneira que pensais que já nada resta de vós. No entanto, subsistirá sempre um átomo de vós, e ele poderá reconstituir para vós o universo inteiro. Esse átomo é o Dom de orar, de suplicar. É o maior Dom que Deus deu ao ser humano, pois se ele não existisse o ser humano teria desaparecido há muito tempo.
Essa ideia de um “átomo da oração”, de que ninguém fala, deve parecer-vos absolutamente inaceitável, impossível de acreditar... Contudo, na Ciência iniciática já ouviste dizer que existe na ponta do coração um átomo que tem como papel registar tudo o que o ser humano pensa, sente e vive ao longo da vida. Esse átomo não tem o poder de intervir para modificar seja o que for; ele apenas regista. Na realidade é uma bobine minúscula que se vai desenrolando sem parar do começo ao fim da existência e, no momento da morte, ela pára para sempre.
(...) E com rubis e rosas, neve e ouro, Formou sublime e angélica beleza. Pôs na boca os rubis, e na pureza Do belo rosto as rosas, por quem mouro; No cabelo o valor do metal louro; No peito a neve em que a minha alma tenho acesa. Mas nos olhos mostrou quanto podia. E fez deles um sol, onde se apura A luz mais clara que a do claro dia.
Enfim, Senhora, em vossa compostura Ela a apurar chegou quanto sabia De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Camões
Sunday, March 13, 2005
"Temos de descobrir por nós mesmos - e não por intermédio de quem quer que seja - o que é a meditação. Tem-se aceitado a autoridade de instrutores, salvadores e mestres. Se realmente queremos saber o que é a meditação temos de pôr de lado toda a autoridade."
"Na meditação temos de descobrir se é possível um cessar dos conhecimentos, e libertarmo-nos, assim, do conhecido."
Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê? (...) (Carlos Drummond de Andrade)
"O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo."
Nem semanas nem meses - anos levamos nos separando. Eis, finalmente, o gelo da liberdade verdadeira e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.
Não mais traições, não mais enganos, e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer, enquanto flui o riacho das provas da minha mais perfeita inocência.
Bebido o luar, ébrios de horizontes, Julgamos que viver era abraçar O rumor dos pinhais, o azul dos montes E todos os jardins verdes do mar. Mas solitários somos e passamos, Não são nossos os frutos nem as flores, O céu e o mar apagam-se exteriores E tornam-se os fantasmas que sonhamos. Por que jardins que nós não colheremos, Límpidos nas auroras a nascer, Por que o céu e o mar se não seremos Nunca os deuses capazes de os viver.
Sou uma religiosa sem igreja, Uma reclusa sem convento, amante de uma deusa sem altar. Vivo na pele o tormento de uma humanidade que ainda não é. Vivo no mundo sem nele já acreditar.
Sou sacerdotisa de um templo destruido à procura de um novo amor e uma nova fé. Olho num único sentido, íntimo, profundo no centro de mim mesma e espero a luz...
A luz de um outro mundo e a única esperança. Com ele há-de vir a nova criança e a deusa Em que ainda descansa e as duas serão um só. Numa epifania de cores e harmonia, ele virá, Sem armas nem ódios, o novo Milénio.
Rosa Leonor Pedro
"Não sou um escritor, sou alguém que busca; conduzo um combate espiritual; espero que o meu espírito se abra a uma luz qualquer que não tenha nome nos nossos idiomas."
EU QUERIA POISAR COMO UMA ROSA SOBRE O MAR O MEU AMOR NESTE SILÊNCIO
SOPHIA de Mello Breyner
Dá-me lírios, lírios E rosas também. Dá-me rosas, rosas, E lírios também, Crisântemos, dálias, Violetas, e os girassóis Acima de todas as flores...
Deita-me as mancheias, Por cima da alma, Dá-me rosas, rosas, E lírios também...
Meu coração chora Na sombra dos parques, Não tem quem o console Verdadeiramente, Exceto a própria sombra dos parques Entrando-me na alma, Através do pranto. Dá-me rosas, rosas, E llrios também... (...) Fernando Pessoa
Pousa a tua cabeça dolorida Tão cheia de quimeras, de ideal, Sobre o regaço brando e maternal Da tua doce Irmã compadecida.
Hás-de contar-me nessa voz tão qu'rida A tua dor que julgas sem igual, E eu, pra te consolar, direi o mal Que à minha alma profunda fez a Vida.
E hás-de adormecer nos meus joelhos... E os meus dedos enrugados, velhos, Hão-de fazer-se leves e suaves...
Hão-de pousar-se num fervor de crente, Rosas brancas tombando docemente, Sobre o teu rosto, como penas de aves...
Florbela Espanca
Saturday, March 05, 2005
Um dia estarás morta e ninguém de ti terá saudades ou memória pois as rosas de Piétria não colheste. Desconhecida até na casa de Hades entre sombras deambularás dos mortos.
Quanto, à noite, espero a tua chegada, a vida me parece suspensa por um fio. Que importam juventude, glória, liberdade, quando enfim aparece a hóspede querida trazendo nas mãos a sua rústica flauta? Ei-la que vem. Soergue o seu véu, olha para mim atentamente. E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".
Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro?
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego,
A PRIMEIRA ELEGIA
Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens dos anjos? e mesmo que um me apertasse de repente contra o coração: eu morreria da sua existência mais forte. Pois o belo não É senão o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar, e admiramo-lo tanto porque, impassivel, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrivel E assim eu me reprimo e engulo o chamamento dum soluçar escuro. Ai! de quem nos poderiamos então valer? Nem de anjos, nem de homens, e os bichos perspicazes reparam já que nós não estamos muito confiantes em casa neste mundo explicado. (...)
Sendo a condição humana dramática, o seu destino e a sua existência embebidos em dor, o Ser lúcido que possua em alto grau a força de pensar e de sentir, estará mais naturalmente inclinado à tristeza do que ao riso. Assim a tragédia, produto natural de um pensamento-vivência, premente de angústia e de tristeza é, apesar disso, dinamizante na medida em que estimula um progresso. Colocando o ser perante um destino que parece inexorável, aponta-lhe paradoxalmente os caminhos de esperança da transcendência
ANA HATHERLY
"Eles tomam, sonhando, nobres atitudes. Grandes esfínges alongadas no fundo das solidões que parecem dormir um sono sem fim."
BAUDELAIRE
OS Gatos são a nossa paixão abençoada pela alma que põem no que são e no que sabem, pela ternura que guardam no que escondem. São os gatos de Baudelaire, de Eliot e Paul Klee, os da rua, do oriente ou do universo, os gatos gémeos das estrelas e das mariposas, os gatos que se perdem entre as açucenas, os guardiões da alquimia do não dito. Pela boca dos gatos diz-se a liberdade de quem se dá só a quem ama. Perfil bordado sobre os panos de luar. (...)
Listas de som avançam para mim a fustigar-me Em luz. Todo a vibrar, quero fugir...Onde açoitar-me? Os braços duma cruz. Anseiam-me, e eu fujo também do luar...
Um cheiro a maresia Vem-me refrescar, Longínqua melodia Toda saudosa do Mar... Mirtos e tamarindos Odoram a lonjura; Resvalam sonhos lindos... Mas o Oiro não perdura E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico supulto sob círios, Escureço-me em delírios Mas ressurjo de ideais...
- Os meus sentidos a escoarem-se... Altares e velas... Orgulho ...Estrelas... Vitrais! Vitrais!
Flores de Lis...
Manchas de cor a ogivarem-se... as grandes naves e sangrarem-se... - Nossa Senhora de Paris!...
Paris, Junho de 1913 MÁRIO SE SÁ-CARNEIRO
Saturday, February 26, 2005
Surge dos lados do oriente a luz loura do luar de outro. O rastro que faz no rio largo abre serpentes no mar.
O LIVRO DO DESASSOSSEGO fernando pessoa
MUSA
Aqui me sentei quieta Com as mãos sobre os joelhos Quieta muda secreta Passiva como os espelhos Musa ensina-me o canto Imanente e latente Eu quero ouvir devagar O teu subito falar Que me foge de repente
Enquanto o ouroboros continuar dormindo em nós seremos sempre corpos de uma outra cabeça. De cada vez que uma só gota do teu íntimo se escape verás que ela se condensa e de tal modo se adensa que entre ti e aquele que entreviu apenas só cílio do teu íntimo se erguerá uma grade, uma barreira, uma lança.
E essa lança é a ti próprio que fere.
O íntimo é aquela substância, lagarta em permanente metamorfose de que tu és apenas o invólucro, a segregação visível da glândula ìntimo e as tuas metamorfoses aão as tuas.(...)
"Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos, enquanto eu amei os teus. Minha candura foi por ti pisada. Não me amaste, disso eu sei. Estive só. Só de ti. Escrevo para ninguém e está-se fazendo um improviso que não existe. Descolei-me de mim. (...) Sinta-se bem. Eu na minha solidão quase vou explodir. Morrer deve ser uma explosão interna. O corpo não aguenta mais ser corpo. E se morrer tiver o gosto da comida quando se está com fome? E se morrer for um prazer, egoísta prazer?"
Qual é a tarde por achar Em que teremos todos razão E respiraremos o bom ar Da alameda sendo verão,
Ou, sendo inverno, baste 'star Ao pé do sossego ou do fogão? Qual é a tarde por voltar? Essa tarde houve, e agora não.
Qual é a mão cariciosa Que há de ser enfermeira minha — Sem doenças minha vida ousa — Oh, essa mão é morta e osso ... Só a lembrança me acarinha O coração com que não posso
FERNANDO PESSOA
Wednesday, February 23, 2005
Ah, pudesses tu dormir no peito da mais terna amiga...
SAFO
"Só Se Possuem Eternamente os Amigos de Quem Nos Separamos"
"O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo."
Ela caminha na beleza como a noite De climas sem nuvéns e noites estreladas. E tudo o que há de melhor no escuro e no brilhante Encontra-se na sua imagem e nos seus olhos
Macia à luz suave No qual o céu nega ao seu dia luminoso L.B.
"O QUE DEVEMOS É SALTAR NA BRUMA, CORRER NO AZUL À BUSCA DE BELEZA"
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo, Luz morta de luar, mais alma do que lua... Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua, Alastra-se para mim num espasmo de segredo...
Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas... O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou... Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou... E o seu corpo resvala a projectar estátuas...
Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me, Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando... Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:
Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto... Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me Na boca imperial que humanizou um Santo...
"Os animais foram destinados a acompanhar-vos, a ocupar o espaço para ensinar, mostrar e partilhar o caminho convosco. Eles não são mais do que uma criação biogenética baseada em genes oriundos de muitos sistemas solares e planetas diferentes. Vêm de uma variedade de comunidades extraterrestres e parecem-se com os seus antecessores que são seres com capacidades de percepção sensorial noutros planetas. A sua criação permite que representantes desses sistemas tenham um laço genético com a Terra e, portanto, a possibilidade de espreitar e enviar mensagens para este mundo. Esta faceta da criação não foi realmente nunca compreendida.
Alguns dos animais existentes na Terra são utilizados como transmissores. Os vossos gatos são transmissores directos de informação para uma espécie de consciência que usa os gatos para vos proteger. Em tempos antigos, em muitas culturas no vosso planeta estava em voga ter um leão ou um outro gato de grande dimensão junto à entidade dirigente.
A família do gato representa uma instrumentalização biogenética de uma espécie que se parece convosco, excepto que tem cara de gato. As espécies felinas vieram ao planeta em vagas e trabalharam na América do Sul, México, Egipto e nalgumas culturas insulares. Quando ensinaram a espécie humana ou quando misturaram a sua espécie com os humanos e criaram governantes aqui, especialmente no Egipto, deixaram os gatos para transmitir informação a fim de que os dirigentes pudessem ter contacto directo com a espécie oriunda das estrelas. Assim, recebiam telepaticamente dos gatos orientações preciosas para a tomada de decisões.
Mais recentemente, os gatos eram pertença das bruxas, pois eles representavam elos com outros reinos.
Traduzido e adaptado de Barbara Marciniak, EARTH, Bear & Co., 1994
"O olhar dos gatos estabelece um verdadeiro elo telepático que permite mergulharmos magicamente no cosmos numa troca de energia vbratória. O gato é um íman, um fixador do invisível que nos rodeia e que nós nem sempre sabemos reconhecer!"
"GATO QUE ME FITAS COM OLHOS DE VIDA, QUE TENS LÁ NO FUNDO"
"A experiência de um ser não pode transformar outro ser. Aquele que quer realizar a sua Unidade espiritual acima do comum tem de sair do “rebanho”, e enfrentar sozinho o desvendar do seu ser e através de si mesmo, do Universo."
"Não aprendemos senão aquilo que experimentamos na nossa pele e sem que o tenhamos sofrido interiormente.”
“ Assumir a Luz é não fazer nada. É ser capaz de começar por não fazer nada... Precisas de chegar a essa ignorância essencial e ficar quieto, sem projecto, límpido, inocente, transparente, para que o Outro que tu És nos Planos Cósmicos, possa escrever nesse Quadro Branco...”
Àquele lado do tempo onde abre a rosa da aurora, chegaremos de mãos dadas, cantando canções de roda com palavras encantadas. Para além de hoje e de outrora, veremos os Reis ocultos senhores da vida toda, em cuja etérea Cidade fomos lágrima e saudade por seus nomes e seus vultos.
Àquele lado do tempo onde abre a rosa da aurora e onde mais do que a ventura a dor é perfeita e pura, chegaremos de mãos dadas.
Chegaremos de mãos dadas, Tagore, ao divino mundo em que o amor eterno mora e onde a alma é o sonho profundo da rosa dentro da aurora.
Chegaremos de mãos dadas cantando canções de roda. E então nossa vida toda será das coisas amadas.
Sunday, February 06, 2005
"A MEDITAÇÃO É AQUELA LUZ QUE, NA MENTE, ILUMINA O CAMINHO DA ACÇÃO; E SEM ESSA LUZ NÃO EXISTE AMOR."
J. Krishnamurti
Aquele que vê todos os seres no seu próprio Eu,
e o seu próprio Eu em todos os seres, esse perde todo o medo.
Quando um sábio vê esta grande Unidade e o seu Eu se tornou todos os seres, que desilusão ou desgosto se lhe poderão jamais aproximar?
Canta, meu coração, os jardins que não conheces;
Jardins como que vazados em vidro, claros, inacessíveis.
Água e rosas de Ispahan ou de Xiraz,
canta-os ditosos, louva-os, a nenhum comparáveis.
Mostra, meu coração, que nunca deles te privas.
Que os seus figos a amadurecerem pensam em ti.
Que convives c'os seus ares que entre os seus ramos
em flor se sublimam como em faces.
Evita o erro das privações
para a resolução acontecida: de ser!
Fio de seda, vieste entrar na teia.
A qualquer das imagens que no íntimo venhas unir-te
(seja mesmo um momento da vida da dor),
sente que o que se tem em vista é o tapete, inteiro e glorioso.
De amor nada mais resta que um Outubro e quanto mais amada mais desisto: quanto mais tu me despes mais me cubro e quanto mais me escondo mais me avisto. E sei que mais te enleio e te deslumbro porque se mais me ofusco mais existo. Por dentro me ilumino, sol oculto, por fora te ajoelho, corpo místico. Não me acordes. Estou morta na quermesse dos teus beijos. Etérea, a minha espécie nem teus zelos amantes a demovem. Mas quanto mais em nuvem me desfaço mais de terra e de fogo é o abraço com que na carne queres reter-me jovem.
O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.
Fernando Pessoa, 5-9-1933
Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente.
f.p.
Sinto de ti uma saudade imensa, maior que a
distância e o tempo, pois tempo ela não ousa,
espaço ela não vive. Sinto de ti uma saudade imensa.
De palavras no meio da noite, de conchas que ouviam
como ao mar, as vagas de meu pranto recolhidas,
do afago incessante nos meus sonhos,
um vento cálido que velava a alma,
acalentando o cansaço de meus dias.
Sinto de ti uma saudade imensa, longa como meus olhos
que se perdem, pois olhos ela não conhece,
e perda sempre foi. Sinto de ti uma saudade imensa...
De teus desejos e rimas, de palavras que sorriam
como o sol na madrugada em mim.
E a lua-rede aos nossos corpos
mais que escritos em nós mesmos.
Sinto de ti uma saudade imensa... e penso: não existe onde...
o quando é infinito. Neste espaço lento da demora,
pergunto ao sonho de um ainda: quem, neste vazio tão triste,
soprou o sempre e apagou o horizonte?
"Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa. A garantia única é que eu nasci. Tu és a forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: eis os limites de minha possibilidade.
Estou numa delícia de se morrer dela. Doce quebranto ao te falar. Mas há a espera. A espera é sentir-me voraz em relação ao futuro. Um dia disseste que me amavas. Finjo acreditar e vivo, de ontem para hoje, em amor alegre. Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo."
Escreve, se puderes, pois meu corpo oscila, veloz, no círculo
do vento
escreve antes que o sol sangre de mim.
Escreve, se puderes, hoje ainda, assim o grão do teu corpo
o permita
escreve antes que a nostalgia desça sobre nós.
Escreve, se puderes, contra a morte, até se perderem tuas
ávidas mãos
escreve antes que em meu colo caiam mutiladas.
A boca,
onde o fogo de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.
Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
“Andar sempre à procura de “experiências transcendentes”, mais variadas e intensas, é uma forma de fugir da realidade presente, daquilo que é, ou seja, de nós mesmos, da nossa própria mente condicionada. Uma mente desperta, inteligente, livre, que necessecidade tem dessas experiências?
A Luz é Luz; não anda à procura de mais Luz.”
In MEDITAÇÕES
J.Krishnamurti“
"Assumir a Luz é não fazer nada. É ser capaz de começar por não fazer nada... Precisas de chegar a essa ignorância essencial e ficar quieto, sem projecto, límpido, inocente, transparente, para que o Outro que tu És nos Planos Cósmicos, possa escrever nesse Quadro Branco..."
Nunca amamos alguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso – em suma é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade a toda a escala do amor. (...)
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constituia actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. (...)
"e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. Gherardo, não te enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos."
" Se alguma coisa há que esta vida tem para nós, e, salvo a mesma vida, tenhamos que agradecer aos Deuses, é o dom de nos desconhecermos: de nos desconhecermos a nós mesmos e de nos desconhecermos uns aos outros. A alma humana é um abismo obscuro e viscoso, um poço que se não usa na superfície do mundo. Ninguém se amaria a si mesmo se deveras se conhecesse, e assim, não havendo a vaidade, que é o sangue da vida espiritual, morreríamos na alma de anemia. Ninguém conhece outro, e ainda bem que o não conhece, e, se o conhecesse, conheceria nele, ainda que mãe, mulher ou filho, o íntimo, metafísico inimigo."