Sunday, May 29, 2005

O espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.


Natália Correia

Teu corpo/meu espaço

À MEMÓRIA DA POETISA QUE UM DIA CONHECI EM PARIS...

Teu corpo é raiz
rasgando a terra nua
do meu sexo

Teu corpo é vertical
onde os meus dedos tocam as distâncias

Teu corpo é diálogo sem palavras
O grito em ressonância
no meu espaço


Manuela Amaral

Ser mulher

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Gilka Machado

Saturday, May 28, 2005

Rejeita o aplauso, ó crente; o aplauso conduz à ilusão de si próprio. O teu corpo não é Personalidade, a tua Personalidade é, em si, sem corpo, e o elogio ou a censura não a atingem.

"O contentamento de si próprio, ó discípulo, é uma torre altíssima, à qual um insensato orgulhoso subiu.
Ali se senta em orgulhosa solidão, invisível a todos, salvo a si próprio.


Excertos de "A VOZ DO SILÊNCIO"
H.P.Blavatsky
(Traduzido por Fernando Pessoa)

UM DIA QUE NÃO CHEGA

ando a inventar um dia
que não chega
desde o distante dia
em que nasci

tempo do não ruído
azul e violeta como os céus
numa pintura antiga

todos à escuta
de alguma coisa na linha muda do horizonte sem fim
alguma coisa que haveria de nos tocar
como a cor da terra
como sal de água espumosa e viva
na pele de alguém adormecido

um tempo
para entrançar
flores e esperança
nos membros soltos da mulher dançante
para abrigar
a luz e a sombra
na cova uterina dos princípios
um tempo
para juntar mortos e vivos
no mesmo mantra redentor

como
quando os cenários se apagam
no sentir do abraço
e tudo nos parece
desmedidamente
uma coisa só


MARIANA INVERNO

Wednesday, May 25, 2005

A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

"A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida... "


(...)

Fernando Pessoa..

Pelas malditas horas que vivi

Pelo sagrado amor que vem de ti,
amor que eu amo com amor sagrado;
pelo Ideal descoberto e realizado,
- bendita seja a hora em que te vi!

no desejo de amor tão desejado;
pelas horas benditas ao teu lado,
- bendita seja a hora em que nasci!

Pelo triunfo enorme, pelo encanto
que me trouxeste, é que eu bendigo tanto
a hora suave que te viu nascer...

Amor do meu amor! Amor tão forte,
que se um dia sentir a tua morte,
será bendita a hora em que eu morrer!


VIRGÍNIA VITORINO (1897-1967)

Sunday, May 22, 2005

A DEUSA



Ah, verdadeiramente a deusa! -
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com sòmente a adivinhar.

Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.

Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonho, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.


IN poesias inéditas - FERNANDO PESSOA

NÃO

Não formar nenhuma ideia
do que somos ou seremos
mas entre as vozes que fogem
precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
que penetram no espaço
de eventos primaveris.
E dar as mãos aos espectros
beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
abraçar quem nos ignora
dormir com quem não nos vê
mas precisar do calor
de quem nunca nos encontra.



NATÉRCIA FREIRE

Thursday, May 19, 2005

minha raiva de ternura

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda


Maria Tereza Horta



Meu ser vive na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim


FERNANDO PESSOA

Se eu fosse apenas uma rosa

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
– de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...


Cecília Meireles

Saturday, May 07, 2005

voar na minha alma

Ao céu da tua boca eu quero ir
e na minha língua sentir o néctar jorrar...

Enquanto tu, figura alada,
com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar,
eu convulsamente mergulho no teu ventre
indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater
para romper os véus da nossa existência,
vir de novo à terra
voltar ao céu da tua boca
e voar na minha alma ao teu lado deitada.


in "Mulher Incesto"
r.l.p.

Friday, May 06, 2005

Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.


Clarice Lispector



“[...] O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!”

Florbela Espanca, Carta no. 147, volume V, Lisboa, junho de 1930

SAUDADA DA ALMA

Vejo o mundo os barcos
o inebriante azul que nos perpassa
não te vejo só aos barcos
mais a sombria nuvem que ora passa

Sinto quase mágoa, quase uma dor
Não te vejo só ao vento
Onde estarão alma amada
as nossas amplas asas de condor?



TESSA ESTATE

Wednesday, May 04, 2005

Vôo



Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.


Cecília Meireles

Fecundação

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.


Gilka Machado

Sunday, May 01, 2005

BRANCAS ROSAS...



EDÍLIO


A luz do teu olhar
Fundo meu corpo em sonho, em lágrimas e luar!
Teu divino sorriso
É voz de anjo a mandar-me entrar no Paraíso...

Teu sorriso, que me lembra a doce aurora,
Minhas lágrimas tristes evapora
E, nos meus olhos, fica a tua imagem bela...
Assim o fresco orvalho matutino,
Onde encantado vive o sol menino,
Deixa, nas brancas rosas, uma estrela...

Ao descobrir-te, flor,
Todo me exalto e elevo, em cânticos de amor,
Perco-me na amplidão...

Sou asa entontecida, aroma, comoção,
Se me tocam, de leve,
Os teus olhos de chama e as tuas mãos de neve!

Alegre, choro; rio, sempre aflito!
Canto, soluço e grito!
Sou oração, queixume,
Relâmpago, nevoeiro, onde do mar, perfume,
Quando, da tua face,
Límpida rosa nasce
E de ti se desprende o encanto da manhã,
Que é tua sombra mística e pagã;
Quando, ao doirado zéfiro, estremeces
E, aureolada de beijos, resplandecentes,
Como florido arbusto...
E és o sol esculpido em feminino busto.


(continua)

in VIDA ETÉREA -TEIXEIRA DE PASCOAIS

À MINHA MÃE...

TERRA SEM MÃE...

Infinita nostalgia
A de teus braços.
Ombros vergados
pela memória
de me teres ao colo.

Mãe de mãos esguias
tua filha espera.
Vem junto a mim
para que te conte
como o medo é certo.

Imaculada, branca dor
a de te sentir tão viva
o tempo já sabe a mágoa
quando te digo, volta,
e tudo se desmorona.

No colo o filho
conta-me histórias
de como a dádiva
o adormecia
na tua voz.

Choro, porque agora é tarde
E nem sei onde estás
Nesse céu tão vasto
Sem lugar para mim.


In TERRA SEM MÃE
ANA MARQUES GASTÃO

Friday, April 29, 2005




Excelsa Senhora do Universo:
Concede-me que no azul do firmamento
contemple o teu mistério.
Permite o que ternamente move o coração humano
e com amor puro a ti conduz.


in Fausto de Goethe

A TUA IMAGEM

Tenho a tua imagem gravada no mais fundo do meu coração:
olhos internos, fibras e nervos te vêem.

Corre no meu sangue como um rio
e eu deixo-me levar na corrente do teu ser.

Bebo a tua seiva e ergo-me
como a coluna do templo em que és rainha
e minha no mais sagrado altar em que te posso abrigar.

Guardam-me a alma os teus olhos
que me seguem a cada silêncio e em cada gesto.

Queria abraçar-te o ventre e adormecer suavemente a teus pés

Como o pedinte à porta de uma igreja ou o nómada do deserto,
a minha sede de ti é eterna, ó mãe do céu e da terra em que nasci!


in "Mulher Incesto" - R.LEONOR PEDRO


O complexo mitológico do incesto pode, numa das suas acepções particulares, inserir-se neste conjunto. A Mulher que desempenhou o papel de "mãe", que forneceu ao ser dividido a "Água da Vida" e da ressurreição (o "segundo nascimento" próprio dos Mistérios Menores) é possuída por aquele que, de certo modo, gerou e é seu filho.

(...) A OBRA

Wednesday, April 27, 2005

A alma não tem justiça

Hoje estou triste, stou triste.
Starei alegre amanhã...
Sempre em qualquer coisa vã.

Ou a chuva, ou o sol, ou a preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.

Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
Stou triste. A tarde está fria.
Amanhã, o sol e a razão.

FERNANDO PESSOA

Nunca amamos alguém



Nunca amamos alguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso – em suma é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade a toda a escala do amor.

(...)
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constituia actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. (...)


O LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando pessoa

Monday, April 25, 2005

SEDE

Ó minha amada, de ti sou insaciável
Tenho fome e sede do teu corpo como de pão e água!

Uma ânsia infinita dos teus olhos,
Uma premência inaudita do teu ser
E da tua boca, oh! Nem quero falar porque desvairo
E desfaleço da sede de te beijar!

Ó delíquio da fusão, ó sonho de ti renascer
E como na origem só uma ser.

Eu e tu , mãe eterna na minha alma inteira a vibrar,
Liquefeita eu nesse mar do teu olhar,
para sempre no teu Santo Nome mergulhar.

Ó minha amada, de mim sou insaciável!


In “Mulher Incesto” -R.L.P.

“MINHA MÃE MEU AMOR”

1

Falei-te
De um passado
Cheio de ondinas
De sereias e de aves

Com uma mãe por detrás
A comandar as fadas
»»»»»»»»»

1

Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:

Com árvores
e oceanos

Penumbras incessantes
num enredado princípio

E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início


MARIA TERESA HORTA:

neste mesmo momento

6 - Tenho pela mentira um horror quase físico. Sinto-a à distância e agora...neste mesmo momento... sinto-a a vaguear, asquerosa e suja, em volta de da minha alma que vibra no orgulho de ser pura. Se os outros me não conhecem, eu conheço-me, e tenho orgulho, um incomensurável orgulho em mim!

DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO - Florbela Espanca

Sunday, April 24, 2005

OS UPANISHADES

"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração,
então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."

"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim.
Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."


HÁ NOITES

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
(...)
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo ...

Natália Correia

Saturday, April 23, 2005

A CONSCIÊNCIA, O AUTÓMATO E O GATO...

(...)
"O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.
Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.


Ao contrário de outros animais que nos dão uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.
Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto;
a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono:
há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília;
a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo;
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade;
constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão:
vencedor indiferente, ele nunca é vencido.

"A serenidade é o fruto da independência.
Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... Um a coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição."
(...)

In « L’OUVERTURE DU CHEMIN » de ISHA s. DE LUBCZ

LONGE E PERTO

Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
(....)
Escrever seria amar-te? Seria
Interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu corpo frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz


ANTÓNIO RAMOS ROSA
Boca Incompleta, 1977

Tuesday, April 19, 2005

Meu ser vive na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim...


FERNANDO PESSOA



Feliz aquele que, para encontrar a sua "Imagem" eterna, ousa queimar sem piedade
os fantoches do seu passado ...


Isha Schwaller de Lubicz

Noite de saudade

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho


Florbela Espanca

Sunday, April 17, 2005

Há uma rosa caída



Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa


MARIA ÂNGELA ALVIM


“Il est mortel de se moquer d’un poète,
d’aimer un poète, d’être un poète".

amor que eu amo com amor sagrado



Pelo sagrado amor que vem de ti,
amor que eu amo com amor sagrado;
pelo Ideal descoberto e realizado,
- bendita seja a hora em que te vi!

Pelas malditas horas que vivi
no desejo de amor tão desejado;
pelas horas benditas ao teu lado,
- bendita seja a hora em que nasci!

Pelo triunfo enorme, pelo encanto
que me trouxeste, é que eu bendigo tanto
a hora suave que te viu nascer...

Amor do meu amor! Amor tão forte,
que se um dia sentir a tua morte,
será bendita a hora em que eu morrer!


VIRGÍNIA VITORINO (1897-1967)

Friday, April 15, 2005

OS TEUS OLHOS



"Onde estão os teus olhos – onde estão? – oh, milagre de amor que escorres dos meus olhos!
Na água iluminada dos rios da lua eu os vi descendo e passando e fugindo
Iam como as estrelas da manhã. Vem, eu quero os teus olhos, meu amor!"


VINICIUS DE MORAES,
Sonata do amor perdido (excerto)

AMAR

Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
De uma doida cabeça encanecida.

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetra o meu ser - não só de beijos
Dados no ar - delírios e desejos
Mas amor... dos amores que têm vida.


Antero de Quental



SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando...
Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:

Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...


Lisboa, 3 de Novembro de 1913

MÁRIO DE SÁ-CARBNEIRO

Thursday, April 14, 2005

Esfinge



Nasci antes de Cristo, muitas vidas antes,
antes de Rama, Buda , Khrishna ou Maomé .
Vivi em Atlântida e Mu, muito antes da Queda.

Conheci os egípcios, vivi nos seus Templos antigos,
fui iniciada nos Grandes Mistérios,
antes mesmo das Pirâmides de Gizé.

Viajava no Nilo entre as duas terras, era fiel a Hapi e a Ptah.
Lia nas estrelas a glória de Nout e cantava nas festas a Hathor!
Ah! Era dourada a Sua Imagem e, como os teus
os seus olhos brilhavam doces na alvorada...

Outras vezes, íamos ver Shekmit, evocar a deusa Bastit,
a quem me ensinavas a amar nas noites de luar.
E como a gata do templo, tu dançavas e esvoaçando
as tuas vestes deixavas antever o teu corpo nu de estátua...

E eu extasiada pela tua visão, não sabia se eras tu
ou a própria deusa encarnada quem para mim dançava.
Nesse tempo era feliz !
Amava a vida e a terra ainda era sagrada.


IN ANTES DO VERBO ERA O ÚTERO - r.l.p.

Tuesday, April 12, 2005

Para além das Brumas

O seu formoso
Corpo cruel de Deusa omnipotente,
Voluptuoso,
De pé, naquela altiva soledade,
Como enlevado, extático, sorrindo,
Domina a planetária imensidade
E o céu infindo...


Teixeira de Pascoais

SAFO - CANTO LXXIV



...em Sardes vive aquela
que em pensamentos muita vez

aqui regressa, ao tempo que foi nosso,
quando tu para ela eras a Deusa
e só como o teu canto se exaltava.

Entre as mulheres da Lídia brilha
agora, como Selene de rosados dedos,
quando postos ao sol,

empalidece os outros astros, e alta
inunda de luar os floridos prados,
os salgados mares:

enquanto o orvalho cai, enquanto as rosas
abrem, e cresce o trevo em flor
e o timo delicado

FEITIÇO


Possessa sim,
mas de de amor o teu!
Amante de mim sim,
mas de tanto em mim viveres,
Ó Deusa

Crente e serva de um único olhar,
o teu invisível olhar,
que me fulminou de magia
e ardente nostalgia,
mal nasci!


in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"

Sunday, April 10, 2005

Sonatas e prelúdios...

Lembras-te, foi em Tentyres,
quando a deusa com máscara de gata
dançou e lançou um feitiço quando te viu?
Levou-te com ela... desde aí fiquei só.



Leva-me contigo ao Egipto,
vamos na direcção norte-sul, ver a tua Mastaba,
Quero ver o Serdab.

Tenho saudades da terra vermelha
e de contigo andar e olhar o sol a brilhar.

Anda comigo a Dendera, ver Hathor, ouvir cantar:

Adoro a mulher dourada
louvo a sua majestade
celebro a senhora do céu
canto os louvores a Hathor
e à sua gloria soberana



SACRIFÍCIO

Gosto dos egípsios,
queria voltar aos seus templos antigos,
à sua vida vida simples e pura...

Está viva ainda na minha alma a imagem de Ptat.
Sobe na minha coluna o fogo da origem
e os meus braços abertos o seu doce fluxo recebem.

Abraço Shekmit e os seus seios descobertos
e deito-me no seu manto de rainha escarlate.

Ofereço-me em sacrifício a Bastet,
para ver os seus olhos amendoas de gata sorrirem...

Ficar presa nos seus sortilégios,
ser iniciada nos mais altos Mistérios,
e poder olhar de frente Ra, Amon e Maat.


in "Mulher Incesto" - Sonata E Prelúdio" R.L.P.

Friday, April 08, 2005

Nos meus olhos

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sobe as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...


FLORBELA ESPANCA

O mundo, no qual nascemos, sofre de século e meio de renúncia e de violência – da renúncia dos superiores e da violência dos inferiores, que é a sua vitória.

Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se modernamente, tanto na acção, como no pensamento, na esfera política, como na espéculativa.

A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde uma sensibilidade fina não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contacto da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço.


FERNANDO PESSOA

Tuesday, April 05, 2005

Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todos
ratos e gatos.


Mário Cesariny


A ESTÁTUA

O teu corpo branco e esguio
Prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido…

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu
sonhei…

- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados


JUDITH TEIXEIRA

Monday, April 04, 2005

Em redor da Lua os astros
Velam seu branco rosto quando plena
Inunda de resplendor a terra toda.


SAFO - FRAGMENTOS

ISHA

Meu amor, finge que eu sou louca e faz de Deusa para mim!
Disfarça-te de Fada e deixa que te ponha estrelas a enfeitar os cabelos...

Sim, finge que eu sou louca e aceita o que te peço,
veste-te de Rainha...
Põe safiras na testa e pérolas no peito
e deixa que me ajoelhe a teus pés e as mãos te beije...

Deixa que te dispa e cubra de flores, acácias, rosas e jasmins.
Deixa-me, sacrílega, cobrir-te com um manto de Luz
E rezar-te como se divina imagem fosses!

Ah, finge que eu sou louca e mais do louca, demente
E aparece como que vinda de outros mundos...
Pega na minha mão e leva-me contigo para longe daqui!

Ah, finge que sou mesmo louca!
Deixa que te beija a boca e morra de vez...


Do Livro "Mulher Incesto Sonata e Prelúdio"
R.L.P.

Sunday, April 03, 2005

CAVALEIRO ERRANTE

Amo-vos tanto, Senhora minha,
mais do que nenhum cavaleiro errante
neste mundo jamais vos amou.

Amo-vos tanto, eterna dama,
tanto e mais como jamais
santo algum nesta vida vos adorou.

Amo-vos cada dia mais e mais, e tanto mais
quanto mais perto da minha alma estou.

Ah, amo-vos muito mais do que Dante
no inferno Beatriz amou,
mais do que Romeu amou Julieta,
que só por uma morte passou...

São tantas as minhas mortes por amor de vós
que nem Cristo por amor da humanidade,
tantas vezes ressuscitou...


in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"
Rosa Leonor Pedro

Friday, April 01, 2005

"A revelação e a dor nos salvam da zona morta. Elas nos permitem deixar para trás o culto fatal dos segredos. Podemos chorar e chorar muito, e sair cobertas de légrimas, mas não manchadas de vergonha. Podemos sair daí mais profundas, com o total reconhecimento de quem somos e plenas de uma nova vida."
C.P.E.



OH estrela da tarde,
dos astros todos o mais formoso...


SAFO - FRAGMENTOS

SAUDADE DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: « vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
Eh de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!


ANTÓNIO PATRÍCIO (1878-1930)

Thursday, March 31, 2005

EU QUERIA SER MULHER


Eu queria ser mulher para me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas “banquettes” dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos no café.

Eu queria ser mulher para não Ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedir dinheiro --
Eu queria ser para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer “potins” - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar --
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se pode desculpar.

Eu queria ser mulher para Ter muitos amantes
E enganá-los a todos -- mesmo o predilecto --
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar...



(Poema inacabado de Mário Sá-Carneiro enviado a Fernando Pessoa)

Wednesday, March 30, 2005

A DEUSA BRANCA



A frase “invocar a Musa” foi empregue muitas vezes de forma errada, o que obscurece o sentido poético: íntima comunhão do poeta com a Deusa Branca considerada como a fonte de toda a verdade.

Os poetas representaram a verdade como uma mulher nua, uma mulher privada de qualquer artifício que permitiria pela sua visão ligarem-se a um certo ponto do tempo ou do espaço. (...) O poeta é um apaixonado da Deusa Branca da Verdade: o seu coração consome-se por ela e na espera do seu amor.


in “A DEUSA BRANCA” de Robert Graves

e voar na minha alma

Ao céu da tua boca eu quero ir
e na minha língua sentir o néctar jorrar...

Enquanto tu, figura alada,
com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar,
eu convulsamente mergulho no teu ventre
indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater
para romper os véus da nossa existência,
vir de novo à terra
voltar ao céu da tua boca
e voar na minha alma ao teu lado deitada.


in "Mulher Incesto"
Rosa Leonor Pedro

Tuesday, March 29, 2005

A PALAVRA COMO DESTINO

"A palavra também é destino, pois ela anuncia aquilo que foi decidido pelos poderes; além disso, a maldição e a benção dependem dos rituais mágicos que estão sob o domínio das mulheres. Aquilo que mais tarde passamos a chamar de poesia teve origem na fórmula dos sortilégios e nos cânticos mágicos que emergem espontaneamente das profundezas do inconsciente de onde trazem à tona suas formas características; seu próprio ritmo, além do vigor e da sensualidade peculiares de sua imagem"

(...)

in "A Grande Mãe"

Tinha o trono onde ter uma rainha




Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria...
Ó mar sem cais nem lado nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá em baixo estamos
E é subita a lembrança
Da velha quinta e do espalmar dos ramos
Sob os quais a merendar - Oh, amor da glória!
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos...


FERNANDO PESSOA

Sunday, March 27, 2005

OS UPANISHADES

"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração, então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."

"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim.
Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."

OH ISTHAR

Oye mi ruego, Isthar,
Luna de los Amantes.
De quien no sabe dar
enséñame a recibirlo todo.
D e quien no sabe abrirse
hazme llenar...

...llenar qué?, cómo era afinal? Ay, todavía olvidada! algo de un instante, de una copa...

in "LA VIEJA SIRENA" de José Luis Sanpedro

Saturday, March 26, 2005

A DEUSA



Ah, verdadeiramente a deusa! -
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com sòmente a adivinhar.

Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.

Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonho, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.


IN poesias inéditas - FERNANDO PESSOA

Friday, March 25, 2005

UMA POETISA IGNORADA....



Quero confesar, pois, á vossa inteligencia, que toda a luxúria em que ritmei certas attitudes nos meus poemas representa sobretudo a forma mais pomposa e elegante que poderia corresponder a uma atitude interior mais comandada pela Arte do que pelos avisos duma moral que uma sociedade se cansa em recomendar aos outros á força de a infringir.
Vivi nas horas dessa ardente concepção, esta luxúria, que era a forma de minha Sinceridade.16
(...)
Para os que reduzem a vida a um sistema de simulação e mentiras, desde os actos mais íntimos do seu carácter até á negação duma dívida na mercearia vizinha, o público, é o seu pânico irreprimible. Parece que a estas boas almas que o público lhes lê nos olhos o forro torpe da sua vida.
Desta minha alta concepção dos processos morais da existência, desta minha singular lealdade de «afirmar», nasceu, pois, o desacordo entre mim e a Maioría.


JUDITH TEIXEIRA - Escritora portuguesa vanguardista dos anos 20

SINFONIA HIBERNAL

Adoro o Inverno.
Envolvo-me assim mais no teu carinho
Friorenta e louca
Nascem-me na alma os beijos
Que se vão aninhar na tua boca!

Gosto da neve a diluir-se ao sol
Em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo
E a neve fulgente
Dos meus dentes trémulos
Vai fundir-se na taça ardente,
Rubra e original
Na qual eu bebo os teus beijos em fogo!

Tu adormentas a minha dor na doce
sombra dos teus cabelos,
E eu envolvo-me toda nos teus braços
Para dormir e sonhar!
- Lá fora que não deixe de chover,
E o vento que não deixe de clamar!

Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
Se me abrasa o teu olhar
Vivíssimo?!
Ateia, meu amor, o fogo em que me
exalto
- Enrola-me mais
Ainda mais no teu afago;
Que esta alegria do nosso amor
Suavíssimo,
Será mais forte e gritará mais alto!


Judith de Teixeira
POEMÁRIO DE MARIANA

Wednesday, March 23, 2005

Só quero torná-la grande

Pensar em nada
é ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida.




Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha".

Álvaro de Campos

FRAGÂNCIAS...



Não te sintas só
mesmo na aparente ausência

Por mistério ascendem
das nossas almas inquietas
brancas silhuetas ecos perdidos
pulsantes como um coração cósmico
retido muito tempo no Olvido

Há cruzamentos já
nós a atarem-se
um tumulto imenso de ascensão

Sobre nós só Força
a repuxar a alma e os sentidos

Não te sintas só
que eu nunca largo
os portos bem amados da minha alma

Se ao menos hoje
eu pudesse deixar-te
o meu antigo vaso de fragrâncias
para que a hora te não doesse tanto

MARIANA INVERNO

Tuesday, March 22, 2005

Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke
"Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem..."

A.C.

Monday, March 21, 2005

A MUSA E O POETA



Porém nada valeu em face da última visão:
Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caíndo agora, em jorros, do alto da cúpula -- e o pano rasgou-se sobre um vago tempo asiático...Ao som de uma música pesada, rouca, longínqua -- Ela surgiu, a mulher fulva...
E começou dançando...

Envolvi-a uma túnica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos, loucamente. Jóias fantásticas nas mãos; e os pés descalços, constelados...
Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, húmidos, frios de cristal; o marulhar da sua carne ondeando; o alcóol dos seus lábios que, num requinte, ela dourara -- toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente...
Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se...


in A CONFISSÃO DE LÚCIO de Mário Sá-Carneiro


Ao céu da tua boca eu quero ir
e na minha língua sentir o néctar jorrar...

Enquanto tu, figura alada,
com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar,
eu convulsamente mergulho no teu ventre
indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater
para romper os véus da nossa existência,
vir de novo à terra
voltar ao céu da tua boca
e voar na minha alma ao teu lado deitada.


in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"
ROSA LEONOR PEDRO

Sunday, March 20, 2005

uma rosa no fundo do meu coração

Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas,
(...)
Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.

Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita;
A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,
Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro
Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração.

Yeats



FOGOS...

"Partes? Partes?...Não, não te vais embora.
Retenho-te... nas minhas mãos deixaste a tua alma como se fosse um manto."

"Não cairei. Alcancei o centro. Escuto a pulsação de não sei que divino relógio através do fino invólucro carnal da vida plena de sangue, de sobressaltos e de suspiros. Estou perto do núcleo misterioso das coisas como, à noite, estamos às vezes perto de um coração."


Marguerite Yourcenar

Thursday, March 17, 2005

A DIVINA BELEZA



os colares de corolas várias
e fragrantes
em redor de um colo delicado;

as essências de ervas raras
e um perfume real
derramado sobre a pele;

o leito onde o desejo
profundamente apaziguavas
a meu lado...


SAFO

A "divina beleza", que aqui nos aparece envolta em seda verde, ornamentada com prata, ouro e pedras preciosas, possui uma carga fortemente numinosa, e conduz o adepto a uma experiência do centro"(...)

in "AlQUIMIA DO AMOR" de Y.K.Centeno

Wednesday, March 16, 2005

um átomo da oração

A ORAÇÃO

Na ponta do coração um átomo que é activado pela súplica...
Podem esmagar-vos de tal maneira que pensais que já nada resta de vós. No entanto, subsistirá sempre um átomo de vós, e ele poderá reconstituir para vós o universo inteiro. Esse átomo é o Dom de orar, de suplicar. É o maior Dom que Deus deu ao ser humano, pois se ele não existisse o ser humano teria desaparecido há muito tempo.

Essa ideia de um “átomo da oração”, de que ninguém fala, deve parecer-vos absolutamente inaceitável, impossível de acreditar... Contudo, na Ciência iniciática já ouviste dizer que existe na ponta do coração um átomo que tem como papel registar tudo o que o ser humano pensa, sente e vive ao longo da vida. Esse átomo não tem o poder de intervir para modificar seja o que for; ele apenas regista. Na realidade é uma bobine minúscula que se vai desenrolando sem parar do começo ao fim da existência e, no momento da morte, ela pára para sempre.


In Poderes do pensamento
Omraam M. A.ivanhov

“ELA É OUTRO MUNDO”

(...)
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a minha alma tenho acesa.
Mas nos olhos mostrou quanto podia.
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.


Camões

Sunday, March 13, 2005



"Temos de descobrir por nós mesmos - e não por intermédio de quem quer que seja - o que é a meditação. Tem-se aceitado a autoridade de instrutores, salvadores e mestres. Se realmente queremos saber o que é a meditação temos de pôr de lado toda a autoridade."


"Na meditação temos de descobrir se é possível um cessar dos conhecimentos, e libertarmo-nos, assim, do conhecido."


J. Krishnamurti

O mundo estava no rosto da amada

O mundo estava no rosto da amada -
e logo se converteu em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei



RAINER MARIA RILKE

Thursday, March 10, 2005

Viver não dói



Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?
(...)
(Carlos Drummond de Andrade)

"O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo."

Marguerite Yourcenar

SEPARAÇÃO

Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.


(1940)

Anna Akhmátova

Wednesday, March 09, 2005

Não são nossos os frutos nem as flores

BEBIDO O LUAR

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN

Pagã

Sou uma religiosa sem igreja,
Uma reclusa sem convento, amante de uma deusa sem altar.
Vivo na pele o tormento de uma humanidade que ainda não é.
Vivo no mundo sem nele já acreditar.

Sou sacerdotisa de um templo destruido
à procura de um novo amor e uma nova fé.
Olho num único sentido, íntimo, profundo
no centro de mim mesma e espero a luz...

A luz de um outro mundo e a única esperança.
Com ele há-de vir a nova criança e a deusa
Em que ainda descansa e as duas serão um só.
Numa epifania de cores e harmonia, ele virá,
Sem armas nem ódios, o novo Milénio.


Rosa Leonor Pedro


"Não sou um escritor, sou alguém que busca; conduzo um combate espiritual; espero que o meu espírito se abra a uma luz qualquer que não tenha nome nos nossos idiomas."

e.m. cioran

Tuesday, March 08, 2005

DÁ-ME ROSAS...

EU QUERIA POISAR COMO UMA ROSA
SOBRE O MAR O MEU AMOR NESTE SILÊNCIO


SOPHIA de Mello Breyner



Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...

(...)
Fernando Pessoa

Monday, March 07, 2005

As duas faces do Mistério

Era o ser de olhar duplo, contemplando
O reino a que pertence e o seu etéreo
Desdobramento anímico; e, por isso
Olhava as duas faces do Mistério.


Teixeira de Pascoaes, Marânus

Suavidade

Pousa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.

Hás-de contar-me nessa voz tão qu'rida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás-de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão-de fazer-se leves e suaves...

Hão-de pousar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente,
Sobre o teu rosto, como penas de aves...


Florbela Espanca

Saturday, March 05, 2005

Um dia estarás morta e ninguém
de ti terá saudades ou memória
pois as rosas de Piétria não colheste.
Desconhecida até na casa de Hades
entre sombras deambularás dos mortos.


SAFO - Poemas e Fragmentos

Não quero rosas



Não quero rosas, desde que haja rosas

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...


FERNANDO PESSOA

À MUSA

Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".




ANNA AKHMÁTOVA

Friday, March 04, 2005

olhar dentro de mim



Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro?

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego,
A PRIMEIRA ELEGIA

Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens dos anjos?
e mesmo que um me apertasse de repente contra o coração:
eu morreria da sua existência mais forte. Pois o belo não É senão
o começo do terrível, que nós mal podemos ainda suportar,
e admiramo-lo tanto porque, impassivel, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrivel
E assim eu me reprimo e engulo o chamamento dum soluçar escuro. Ai! de quem nos
poderiamos então valer? Nem de anjos, nem de homens,
e os bichos perspicazes reparam já que nós não estamos muito confiantes em casa
neste mundo explicado.

(...)

AS ELEGIAS A DUINO - Rainer Maria Rilke

Monday, February 28, 2005

O RISO E O CHORO

(...)

Sendo a condição humana dramática, o seu destino e a sua existência embebidos em dor, o Ser lúcido que possua em alto grau a força de pensar e de sentir, estará mais naturalmente inclinado à tristeza do que ao riso. Assim a tragédia, produto natural de um pensamento-vivência, premente de angústia e de tristeza é, apesar disso, dinamizante na medida em que estimula um progresso. Colocando o ser perante um destino que parece inexorável, aponta-lhe paradoxalmente os caminhos de esperança da transcendência


ANA HATHERLY

"Eles tomam, sonhando, nobres atitudes.
Grandes esfínges alongadas no fundo das solidões
que parecem dormir um sono sem fim."


BAUDELAIRE


OS Gatos são a nossa paixão abençoada
pela alma que põem no que são e no que sabem,
pela ternura que guardam no que escondem.
São os gatos de Baudelaire, de Eliot e Paul Klee,
os da rua, do oriente ou do universo,
os gatos gémeos das estrelas e das mariposas,
os gatos que se perdem entre as açucenas,
os guardiões da alquimia do não dito.
Pela boca dos gatos diz-se a liberdade
de quem se dá só a quem ama.
Perfil bordado sobre os panos de luar.

(...)

JOSÉ JORGE LETRIA

Sunday, February 27, 2005

O lótus na rosa



(...)
As mãos cingindo o perfume da rosa abrindo em lótus
- tarde de muros -
No teu porte de abandono!


Tília Ramos

"NO LADO ESQUERDO DA ALMA"

Nossa Senhora de Paris

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir...Onde açoitar-me?
Os braços duma cruz.
Anseiam-me, e eu fujo também do luar...

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa do Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...

Fico supulto sob círios,
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de ideais...

- Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho ...Estrelas...
Vitrais! Vitrais!

Flores de Lis...

Manchas de cor a ogivarem-se...
as grandes naves e sangrarem-se...
- Nossa Senhora de Paris!...


Paris, Junho de 1913
MÁRIO SE SÁ-CARNEIRO

Saturday, February 26, 2005

Surge dos lados do oriente a luz loura do luar de outro. O rastro que faz no rio largo abre serpentes no mar.

O LIVRO DO DESASSOSSEGO
fernando pessoa



MUSA

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos
Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu subito falar
Que me foge de repente


Sofia de M. B.

INTERNO, INTERIOR, ÍNTIMO

Enquanto o ouroboros continuar dormindo em nós seremos sempre corpos de uma outra cabeça.
De cada vez que uma só gota do teu íntimo se escape verás que ela se condensa e de tal modo se adensa que entre ti e aquele que entreviu apenas só cílio do teu íntimo se erguerá uma grade, uma barreira, uma lança.

E essa lança é a ti próprio que fere.

O íntimo é aquela substância, lagarta em permanente metamorfose de que tu és apenas o invólucro, a segregação visível da glândula ìntimo e as tuas metamorfoses aão as tuas.
(...)

ANA HATHERLY - Sigma

Thursday, February 24, 2005

Não me amaste, disso eu sei.



EU NA MINHA SOLIDÃO...

"Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos, enquanto eu amei os teus. Minha candura foi por ti pisada. Não me amaste, disso eu sei. Estive só. Só de ti. Escrevo para ninguém e está-se fazendo um improviso que não existe.
Descolei-me de mim.
(...)
Sinta-se bem. Eu na minha solidão quase vou explodir. Morrer deve ser uma explosão interna. O corpo não aguenta mais ser corpo. E se morrer tiver o gosto da comida quando se está com fome? E se morrer for um prazer, egoísta prazer?"


in ÁGUA VIVA - CLARICE LISPECTOR

A TUA VOZ FALA AMOROSA

Qual é a tarde por achar
Em que teremos todos razão
E respiraremos o bom ar
Da alameda sendo verão,

Ou, sendo inverno, baste 'star
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual é a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora não.

Qual é a mão cariciosa
Que há de ser enfermeira minha —
Sem doenças minha vida ousa —
Oh, essa mão é morta e osso ...
Só a lembrança me acarinha
O coração com que não posso


FERNANDO PESSOA

Wednesday, February 23, 2005

Ah, pudesses tu dormir
no peito da mais terna amiga...


SAFO


"Só Se Possuem Eternamente
os Amigos de Quem Nos Separamos"


"O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo."

MARGUERITE YOURCENAR

Monday, February 21, 2005

ELA CAMINHA NA BELEZA



Ela caminha na beleza como a noite
De climas sem nuvéns e noites estreladas.
E tudo o que há de melhor no escuro e no brilhante
Encontra-se na sua imagem e nos seus olhos

Macia à luz suave
No qual o céu nega ao seu dia luminoso

L.B.


"O QUE DEVEMOS É SALTAR NA BRUMA,
CORRER NO AZUL À BUSCA DE BELEZA"


Mário Sá-Carneiro

A minha alma parou...

SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando...
Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:

Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...


Lisboa, 3 de Novembro de 1913

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Sunday, February 20, 2005

Era outra luz, era outra suavidade

A poesia que se acerca da oração é superior não só à oração mas também à própria poesia.

E. CIORAN


Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer…uma ventura
Feita só de perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!


ANTERO DE QUENTAL in “Sonetos”

Friday, February 18, 2005

O SILÊNCIO DOS GATOS

"Os animais foram destinados a acompanhar-vos, a ocupar o espaço para ensinar, mostrar e partilhar o caminho convosco. Eles não são mais do que uma criação biogenética baseada em genes oriundos de muitos sistemas solares e planetas diferentes. Vêm de uma variedade de comunidades extraterrestres e parecem-se com os seus antecessores que são seres com capacidades de percepção sensorial noutros planetas. A sua criação permite que representantes desses sistemas tenham um laço genético com a Terra e, portanto, a possibilidade de espreitar e enviar mensagens para este mundo. Esta faceta da criação não foi realmente nunca compreendida.

Alguns dos animais existentes na Terra são utilizados como transmissores. Os vossos gatos são transmissores directos de informação para uma espécie de consciência que usa os gatos para vos proteger. Em tempos antigos, em muitas culturas no vosso planeta estava em voga ter um leão ou um outro gato de grande dimensão junto à entidade dirigente.

A família do gato representa uma instrumentalização biogenética de uma espécie que se parece convosco, excepto que tem cara de gato. As espécies felinas vieram ao planeta em vagas e trabalharam na América do Sul, México, Egipto e nalgumas culturas insulares. Quando ensinaram a espécie humana ou quando misturaram a sua espécie com os humanos e criaram governantes aqui, especialmente no Egipto, deixaram os gatos para transmitir informação a fim de que os dirigentes pudessem ter contacto directo com a espécie oriunda das estrelas. Assim, recebiam telepaticamente dos gatos orientações preciosas para a tomada de decisões.

Mais recentemente, os gatos eram pertença das bruxas, pois eles representavam elos com outros reinos.


Traduzido e adaptado de
Barbara Marciniak, EARTH, Bear & Co., 1994

(posted by mariana in ordem nascente)

Thursday, February 17, 2005

...mais doce ainda que o canto da lira - Safo




"O olhar dos gatos estabelece um verdadeiro elo telepático que permite mergulharmos magicamente no cosmos numa troca de energia vbratória. O gato é um íman, um fixador do invisível que nos rodeia e que nós nem sempre sabemos reconhecer!"

"GATO QUE ME FITAS COM OLHOS DE VIDA, QUE TENS LÁ NO FUNDO"

Fernando Pessoa

Wednesday, February 16, 2005

Asa no espaço



Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma flutua!
Quero voar nos braços do vento,
Quero vogar nos braços da Lua!


Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.


Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.


Castelos fluídos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!


Fernanda de Castro

Que cada lágrima humana escaldante caia no teu coração e aí fique; nem nunca a tires enquanto durar a dor que a produziu.

H.P.Blavatsky

Tuesday, February 15, 2005

Quanto dói meu coração




Ah, só eu sei

Sem fé nem lei,
sem melodia nem razão.

Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele nada que ver.


Fernando Pessoa