Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba.
SOPHIA DE MELLO BREYNER A.
Monday, July 25, 2005
A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa actual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
CLARICE LISPECTOR
Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos – um poço fitando o Céu.
Fernando Pessoa,
O Livro do Desassossego
BEBIDO O LUAR
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN
Wednesday, July 20, 2005
"Doce será o leito onde estender o meu corpo."

Notícias - gracia plena -
E eu aqui
Calada, a recordar
o amor e a rir de mim
Televisão desligada!
Sigo colando figurinhas
no meu almanaque
Conta-me: Já invadiram o Iraque?
Já botaram a mão no petróleo?
Algum pai matou filho
ou vice-versa ou vide-verso?
Algum bandido virou herói
deste mísero circo
ou tema de escola de samba
para desfile na avenida?
E eu aqui
inerte...assombrada
a lembrar o amor
apaixonado!
Conta-me: Os tais Estados Unidos
leram a história de Roma,
da Pérsia, do Egito?
Então eles nada sabem
sobre o declínio dos Impérios?
Nunca leram sobre Napoleão,
Genghis khan, Satan?
E eu aqui
escondida do mundo,
no meu porão,
vou lendo Pessoa, Gedeão, Bilac
Não! Nada quero saber
da Coréia, do Iraque,
das assembleias da ONU
" O palhaço sem amor
é um assassino sério"-
acreditem-me
E eu aqui
sem abrigo antiaéreo
sem máscaras de oxigénio
Dona de casa, poeta, médica-
aumento o som estéreo:
Ouço Beethoven- A Patética.
Maria da Graça Ferraz
ORAÇÕES DE AMOR
Ó puríssima e bela, - alva cecém,
Minha vida e meu bem;
Ó puríssima e triste, - amor sereno,
Meu bem e meu veneno.
Ó puríssima e doce - brando olhar.
Meu veneno e meu ar.
Ó puríssima e santa, - alma num beijo,
Meu ar e meu desejo:
Ó puríssima deusa, forma o céu
Do meu desejo e o teu!...
ANTÓNIO FOGAÇA :
(Poeta lírico, nasce em 1863 e morre aos 24 anos
com um livro publicado... )
Minha vida e meu bem;
Ó puríssima e triste, - amor sereno,
Meu bem e meu veneno.
Ó puríssima e doce - brando olhar.
Meu veneno e meu ar.
Ó puríssima e santa, - alma num beijo,
Meu ar e meu desejo:
Ó puríssima deusa, forma o céu
Do meu desejo e o teu!...
ANTÓNIO FOGAÇA :
(Poeta lírico, nasce em 1863 e morre aos 24 anos
com um livro publicado... )
UMA ESTRELA...

Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,
E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.
Será noite de reconciliação-
Há tanto Deus a derramar-se em nós.
Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.
E os nossos lábios dessejam beijar-se-
Por que hesitais?
Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.
Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.
Há-de uma grande estrela cair no meu colo.
ELSE LASKER-SCHULER (1869-1945)
Baladas Hebraicas
Sunday, July 17, 2005
CÂNTICO DOS CÂNTICOS
Prendeste o meu coração, minha irmã-noiva,
Prendeste o meu coração com um só dos teus olhares,
com uma só perola do colar do teu pescoço!
Como é delicioso o teu amor, minha irmã-noiva!...
Quão mais suave do que o vinho!
E o odor do teu perfume excede o de todos os aromas!
Os teus lábios, noiva minha, são como favo que destila mel;
debaixo da tua língua há leite e mel;
e o perfume dos teus vestidos é como o perfume do Líbano.

CLXIII
És infeliz? Se deixares de pensar
na tua dor não sofrerás mais. Se a tua
mágoa é imensa, invoca os seres que
tão injustamente sofreram durante a
criação do mundo.
Escolhe uma mulher de seios alvos
e trata de a amar. E que ela, por sua vez,
seja incapaz de te amar.
CLXIV
Infeliz, nunca saberás nada! Jamais
serás capaz de resolver um único dos
mistérios que te rodeiam. Uma vez
que as religiôes te prometem o Paraíso,
tenta tu criar um nesta terra,
porque o outro talvez não exista.
in RUBAIYAT
Prendeste o meu coração com um só dos teus olhares,
com uma só perola do colar do teu pescoço!
Como é delicioso o teu amor, minha irmã-noiva!...
Quão mais suave do que o vinho!
E o odor do teu perfume excede o de todos os aromas!
Os teus lábios, noiva minha, são como favo que destila mel;
debaixo da tua língua há leite e mel;
e o perfume dos teus vestidos é como o perfume do Líbano.

CLXIII
És infeliz? Se deixares de pensar
na tua dor não sofrerás mais. Se a tua
mágoa é imensa, invoca os seres que
tão injustamente sofreram durante a
criação do mundo.
Escolhe uma mulher de seios alvos
e trata de a amar. E que ela, por sua vez,
seja incapaz de te amar.
CLXIV
Infeliz, nunca saberás nada! Jamais
serás capaz de resolver um único dos
mistérios que te rodeiam. Uma vez
que as religiôes te prometem o Paraíso,
tenta tu criar um nesta terra,
porque o outro talvez não exista.
in RUBAIYAT
O PROFETA
"Mas eu vos digo que tal como o mais santo não pode elevar-se acima do mais sublime em cada um de vós, tão pouco o pior malvado pode cair mais baixo que o que de mais baixo existe em cada um de vós."
Khalil Gibran
Khalil Gibran
Friday, July 15, 2005
amante branca

Do meio de uma bruma nasce uma flor
que conheceu já outros campos sem sal.
A neve que cobriu a rosa em plena primavera
não assustou gaiatos que corriam
sem o sinal de um pai presente.
Amante Branca! Onde te escondes
maravilhada pela estrela da manhã?
As rosas choram nessa linha de bem e mal.
Desejam estar no meio,
no coração das coisas,
a sorrir para os doidos
casados de fresco com o grito.
São rosas que dançam e se abrem
quando o mar chama por mim.
A Branca Senhora na sua palidez
de mil primaveras desesperantes
encontrou a juventude na estátua do ardina.
Já não se esconde e senta-se num trono
vindo do País das Sombras.
Já não chora como a rosa
entregue aos moralismos de um senhor cruel.
Já não está maravilhada com a estrela
mas também ainda não tirou o véu da tristeza.
Serei espelho teu,
num lago de aparências com vida própria.
Contarás os cumes das montanhas
que tens para subir com asas
e aí nesses lugares serás Rainha
dessas geladas palavras
que saíram dos teus lábios.
Branca e a rosa são já uma.
São a união para o encontro na noite
com o poeta do deserto de áridas emoções.
Criem então esse império nunca falado.
Todos cá vêem abismos por ausência
de um sentido lunar e terno...
andré louro
in ARQUETIPOS & RETORNOS
Saturday, July 09, 2005
TER UMA RAINHA...

Ah, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu ria.
Como com olhos de quem nunca via
Tinha o trono onde Ter uma rainha.
Sob os pés seus a vida me espesinha
Reclinas-te tão bem! A tarde esfria...
Ó mar sem cais nem lodo nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?
Sob uma umbrela de chá em baixo estamos
E é súbita lembrança opositoria
Da velha Quinta e do espalmar dos ramos
Sob aos quais a merenda...Oh amor, oh gloria!
Fechem-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos...
MEU AMOR PERDIDO...
Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos - gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias -
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.
Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...
(...)
fernando pessoa
À VIRGEM SANTÍSSIMA
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia
Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…
Um místico sofrer…uma ventura
Feita só de perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!
ANTERO DE QUENTAL in “Sonetos”
Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…
Um místico sofrer…uma ventura
Feita só de perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!
ANTERO DE QUENTAL in “Sonetos”
Tuesday, July 05, 2005
também no meu país o céu é azul

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
EUGÉNIO DE ANDRADE
HÁ UMA ROSA CAÍDA
Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa
maria angela alvim
UNA ROSA
De las generaciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
quiero que una se salve del olvido,
una sin marca o signo entre las cosas
que fueron. El destino me depara
este don de nombrar por vez primera
esa flor silenciosa, la postrera
rosa que Milton acercó a su cara,
sin verla. Oh tú bermeja o amarilla
o blanca rosa de un jardín borrado,
deja mágicamente tu pasado
inmemorial y en este verso brilla,
oro, sangre o marfil o tenebrosa
como en sus manos, invisible rosa.
JORGE LUIS BORGES
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa
maria angela alvim
UNA ROSA
De las generaciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
quiero que una se salve del olvido,
una sin marca o signo entre las cosas
que fueron. El destino me depara
este don de nombrar por vez primera
esa flor silenciosa, la postrera
rosa que Milton acercó a su cara,
sin verla. Oh tú bermeja o amarilla
o blanca rosa de un jardín borrado,
deja mágicamente tu pasado
inmemorial y en este verso brilla,
oro, sangre o marfil o tenebrosa
como en sus manos, invisible rosa.
JORGE LUIS BORGES
Tuesday, June 28, 2005
Anjo és

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.
Anjo és.Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c´roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d`amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A é chama vivaz e é bela,
Mas luz não têm.-Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?
Não respondes- e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?...-Lágrimas?-Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera...Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De onde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?
Almeida Garrett
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.
Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.
Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?
Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Sá de Miranda
Monday, June 27, 2005
O palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Antero de Quental
A Varanda
Mãe das recordações, amante das amantes,
Tu, todo o meu prazer! Tu, todo o meu dever!
Hás de lembrar-te das carícias incessantes,
Da doçura do lar à luz do entardecer,
Mãe das recordações, amante das amantes!
As tardes à lareira, ao calor do carvão,
E as tardes na varanda, entre róseos matizes.
Quão doce era o seu seio e meigo o coração!
Dissemo-nos os dois as coisas mais felizes
As tardes à lareira, ao calor do carvão!
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
Que profundo era o espaço e como a alma era langue!
Curvado sobre ti, rainha das amadas,
Eu julgava aspirar o aroma de teu sangue.
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
A noite se adensava igual a uma clausura,
E no escuro os meus olhos viam-te as pupilas;
Teu hálito eu sorvia, ó veneno, ó doçura!
E dormiam teus pés em minhas mãos tranquilas.
A noite se adensava igual a uma clausura!
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas,
E revivo o passado imerso em teu regaço.
Para que procurar belezas voluptuosas
Se as encontro em teu corpo e em teu cálido abraço?
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas!
Juras de amor, perfumes, beijos infinitos,
De um fundo abismo onde não chegam nossas sondas
Voltareis, como o sol retorna aos céus benditos
Depois de mergulhar nas mais profundas ondas?
— Juras de amor, perfumes, beijos infinitos!
Baudelaire
Tu, todo o meu prazer! Tu, todo o meu dever!
Hás de lembrar-te das carícias incessantes,
Da doçura do lar à luz do entardecer,
Mãe das recordações, amante das amantes!
As tardes à lareira, ao calor do carvão,
E as tardes na varanda, entre róseos matizes.
Quão doce era o seu seio e meigo o coração!
Dissemo-nos os dois as coisas mais felizes
As tardes à lareira, ao calor do carvão!
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
Que profundo era o espaço e como a alma era langue!
Curvado sobre ti, rainha das amadas,
Eu julgava aspirar o aroma de teu sangue.
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
A noite se adensava igual a uma clausura,
E no escuro os meus olhos viam-te as pupilas;
Teu hálito eu sorvia, ó veneno, ó doçura!
E dormiam teus pés em minhas mãos tranquilas.
A noite se adensava igual a uma clausura!
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas,
E revivo o passado imerso em teu regaço.
Para que procurar belezas voluptuosas
Se as encontro em teu corpo e em teu cálido abraço?
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas!
Juras de amor, perfumes, beijos infinitos,
De um fundo abismo onde não chegam nossas sondas
Voltareis, como o sol retorna aos céus benditos
Depois de mergulhar nas mais profundas ondas?
— Juras de amor, perfumes, beijos infinitos!
Baudelaire
Friday, June 24, 2005
AVOZ DO SILÊNCIO
Que a tua Alma dê ouvidos a todo o grito de dor como a flor de lótus abre o seu seio para beber o sol matutino.
Que o sol feroz não seque uma única lágrima de dor antes que a tenhas limpado dos olhos de quem sofre.
Que cada lágrima humana escaldante caia no teu coração e aí fique; nem nunca a tires enquanto durar a dor que a produziu.
H.P.Blavatsky
(Traduzido por Fernando Pessoa)
Que o sol feroz não seque uma única lágrima de dor antes que a tenhas limpado dos olhos de quem sofre.
Que cada lágrima humana escaldante caia no teu coração e aí fique; nem nunca a tires enquanto durar a dor que a produziu.
H.P.Blavatsky
(Traduzido por Fernando Pessoa)
TRÊS POEMAS DE JUDITH TEIXEIRA
“Um Sorriso que Passa…”
Saber de ti…
Mas para quê?
O que eu penso é o que vale!
E se não fores como eu te julgo
ou como eu te vi,
que a tua boca não fale!
– O que tu és não me interessa, crê.
Bendigo o teu sorriso,
que veio encher o meu olhar de luz!
Mas para quê saber quem és
ou que destino te conduz?!…
Não sei a cor dos teus cabelos…
conheço a tua boca apenas quando ri…
Não voltes mais!
Que a visão do teu sorriso
– sorriso de curvas ideais,
virá dulcificar
a agonia dos poentes
destes meus dias sem remédio,
longos, incoerentes,
e desiguais!
Inverno
1925
“Crepúsculo”
Lá vem a noite, as serras contornando;
É esta a hora negra dos vencidos!…
Ao longe, o arvoredo baloiçando
toma aspectos bizarros, contorcidos…
Em ladainhas fúnebres, rezando,
descem dos montes já escurecidos,
as aves agoirentas, voejando
sobre os casais, na sombra adormecidos…
Hora em que se erguem maldições atrozes…
e em que os sinos, ao longe, são as vozes
indefinidas de miséria e dor!…
Hora dos neurasténicos, dos tristes…
Hora em que eu sinto bem que ainda existes,
nesta saudade duma dor maior!
Outubro
1922
“Duma Carta”
Escrevi-te ontem
somente para dizer
das minhas mágoas e do meu amor…
O Sol morria…
Tudo era sombra em redor
e eu…, ainda escrevia…
A pena sempre a correr
sobre o papel,
deixava cintilações,
nas pedras do meu anel!
E a pena corria…
Nem precisava ver, o que escrevia!
Anoitecera.
…………………………………………
Como eu em toalha de altar
A mesa
revestiu-se de luar!…
Nascera a lua.
E a pena, nos bicos leves,
dizia ainda:
– Sou tua!
Por que é que me não escreves?
Mas o papel acabou
e a pena continuou:
Por que é que me não escreves?
O meu amor é todo teu.
Só eu te sei amar!
– Só eu!…
Janeiro
1922
Judith Teixeira
Saber de ti…
Mas para quê?
O que eu penso é o que vale!
E se não fores como eu te julgo
ou como eu te vi,
que a tua boca não fale!
– O que tu és não me interessa, crê.
Bendigo o teu sorriso,
que veio encher o meu olhar de luz!
Mas para quê saber quem és
ou que destino te conduz?!…
Não sei a cor dos teus cabelos…
conheço a tua boca apenas quando ri…
Não voltes mais!
Que a visão do teu sorriso
– sorriso de curvas ideais,
virá dulcificar
a agonia dos poentes
destes meus dias sem remédio,
longos, incoerentes,
e desiguais!
Inverno
1925
“Crepúsculo”
Lá vem a noite, as serras contornando;
É esta a hora negra dos vencidos!…
Ao longe, o arvoredo baloiçando
toma aspectos bizarros, contorcidos…
Em ladainhas fúnebres, rezando,
descem dos montes já escurecidos,
as aves agoirentas, voejando
sobre os casais, na sombra adormecidos…
Hora em que se erguem maldições atrozes…
e em que os sinos, ao longe, são as vozes
indefinidas de miséria e dor!…
Hora dos neurasténicos, dos tristes…
Hora em que eu sinto bem que ainda existes,
nesta saudade duma dor maior!
Outubro
1922
“Duma Carta”
Escrevi-te ontem
somente para dizer
das minhas mágoas e do meu amor…
O Sol morria…
Tudo era sombra em redor
e eu…, ainda escrevia…
A pena sempre a correr
sobre o papel,
deixava cintilações,
nas pedras do meu anel!
E a pena corria…
Nem precisava ver, o que escrevia!
Anoitecera.
…………………………………………
Como eu em toalha de altar
A mesa
revestiu-se de luar!…
Nascera a lua.
E a pena, nos bicos leves,
dizia ainda:
– Sou tua!
Por que é que me não escreves?
Mas o papel acabou
e a pena continuou:
Por que é que me não escreves?
O meu amor é todo teu.
Só eu te sei amar!
– Só eu!…
Janeiro
1922
Judith Teixeira
Tuesday, June 21, 2005
LILITH

«je sors de toi mais indéfiniment retenue dans ton ventre»
LUCE IRGARAY
1
Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:
Com árvores
e oceanos
Penumbras incessantes
num enredado princípio
E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início
Maria Teresa Horta
«««««««««
Lilith
D’ombres et des démons je peuplai l’univers.
Avant Eve, je fut la lumière du monde
Et j’aimai le Serpent tentateur et pervers.
Je conçus l’Irréel dans mon âme profonde.
La terre s’inclina devant ma royauté.
Jéhovah fit éclore à mon front d’amoureuse
L’astre fatal de la Beauté.
Je ne fus pas heureuse.
In ÉVOCATIONS de RENÉ VIVIEN
Saturday, June 18, 2005
CAVALEIRO ERRANTE

Amo-vos tanto, Senhora minha,
mais do que nenhum cavaleiro errante
neste mundo jamais vos amou.
Amo-vos tanto, eterna dama,
tanto e mais como jamais
santo algum nesta vida vos adorou.
Amo-vos cada dia mais e mais, e tanto mais
quanto mais perto da minha alma estou.
Ah, amo-vos muito mais do que Dante
no inferno Beatriz amou,
mais do que Romeu amou Julieta,
que só por uma morte passou...
São tantas as minhas mortes por amor de vós
que nem Cristo por amor da humanidade,
tantas vezes ressuscitou...
in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"
R.L.P.
"Na Aurora Consurgens a mulher que surge também é a sabedoria de Deus e busca a sua morada entre os homens. É uma árvore da vida, uma luz que nunca se apaga. A sabedoria, para aquele que a encontra, é um alimento eterno. A mulher dá a vida, como a do outro texto que citámos, no Discours Philosophique.
Toda a dama cantada nestes termos - variados, opostos, não conciliáveis à primeira vista - está a ser espiritualizada e projectada numa dimensão que não é deste mundo. A mulher que o poeta sublima em belos e riquíssimos tesouros, com um corpo que se dilui ora nos elementos, ora em matérias tão subtis como a luz, esta mulher, que se "apura" nos poemas, faz esquecer a amante real que se deseja. Assim se justificam os os jogos de contrários, nos poetas. Como uma diversão (não um divertimento)."
in "ALQUIMIA DO AMOR" - Y.K. Centeno
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