Friday, September 30, 2005

Minha amiga intocável

IV

A Marrakesh
Chego ao por do sol
Acolhida por um bosque de palmeiras
Singularmente esbeltas na sua pequenês

Na confusão do trânsito
Sinto a vida em perigo
Sinto que de repente
Vou sumir
Num eterno olvido

De repente
Os olhos negros
De uma mulher velada
A quem apelo
Mudamente me guiam
Na confusão do medo:
Seguem-me de longe
Amorosamente
Preocupam-se comigo

Quando chego ao meu destino
Ela me acena de longe
Meu anjo de olhos tristes
Minha mãe desconhecida
Minha amiga intocável


ITINERÁRIOS - ANA HATHERLY

Tuesday, September 27, 2005

Depois da cinza morta destes dias

Depois da cinza morta destes dias,

Quando o vazio branco destas noites

Se gastar, quando a névoa deste instante

Sem forma, sem imagem, sem caminhos,

Se dissolver, cumprindo o seu tormento,

A terra emergirá pura do mar

De lágrimas sem fim onde me invento.




Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen -

Estranha noite velada

Estranha noite velada,

Sem estrelas e sem lua.

Em cuja bruma recua

Fantasma de si mesma cada imagem

Jaz em ruínas a paisagem,

A dissolução habita cada linha.

Enorme, lenta e vaga

A noite ferozmente apaga

Tudo quanto eu era e quanto eu tinha



E mais silenciosa do que um lago,

Sobre a agonia desse mundo vago,

A morte dança

E em seu redor tudo recua

Sem força e sem esperança.



Tudo o que era certo se dissolve;

O mar e a praia tudo se resolve

Na mesma solidão eterna e nua.




Sophia de Mello Breyner Andresen-

Friday, September 23, 2005

Mim

Se tenho que depender de alguém, que seja de mim
Vou ser minha criada
Abonada
Aos outros, de alma abandonada
Lendo as horas passadas
com a luz condenada dos infernos
Mas sou mim
Sou-me só a mim
Não sou parte de nenhum Deus sem fim
Que me julgue, que me ame, que me condene
eu só sozinha
E não qualquer outra existência plural
ou indivisível
A sombra do tecto divino
ofusca-me os olhos
Eu sei que sou o meu próprio caminho
Não sou ramo de um galho ou galhos
da árvore do Universo
Indivíduo me confesso
Eu sou o meu único caminho
Sou a embriaguez ébria do vinho
e seu recipiente
Sou chuva de caudal, sou enchente
de uma barragem de águas a transbordar
das lágrimas de São Pedro
Sou a lama do penedo alto
Lá, do abismo, que eu salto e ressalto
Sou cair belo no pairar
de uma mente que pensa
mesmo em direcção à morte
Por tudo isto digo:
Que Deus creia em mim!
Que por Seus pecados me peça perdão
E me implore benesses
E à noite, no leito, me
reze uma prece
E a mim, só a mim,
Se confesse



xangri_lah
1/96

A porta branca

Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.


Fiama Hassa Pais Brandão
Cena Vivas
Relógio d´Água



A um poema

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-Ihe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938)
Três Rostos



O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

Friday, September 16, 2005

Última frase




Minha alma ergueu-se para além de ti...
Tive a ânsia de mais alto
— abri as asas, parti!


Judith Teixeira

Predestinada

Sou amargura em recorte
numa sombra diluida...
Vivo tão perto da morte!
Ando tão longe da vida...

Quis vencer a minha sorte,
Mas fui eu que fui vencida!
Ando na vida sem norte,
Já nem sei da minha vida...

Eu sou a alma penada
de outra que foi desgraçada!
—A tara da desventura...

Sou u Castigo fatal
dum negro crime ancestral,
en convulsões de loucura!


Ilusão

Vens todas as madrugadas
prender-te nos meus sonhos,
—estátua de Bizâncio
esculpida em neve!
e poisas a tua mâo
mavia e leve
nas minhas pálpebras magoadas...

Vens toda nua, recortada em graça
rebrilhante, iluminada!
Vejo-te cegar
como uma alvorada
de sol!...
E o meu corpo freme,
e a minha alma canta,
como um enamorado rouxinol!

Sobre a nudez moça do teu corpo,
dois cisnes erectos
quedam-se cismando em brancas estesias
e na seda roxa
do meu leito,
em rúbidos clarões,
nascem, maceradas,
as orquídeas vermelhas
das minhas sensações!...

Es linda assim; toda nua,
no minuto doce
em que me trazes
a clara oferta do teu corpo
e reclamas firmemente
a minha posse!...

Quero prender-me á mentira loira
do teu grácil recorte...
E os teus viejos perfumados,
nenúfares desfolhados
pela rajada dominante e forte
das minhas crispações,
tombam sobre eu meus nervos
partidos... estilhaçados!


A estátua

O teu corpo branco e esguio
Prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido…

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei…

—Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados

JUDITH TEIXEIRA
(Poemas. Lisboa. Edicições Culturais do Subterráneo. 1996.)

Saturday, September 10, 2005

Não te sintas só...



FRAGÂNCIAS...

Não te sintas só
mesmo na aparente ausência

Por mistério ascendem
das nossas almas inquietas
brancas silhuetas ecos perdidos
pulsantes como um coração cósmico
retido muito tempo no Olvido

Há cruzamentos já
nós a atarem-se
um tumulto imenso de ascensão

Sobre nós só Força
a repuxar a alma e os sentidos

Não te sintas só
que eu nunca largo
os portos bem amados da minha alma

Se ao menos hoje
eu pudesse deixar-te
o meu antigo vaso de fragrâncias
para que a hora te não doesse tanto

Mariana inverno



Vôo

Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.


Cecília Meireles

A FLOR MAIS BELA ...

“[...] O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!”

Florbela Espanca,
Carta no. 147, volume V, Lisboa, junho de 1930



Voz Que Se Cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.


Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.


Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!


Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

Florbela Espanca




Nihil novum

Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado...

Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,
Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,
E o coração ? a mesma chaga aberta!

Florbela Espanca

Tuesday, September 06, 2005

o que sonha tanto

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.
A minha vida é como se me batessem com ela.




MARÂNUS

(...)

"Neste íntimo deserto que se estende
Sempre através de mim, apenas vejo
Um delicado vulto de mulher;
Sombra bela e gentil do meu desejo
Indefinido e vago...aparição
Desta melancolia fraternal,
Que me surgiu, à flor do coração;
E beijando, amorosa, as minhas lágrimas,
Dentro delas, espalha o azul do dia..."

(...)

Teixeira de pascoais

Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


Fernando Pessoa

Wednesday, August 31, 2005

Dizer! Saber dizer!

"Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subtergúgios da digestão e do esquecimento, gente remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstracto do céu azul sem sentido." (27-7-1930 )

in LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando Pessoa



"Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita;
A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,
Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro
Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração."


Yeats

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.



(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado)



Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.




Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso

Ainda que o grito sufoque na garganta

Ainda que o ódio estale e crepite e arda

Sob montanhas cinzentas

E montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço

Que é uma arma de dois gumes

Amor e ódio

Não posso adiar

Ainda que a noite pese séculos sobre as costas

E a aurora indecisa demore

Não posso adiar para outro século a minha vida

Nem o meu amor

Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


- A. Ramos Rosa

Sunday, August 28, 2005

Mulheres correndo, correndo pela noite



Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.


Herberto Helder

Friday, August 26, 2005

AS AFINIDADES...

“A mística das afinidades não se sabe onde começa. As pessoas são acometidas de um desejo desmesurado de se relacionarem com o seu próprio retrato, mas retrato infiel, só que implacável na sedução que exerce”
(“Todos queremos ser o que não somos”)


AS PAIXÕES...

“(...) Mas quem suspende as paixões, se a sua mesma origem se desconhece, posto que se desconhece a composição atómica dos seres e das coisas? Nascem duma lógica terrível que nos parece delirante; nascem de medos subtis, de alianças imperceptíveis, de emoções talvez sepultadas há muito tempo, de afinidades de raça extinta e que despertam na denúncia dum apetite, algo de hibernante e glaciar, fora de toda a experiência. A paixão exclui o estado de relação com o objecto; este é um símbolo. (...)”

In OS MENINOS DE OURO
Agustina Bessa-Luís

Sobre o amor

(...)"Como sempre que se pede a alguém que se justifique, exige-se-lhe e dá-se-lhe ocasião, na realidade, para que mostre o seu ser e sentido último; porque toda a exigência é avidez, amor “que não se cura/senão com a presença e a figura”.”

- Maria Zambrano

Monday, August 22, 2005

Obrigada por tudo o que me deste



Canção grata

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste


Florbela Espanca

A UMA AMIGA TRISTE

A vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo <>,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!


Florbela Espanca

Na minha doida fantasia em brasa



Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca


A nossa casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onte está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Costrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jadim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca

Wednesday, August 17, 2005

“SOU, CADA DIA, UM HOMEM MELHOR E MAIS PURO
PORQUE SIRVO A DAMA MAIS NOBRE DO MUNDO
E ADORO-A. DIGO-VO-LO EM VOZ BEM ALTA”


CANÇÃO DO SEC. XII do poeta Arnaut Daniel

Folhas de Rosa


Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo...
E falo-lhes d'amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume de outrora
Flutua em volta delas, docemente...
Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m'embriaga
O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,
E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...
Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...

Tuesday, August 16, 2005

Que é voar?

Que é voar?

É só subir no ar,

levantar da terra o corpo,os pés?

Isso é que é voar?

Não.


Voar é libertar-me,

é parar no espaço inconsistente

é ser livre,leve,independente

é ter a alma separada de toda a existência

é não viver senão em não -vivência


E isso é voar?

Não.


Voar é humano

é transitório , momentâneo...


Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:

isso é partir

e não voltar.


Ana Hatherly
NAS MARGENS ALTAS
DESPONTAM GRÃOS DE OIRO...


Safo – Fragmentos



Rosas

Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura?


Afonso Henriques da Costa Guimarães

Lo que se ha perdido

" Lo que se ha perdido, lo que se debería haber perdido,
lo que se ha conseguido y ha satisfecho por error,
lo que amamos y perdimos y, después de perderlo, vimos,
amándolo por haberlo tenido, que no lo habíamos amado;
lo que creíamos que pensábamos cuando sentíamos;
lo que era un recuerdo y creíamos que era una emoción;
y el mar en todo, llegando allá, rumoroso y fresco,
del gran fondo de toda la noche, a agitarse fino en la playa,
en el decurso nocturno de mi paseo a la orilla del mar. "


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Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa

Antes que tudo em tudo se transforme

Fernando Pessoa

Sunday, August 14, 2005

respirar o Amor

"Que ninguém se orgulhe de amar. Deveis respirar o Amor tão natural e livremente como respirais o ar para dentro e para fora dos vossos pulmões, pois o Amor não precisa de ninguém que o exalte. O Amor exaltara o coração que considerar digno de si.

O Amor não é uma virtude. O Amor é uma necessidade ; mais necessidade é do que o pão e a água, mais do que a luz e o ar."


Mikhail Naimy

Meus Deus, eu quero, quero depressa



Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando eu te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?

Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meus Deus, eu quero a mulher que passa!

Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa

Meus Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!


Vinicius de Morais

Friday, August 12, 2005

Dorme, amiga, dorme



Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede ao silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem...
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.

Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
De um sono sem fim...
Na minha poesia.


Vinicius de morais

Tuesday, August 09, 2005

Rosa de Hiroshima



Pensem nas crianças

Mudas telepáticas,

Pensem nas meninas

Cegas inexatas,

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas,

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas.



Mas, oh, não se esqueçam

Da rosa, da rosa!



Da rosa de Hiroshima,

A rosa hereditária,

A rosa radioativa

Estúpida e inválida,

A rosa com cirrose,

A anti-rosa atômica.

Sem cor, sem perfume,

Sem rosa, sem nada


(Vinícius de Moraes)

Friday, August 05, 2005

Nostalgia

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que plas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Nao sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!


Florbela Espanca

Fica assim amor.



Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.



Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.


NATÁLIA CORREIA(1923-1993)

Tuesday, August 02, 2005

Perfume da Rosa



Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?
— Ninguém? — Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem te pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.
E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem te pintou?
Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástia sentida
Tremes tanto ao pôr do Sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?
Não a vi aflita, ansiada...
— Era de prazer ou dor? –
Mentiste, rosa, és amada,
E tu também tu amas, flor.
Mas ai!, se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.


Almeida Garrett

SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando...
Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:

Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...


Lisboa, 3 de Novembro de 1913

MÁRIO DE SÁ-CARBNEIRO

Monday, July 25, 2005

Enquanto tacteias e duvidas e te espantas

Enquanto longe divagas

E através de um mar desconhecido esqueces a palavra

- Enquanto vais à deriva das correntes

E fugitivo perseguido por inomeadas formas

A ti próprio te buscas devagar

- Enquanto percorres os labirintos da viagem

E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras

- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas

E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida

Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras

E as vozes da casa te invocam e te seguem

Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar

E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado

- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais

E na praia que é teu leito como criança dormes

E devagar devagar a teu corpo regressas

Como jovem toiro espantado de se reconhecer

E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos

E devagar recuperas tua mão teu gesto

E teu amor das coisas sílaba por sílaba.


SOPHIA DE MELLO BREYNER A.

A Lucidez Perigosa




Estou sentindo uma clareza tão grande

que me anula como pessoa actual e comum:

é uma lucidez vazia, como explicar?

assim como um cálculo matemático perfeito

do qual, no entanto, não se precise.


Estou por assim dizer

vendo claramente o vazio.

E nem entendo aquilo que entendo:

pois estou infinitamente maior que eu mesma,

e não me alcanço.

Além do que:

que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez

pode-se tornar o inferno humano

- já me aconteceu antes.


Pois sei que

- em termos de nossa diária

e permanente acomodação

resignada à irrealidade -

essa clareza de realidade

é um risco.


Apagai, pois, minha flama, Deus,

porque ela não me serve

para viver os dias.

Ajudai-me a de novo consistir

dos modos possíveis.

Eu consisto,

eu consisto,

amém.


CLARICE LISPECTOR



Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos – um poço fitando o Céu.


Fernando Pessoa,
O Livro do Desassossego

BEBIDO O LUAR

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN

Wednesday, July 20, 2005

"Doce será o leito onde estender o meu corpo."



Notícias - gracia plena -
E eu aqui
Calada, a recordar
o amor e a rir de mim
Televisão desligada!
Sigo colando figurinhas
no meu almanaque
Conta-me: Já invadiram o Iraque?
Já botaram a mão no petróleo?
Algum pai matou filho
ou vice-versa ou vide-verso?
Algum bandido virou herói
deste mísero circo
ou tema de escola de samba
para desfile na avenida?

E eu aqui
inerte...assombrada
a lembrar o amor
apaixonado!
Conta-me: Os tais Estados Unidos
leram a história de Roma,
da Pérsia, do Egito?
Então eles nada sabem
sobre o declínio dos Impérios?
Nunca leram sobre Napoleão,
Genghis khan, Satan?

E eu aqui
escondida do mundo,
no meu porão,
vou lendo Pessoa, Gedeão, Bilac
Não! Nada quero saber
da Coréia, do Iraque,
das assembleias da ONU
" O palhaço sem amor
é um assassino sério"-
acreditem-me

E eu aqui
sem abrigo antiaéreo
sem máscaras de oxigénio
Dona de casa, poeta, médica-
aumento o som estéreo:
Ouço Beethoven- A Patética.


Maria da Graça Ferraz

ORAÇÕES DE AMOR

Ó puríssima e bela, - alva cecém,
Minha vida e meu bem;

Ó puríssima e triste, - amor sereno,
Meu bem e meu veneno.

Ó puríssima e doce - brando olhar.
Meu veneno e meu ar.

Ó puríssima e santa, - alma num beijo,
Meu ar e meu desejo:

Ó puríssima deusa, forma o céu
Do meu desejo e o teu!...


ANTÓNIO FOGAÇA :
(Poeta lírico, nasce em 1863 e morre aos 24 anos
com um livro publicado... )

UMA ESTRELA...




Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação-
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E os nossos lábios dessejam beijar-se-
Por que hesitais?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.


ELSE LASKER-SCHULER (1869-1945)
Baladas Hebraicas

Sunday, July 17, 2005

CÂNTICO DOS CÂNTICOS

Prendeste o meu coração, minha irmã-noiva,
Prendeste o meu coração com um só dos teus olhares,
com uma só perola do colar do teu pescoço!
Como é delicioso o teu amor, minha irmã-noiva!...
Quão mais suave do que o vinho!
E o odor do teu perfume excede o de todos os aromas!
Os teus lábios, noiva minha, são como favo que destila mel;
debaixo da tua língua há leite e mel;
e o perfume dos teus vestidos é como o perfume do Líbano.




CLXIII

És infeliz? Se deixares de pensar
na tua dor não sofrerás mais. Se a tua
mágoa é imensa, invoca os seres que
tão injustamente sofreram durante a
criação do mundo.

Escolhe uma mulher de seios alvos
e trata de a amar. E que ela, por sua vez,
seja incapaz de te amar.


CLXIV

Infeliz, nunca saberás nada! Jamais
serás capaz de resolver um único dos
mistérios que te rodeiam. Uma vez
que as religiôes te prometem o Paraíso,
tenta tu criar um nesta terra,
porque o outro talvez não exista.


in RUBAIYAT

O PROFETA

"Mas eu vos digo que tal como o mais santo não pode elevar-se acima do mais sublime em cada um de vós, tão pouco o pior malvado pode cair mais baixo que o que de mais baixo existe em cada um de vós."

Khalil Gibran

Friday, July 15, 2005

amante branca



Do meio de uma bruma nasce uma flor
que conheceu já outros campos sem sal.
A neve que cobriu a rosa em plena primavera
não assustou gaiatos que corriam
sem o sinal de um pai presente.
Amante Branca! Onde te escondes
maravilhada pela estrela da manhã?
As rosas choram nessa linha de bem e mal.
Desejam estar no meio,
no coração das coisas,
a sorrir para os doidos
casados de fresco com o grito.
São rosas que dançam e se abrem
quando o mar chama por mim.
A Branca Senhora na sua palidez
de mil primaveras desesperantes
encontrou a juventude na estátua do ardina.
Já não se esconde e senta-se num trono
vindo do País das Sombras.
Já não chora como a rosa
entregue aos moralismos de um senhor cruel.
Já não está maravilhada com a estrela
mas também ainda não tirou o véu da tristeza.
Serei espelho teu,
num lago de aparências com vida própria.
Contarás os cumes das montanhas
que tens para subir com asas
e aí nesses lugares serás Rainha
dessas geladas palavras
que saíram dos teus lábios.
Branca e a rosa são já uma.
São a união para o encontro na noite
com o poeta do deserto de áridas emoções.
Criem então esse império nunca falado.
Todos cá vêem abismos por ausência
de um sentido lunar e terno...


andré louro
in ARQUETIPOS & RETORNOS

Saturday, July 09, 2005

TER UMA RAINHA...



Ah, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu ria.
Como com olhos de quem nunca via
Tinha o trono onde Ter uma rainha.

Sob os pés seus a vida me espesinha
Reclinas-te tão bem! A tarde esfria...
Ó mar sem cais nem lodo nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbrela de chá em baixo estamos
E é súbita lembrança opositoria
Da velha Quinta e do espalmar dos ramos

Sob aos quais a merenda...Oh amor, oh gloria!
Fechem-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos...




MEU AMOR PERDIDO...

Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.

Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos - gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias -
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.

Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...


(...)

fernando pessoa

À VIRGEM SANTÍSSIMA

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer…uma ventura
Feita só de perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!


ANTERO DE QUENTAL in “Sonetos”

Tuesday, July 05, 2005

também no meu país o céu é azul



O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


EUGÉNIO DE ANDRADE

HÁ UMA ROSA CAÍDA

Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa

maria angela alvim

UNA ROSA

De las generaciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
quiero que una se salve del olvido,
una sin marca o signo entre las cosas
que fueron. El destino me depara
este don de nombrar por vez primera
esa flor silenciosa, la postrera
rosa que Milton acercó a su cara,
sin verla. Oh tú bermeja o amarilla
o blanca rosa de un jardín borrado,
deja mágicamente tu pasado
inmemorial y en este verso brilla,
oro, sangre o marfil o tenebrosa
como en sus manos, invisible rosa.


JORGE LUIS BORGES

Tuesday, June 28, 2005

Anjo és



Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és.Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c´roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d`amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A é chama vivaz e é bela,
Mas luz não têm.-Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes- e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?...-Lágrimas?-Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera...Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De onde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?


Almeida Garrett


Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.


Sá de Miranda

Monday, June 27, 2005

O palácio da Ventura




Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O Deserdado...

Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!


Antero de Quental

A Varanda

Mãe das recordações, amante das amantes,
Tu, todo o meu prazer! Tu, todo o meu dever!
Hás de lembrar-te das carícias incessantes,
Da doçura do lar à luz do entardecer,
Mãe das recordações, amante das amantes!
As tardes à lareira, ao calor do carvão,
E as tardes na varanda, entre róseos matizes.
Quão doce era o seu seio e meigo o coração!
Dissemo-nos os dois as coisas mais felizes
As tardes à lareira, ao calor do carvão!
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
Que profundo era o espaço e como a alma era langue!
Curvado sobre ti, rainha das amadas,
Eu julgava aspirar o aroma de teu sangue.
Quão soberbo era o sol nessas tardes douradas!
A noite se adensava igual a uma clausura,
E no escuro os meus olhos viam-te as pupilas;
Teu hálito eu sorvia, ó veneno, ó doçura!
E dormiam teus pés em minhas mãos tranquilas.
A noite se adensava igual a uma clausura!
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas,
E revivo o passado imerso em teu regaço.
Para que procurar belezas voluptuosas
Se as encontro em teu corpo e em teu cálido abraço?
Sei a arte de evocar as horas mais ditosas!
Juras de amor, perfumes, beijos infinitos,
De um fundo abismo onde não chegam nossas sondas
Voltareis, como o sol retorna aos céus benditos
Depois de mergulhar nas mais profundas ondas?
— Juras de amor, perfumes, beijos infinitos!


Baudelaire

Friday, June 24, 2005

AVOZ DO SILÊNCIO

Que a tua Alma dê ouvidos a todo o grito de dor como a flor de lótus abre o seu seio para beber o sol matutino.

Que o sol feroz não seque uma única lágrima de dor antes que a tenhas limpado dos olhos de quem sofre.

Que cada lágrima humana escaldante caia no teu coração e aí fique; nem nunca a tires enquanto durar a dor que a produziu.


H.P.Blavatsky
(Traduzido por Fernando Pessoa)


TRÊS POEMAS DE JUDITH TEIXEIRA

“Um Sorriso que Passa…”


Saber de ti…
Mas para quê?
O que eu penso é o que vale!
E se não fores como eu te julgo
ou como eu te vi,
que a tua boca não fale!
– O que tu és não me interessa, crê.

Bendigo o teu sorriso,
que veio encher o meu olhar de luz!
Mas para quê saber quem és
ou que destino te conduz?!…

Não sei a cor dos teus cabelos…
conheço a tua boca apenas quando ri…

Não voltes mais!

Que a visão do teu sorriso
– sorriso de curvas ideais,
virá dulcificar
a agonia dos poentes
destes meus dias sem remédio,
longos, incoerentes,
e desiguais!

Inverno
1925


“Crepúsculo”

Lá vem a noite, as serras contornando;
É esta a hora negra dos vencidos!…
Ao longe, o arvoredo baloiçando
toma aspectos bizarros, contorcidos…

Em ladainhas fúnebres, rezando,
descem dos montes já escurecidos,
as aves agoirentas, voejando
sobre os casais, na sombra adormecidos…

Hora em que se erguem maldições atrozes…
e em que os sinos, ao longe, são as vozes
indefinidas de miséria e dor!…

Hora dos neurasténicos, dos tristes…
Hora em que eu sinto bem que ainda existes,
nesta saudade duma dor maior!

Outubro
1922


“Duma Carta”

Escrevi-te ontem
somente para dizer
das minhas mágoas e do meu amor…
O Sol morria…
Tudo era sombra em redor
e eu…, ainda escrevia…

A pena sempre a correr
sobre o papel,
deixava cintilações,
nas pedras do meu anel!

E a pena corria…
Nem precisava ver, o que escrevia!

Anoitecera.
…………………………………………
Como eu em toalha de altar
A mesa
revestiu-se de luar!…

Nascera a lua.
E a pena, nos bicos leves,
dizia ainda:
– Sou tua!
Por que é que me não escreves?
Mas o papel acabou
e a pena continuou:
Por que é que me não escreves?
O meu amor é todo teu.
Só eu te sei amar!
– Só eu!…

Janeiro
1922


Judith Teixeira

Tuesday, June 21, 2005

LILITH



«je sors de toi mais indéfiniment retenue dans ton ventre»

LUCE IRGARAY


1

Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:

Com árvores
e oceanos

Penumbras incessantes
num enredado princípio

E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início


Maria Teresa Horta
«««««««««

Lilith

D’ombres et des démons je peuplai l’univers.
Avant Eve, je fut la lumière du monde
Et j’aimai le Serpent tentateur et pervers.
Je conçus l’Irréel dans mon âme profonde.

La terre s’inclina devant ma royauté.
Jéhovah fit éclore à mon front d’amoureuse
L’astre fatal de la Beauté.
Je ne fus pas heureuse.


In ÉVOCATIONS de RENÉ VIVIEN

Saturday, June 18, 2005

CAVALEIRO ERRANTE





Amo-vos tanto, Senhora minha,
mais do que nenhum cavaleiro errante
neste mundo jamais vos amou.

Amo-vos tanto, eterna dama,
tanto e mais como jamais
santo algum nesta vida vos adorou.

Amo-vos cada dia mais e mais, e tanto mais
quanto mais perto da minha alma estou.

Ah, amo-vos muito mais do que Dante
no inferno Beatriz amou,
mais do que Romeu amou Julieta,
que só por uma morte passou...

São tantas as minhas mortes por amor de vós
que nem Cristo por amor da humanidade,
tantas vezes ressuscitou...


in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"
R.L.P.

"Na Aurora Consurgens a mulher que surge também é a sabedoria de Deus e busca a sua morada entre os homens. É uma árvore da vida, uma luz que nunca se apaga. A sabedoria, para aquele que a encontra, é um alimento eterno. A mulher dá a vida, como a do outro texto que citámos, no Discours Philosophique.

Toda a dama cantada nestes termos - variados, opostos, não conciliáveis à primeira vista - está a ser espiritualizada e projectada numa dimensão que não é deste mundo. A mulher que o poeta sublima em belos e riquíssimos tesouros, com um corpo que se dilui ora nos elementos, ora em matérias tão subtis como a luz, esta mulher, que se "apura" nos poemas, faz esquecer a amante real que se deseja. Assim se justificam os os jogos de contrários, nos poetas. Como uma diversão (não um divertimento)."


in "ALQUIMIA DO AMOR" - Y.K. Centeno

Friday, June 17, 2005

O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.

Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.

O criador do espelho envenenou a alma humana.



Fernando Pessoa

Vão orgulho



Neste mundo vaidoso o amor é nada,
É um orgulho a mais outra vaidade
A coroa de louros desfolhada
Com que se espera a eternidade.

Ser Beatiz, Natércia. Irrealidade!
Mentira...Engano de alma desvairada...
Onde está desses braços a verdade,
Essa fogueira em cinzas apagada?...

Mentira! Não te quis..não me quiseste...
Efluvios subtis de um bem celeste?
Gestos, palavras sem nenhum condão...

Mentira, não fui tua não...Somente
Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
No alto do orgulho de o ter sido em vão


In Reliquiea
Florbela Espanca


Nostalgia

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que plas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Nao sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!


Florbela Espanca


" EU QUERIA POISAR COMO UMA ROSA
SOBRE O MAR O MEU AMOR NESTE SILÊNCIO


SOPHIA de Mello Breyner

Saturday, June 11, 2005

Ô femmes éternelles

Ô femmes éternelles ! Si belles et dangereuses...
Qui tenez dans vos mains le destin des humains...
Scorpion ou bien lionne vous montrez le chemin
Pour ceux qui s'en éloignent gare à la dévoreuse

Mais qui entendrait donc cette voix venue du ciel
Qui appelle tous les hommes à être plus tolérants
C'était me direz-vous : il y a plus de trois mille ans
Vaut mieux croire maintenant au monde matériel


RENÉE VIVIEN

Para além das Brumas

O seu formoso
Corpo cruel de Deusa omnipotente,
Voluptuoso,
De pé, naquela altiva soledade,
Como enlevado, extático, sorrindo,
Domina a planetária imensidade
E o céu infindo...


Teixeira de Pascoais

LUGAR SAGRADO

Ah! Houvesse neste mundo um lugar Sagrado
de peregrinaçao e culto onde eu pudesse pedir e encontrar ajuda ...
Evocar a Grande Deusa da Antiguidade ...

Ela a Grande Mãe escondida nas cavernas ...
Anat, Cibelle e Astar, queria tanto ser sua Vestal.

Ah! Mãe, diz uma palavra fecunda
e eu serei tua serva para sempre ;

Guia-me no teu caminho e faz acordar em mim a Mulher Ancestral.
Dá-me olhos para te ver à clara Luz do dia sem mais temer
a injustiça dos homens que Te sacrificaram ao Silêncio e ao esquecimento

Dá-me a Tua Força , volta outra vez ...

in "MULHER INCESTO - SONATA E PRELÚDIO"

Thursday, June 09, 2005

SAUDADE DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: « vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
Eh de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!


ANTÓNIO PATRÍCIO (1878-1930)

Mas Eu

Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.


Álvaro de Campos



"Sim a ignorância é como uma vasilha fechada e sem ar; a Alma uma ave dentro dela. Não canta, nem pode mexer uma pena; mas jaz num torpor e morre de não poder respirar."

"A VOZ DO SILÊNCIO"
H.P.Blavatsky

In Invitation au Voyage

Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D’aller là-bas vivre ensemble
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!



Baudelaire

Sunday, June 05, 2005

A TUA VOZ É UM SÁBIO POEMA...

CHANSON

Ta voix est un savant poème…
Charme fragile de l’esprit,
Désespoir de l’âme, je t’aime
Comme une douleur qu’on chérie.

Dans ta grâce longue et blême,
Tu reviens du font de jadis…
O ma blanche et lointaine amie,
Je t’adore comme les lys !

On dit qu’un souvenir s’émoussse,
Mais comment oublier jamais
Que ta voix se faisait très douce
Pour me dire que tu m’aimais?


Etudes et Preludes
Renée Vivien


LEMBRAR...
Era dentro de mim que devias estar
para que nada te atingisse
e todas as coisas pudessem ser relembradas...


Anónimo

LONGE E PERTO

Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
(....)
Escrever seria amar-te? Seria
Interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu corpo frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz


ANTÓNIO RAMOS ROSA
Boca Incompleta, 1977

Friday, June 03, 2005

SAUDADE IMENSA

Sinto de ti uma saudade imensa, maior que a
distância e o tempo, pois tempo ela não ousa,
espaço ela não vive. Sinto de ti uma saudade imensa.

De palavras no meio da noite, de conchas que ouviam
como ao mar, as vagas de meu pranto recolhidas,
do afago incessante nos meus sonhos,
um vento cálido que velava a alma,
acalentando o cansaço de meus dias.

Sinto de ti uma saudade imensa, longa como meus olhos
que se perdem, pois olhos ela não conhece,
e perda sempre foi. Sinto de ti uma saudade imensa...

De teus desejos e rimas, de palavras que sorriam
como o sol na madrugada em mim.
E a lua-rede aos nossos corpos
mais que escritos em nós mesmos.

Sinto de ti uma saudade imensa... e penso: não existe onde...
o quando é infinito. Neste espaço lento da demora,
pergunto ao sonho de um ainda: quem, neste vazio tão triste,
soprou o sempre e apagou o horizonte?


Lília Chaves


"PARA TE ESCREVER EU ANTES ME PERFUMO TODA"

Clarice lispector

Wednesday, June 01, 2005

três poemas DE ...

MARIA JANEA TEIXEIRA...


A LUA NOS MEUS BRAÇOS

Tenho a alma repleta
De ternura sem dono.
Dá-me tua presença azul
E vem comigo sem medo
Percorrer a estrada do amor.
Vem embalar a lua
Nos meus braços nus,
Espiar a face das estrelas
Nos lagos noturnos
Formados nos meus olhos.

Tenho o coração transbordando
De ternura vadia.
Dá-me tua mão,
Caminhemos lado a lado,
Para que nossos passos
Risquem trilhas paralelas.
Vem comigo
Colher as rosas vermelhas
Que perfumam as estradas.

Amor, fecha-me os olhos
Em teus doces lábios.
Não me deixes pensar
Que além se oculta
A encruzilhada do nunca mais.



FILHA DA NOITE

Eu era filha da noite
E as trevas moravam em meus olhos.
Mas tu, meu amor, com tua luz,
Rasgaste a cortina que escurecia minha vida
E me mostraste o nascer de um novo dia.
Eu era uma nave sem bússola,
Tinha os braços cansados
De girar o mesmo leme
Nos mares sempre iguais.
Mas tu, ó meu amor,
Desenhaste uma estrada de luz
E eu vi ao longe o porto seguro.
Eu tinha os olhos tão vazios
De outros olhos,
Todas as solidões moravam
Dentro do meu peito.
Mas tu, com tua chama,
Acendeu uma alma
Em meu rosto feito de ausências.

Hoje existo porque me vejo
Dentro da luz dos teus olhos,
E esta que sou, só sou,
Inteira, límpida e nua,
Porque tu a fizeste.
E o caminho que sigo agora
É a trilha dos passos
Que deixaste lá fora.



NEM ME LEMBRO MAIS

Tenho as mãos repletas de ternura
Tão ansiosas pra te amar
Tenho os braços vazios
Tão sedentos pra te abraçar

Você não saberá jamais
O quanto tenho esperado por ti
O quanto tenho sonhado em ti
Por um segundo ou uma vida inteira
Nem me lembro mais

Tenho a alma repleta de ternura
Tão louca pra te encontrar
Tenho a boca assim sedenta
Tão ansiosa pra te beijar

Você não saberá jamais
O valor do bem que eu te tive
Todo um século, todo um momento
Um tempo maior do que uma rosa vive
Nem me lembro mais

Sunday, May 29, 2005

O espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.


Natália Correia

Teu corpo/meu espaço

À MEMÓRIA DA POETISA QUE UM DIA CONHECI EM PARIS...

Teu corpo é raiz
rasgando a terra nua
do meu sexo

Teu corpo é vertical
onde os meus dedos tocam as distâncias

Teu corpo é diálogo sem palavras
O grito em ressonância
no meu espaço


Manuela Amaral

Ser mulher

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Gilka Machado

Saturday, May 28, 2005

Rejeita o aplauso, ó crente; o aplauso conduz à ilusão de si próprio. O teu corpo não é Personalidade, a tua Personalidade é, em si, sem corpo, e o elogio ou a censura não a atingem.

"O contentamento de si próprio, ó discípulo, é uma torre altíssima, à qual um insensato orgulhoso subiu.
Ali se senta em orgulhosa solidão, invisível a todos, salvo a si próprio.


Excertos de "A VOZ DO SILÊNCIO"
H.P.Blavatsky
(Traduzido por Fernando Pessoa)

UM DIA QUE NÃO CHEGA

ando a inventar um dia
que não chega
desde o distante dia
em que nasci

tempo do não ruído
azul e violeta como os céus
numa pintura antiga

todos à escuta
de alguma coisa na linha muda do horizonte sem fim
alguma coisa que haveria de nos tocar
como a cor da terra
como sal de água espumosa e viva
na pele de alguém adormecido

um tempo
para entrançar
flores e esperança
nos membros soltos da mulher dançante
para abrigar
a luz e a sombra
na cova uterina dos princípios
um tempo
para juntar mortos e vivos
no mesmo mantra redentor

como
quando os cenários se apagam
no sentir do abraço
e tudo nos parece
desmedidamente
uma coisa só


MARIANA INVERNO

Wednesday, May 25, 2005

A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

"A direção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida... "


(...)

Fernando Pessoa..

Pelas malditas horas que vivi

Pelo sagrado amor que vem de ti,
amor que eu amo com amor sagrado;
pelo Ideal descoberto e realizado,
- bendita seja a hora em que te vi!

no desejo de amor tão desejado;
pelas horas benditas ao teu lado,
- bendita seja a hora em que nasci!

Pelo triunfo enorme, pelo encanto
que me trouxeste, é que eu bendigo tanto
a hora suave que te viu nascer...

Amor do meu amor! Amor tão forte,
que se um dia sentir a tua morte,
será bendita a hora em que eu morrer!


VIRGÍNIA VITORINO (1897-1967)

Sunday, May 22, 2005

A DEUSA



Ah, verdadeiramente a deusa! -
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com sòmente a adivinhar.

Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.

Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonho, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.


IN poesias inéditas - FERNANDO PESSOA

NÃO

Não formar nenhuma ideia
do que somos ou seremos
mas entre as vozes que fogem
precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
que penetram no espaço
de eventos primaveris.
E dar as mãos aos espectros
beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
abraçar quem nos ignora
dormir com quem não nos vê
mas precisar do calor
de quem nunca nos encontra.



NATÉRCIA FREIRE

Thursday, May 19, 2005

minha raiva de ternura

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda


Maria Tereza Horta



Meu ser vive na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim


FERNANDO PESSOA

Se eu fosse apenas uma rosa

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
– de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...


Cecília Meireles

Saturday, May 07, 2005

voar na minha alma

Ao céu da tua boca eu quero ir
e na minha língua sentir o néctar jorrar...

Enquanto tu, figura alada,
com as tuas asas te debates para o espírito deste mundo libertar,
eu convulsamente mergulho no teu ventre
indo ao mais fundo do teu ser, ouvir o teu coração bater
para romper os véus da nossa existência,
vir de novo à terra
voltar ao céu da tua boca
e voar na minha alma ao teu lado deitada.


in "Mulher Incesto"
r.l.p.

Friday, May 06, 2005

Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.


Clarice Lispector



“[...] O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!”

Florbela Espanca, Carta no. 147, volume V, Lisboa, junho de 1930

SAUDADA DA ALMA

Vejo o mundo os barcos
o inebriante azul que nos perpassa
não te vejo só aos barcos
mais a sombria nuvem que ora passa

Sinto quase mágoa, quase uma dor
Não te vejo só ao vento
Onde estarão alma amada
as nossas amplas asas de condor?



TESSA ESTATE

Wednesday, May 04, 2005

Vôo



Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.


Cecília Meireles

Fecundação

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.


Gilka Machado

Sunday, May 01, 2005

BRANCAS ROSAS...



EDÍLIO


A luz do teu olhar
Fundo meu corpo em sonho, em lágrimas e luar!
Teu divino sorriso
É voz de anjo a mandar-me entrar no Paraíso...

Teu sorriso, que me lembra a doce aurora,
Minhas lágrimas tristes evapora
E, nos meus olhos, fica a tua imagem bela...
Assim o fresco orvalho matutino,
Onde encantado vive o sol menino,
Deixa, nas brancas rosas, uma estrela...

Ao descobrir-te, flor,
Todo me exalto e elevo, em cânticos de amor,
Perco-me na amplidão...

Sou asa entontecida, aroma, comoção,
Se me tocam, de leve,
Os teus olhos de chama e as tuas mãos de neve!

Alegre, choro; rio, sempre aflito!
Canto, soluço e grito!
Sou oração, queixume,
Relâmpago, nevoeiro, onde do mar, perfume,
Quando, da tua face,
Límpida rosa nasce
E de ti se desprende o encanto da manhã,
Que é tua sombra mística e pagã;
Quando, ao doirado zéfiro, estremeces
E, aureolada de beijos, resplandecentes,
Como florido arbusto...
E és o sol esculpido em feminino busto.


(continua)

in VIDA ETÉREA -TEIXEIRA DE PASCOAIS

À MINHA MÃE...

TERRA SEM MÃE...

Infinita nostalgia
A de teus braços.
Ombros vergados
pela memória
de me teres ao colo.

Mãe de mãos esguias
tua filha espera.
Vem junto a mim
para que te conte
como o medo é certo.

Imaculada, branca dor
a de te sentir tão viva
o tempo já sabe a mágoa
quando te digo, volta,
e tudo se desmorona.

No colo o filho
conta-me histórias
de como a dádiva
o adormecia
na tua voz.

Choro, porque agora é tarde
E nem sei onde estás
Nesse céu tão vasto
Sem lugar para mim.


In TERRA SEM MÃE
ANA MARQUES GASTÃO

Friday, April 29, 2005




Excelsa Senhora do Universo:
Concede-me que no azul do firmamento
contemple o teu mistério.
Permite o que ternamente move o coração humano
e com amor puro a ti conduz.


in Fausto de Goethe

A TUA IMAGEM

Tenho a tua imagem gravada no mais fundo do meu coração:
olhos internos, fibras e nervos te vêem.

Corre no meu sangue como um rio
e eu deixo-me levar na corrente do teu ser.

Bebo a tua seiva e ergo-me
como a coluna do templo em que és rainha
e minha no mais sagrado altar em que te posso abrigar.

Guardam-me a alma os teus olhos
que me seguem a cada silêncio e em cada gesto.

Queria abraçar-te o ventre e adormecer suavemente a teus pés

Como o pedinte à porta de uma igreja ou o nómada do deserto,
a minha sede de ti é eterna, ó mãe do céu e da terra em que nasci!


in "Mulher Incesto" - R.LEONOR PEDRO


O complexo mitológico do incesto pode, numa das suas acepções particulares, inserir-se neste conjunto. A Mulher que desempenhou o papel de "mãe", que forneceu ao ser dividido a "Água da Vida" e da ressurreição (o "segundo nascimento" próprio dos Mistérios Menores) é possuída por aquele que, de certo modo, gerou e é seu filho.

(...) A OBRA

Wednesday, April 27, 2005

A alma não tem justiça

Hoje estou triste, stou triste.
Starei alegre amanhã...
Sempre em qualquer coisa vã.

Ou a chuva, ou o sol, ou a preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.

Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
Stou triste. A tarde está fria.
Amanhã, o sol e a razão.

FERNANDO PESSOA

Nunca amamos alguém



Nunca amamos alguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso – em suma é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade a toda a escala do amor.

(...)
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constituia actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse. (...)


O LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando pessoa

Monday, April 25, 2005

SEDE

Ó minha amada, de ti sou insaciável
Tenho fome e sede do teu corpo como de pão e água!

Uma ânsia infinita dos teus olhos,
Uma premência inaudita do teu ser
E da tua boca, oh! Nem quero falar porque desvairo
E desfaleço da sede de te beijar!

Ó delíquio da fusão, ó sonho de ti renascer
E como na origem só uma ser.

Eu e tu , mãe eterna na minha alma inteira a vibrar,
Liquefeita eu nesse mar do teu olhar,
para sempre no teu Santo Nome mergulhar.

Ó minha amada, de mim sou insaciável!


In “Mulher Incesto” -R.L.P.

“MINHA MÃE MEU AMOR”

1

Falei-te
De um passado
Cheio de ondinas
De sereias e de aves

Com uma mãe por detrás
A comandar as fadas
»»»»»»»»»

1

Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:

Com árvores
e oceanos

Penumbras incessantes
num enredado princípio

E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início


MARIA TERESA HORTA:

neste mesmo momento

6 - Tenho pela mentira um horror quase físico. Sinto-a à distância e agora...neste mesmo momento... sinto-a a vaguear, asquerosa e suja, em volta de da minha alma que vibra no orgulho de ser pura. Se os outros me não conhecem, eu conheço-me, e tenho orgulho, um incomensurável orgulho em mim!

DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO - Florbela Espanca

Sunday, April 24, 2005

OS UPANISHADES

"Quando a mente está silenciosa, para além da fraqueza ou falta de concentração,
então pode penetrar num mundo que em muito ultrapassa a mente: no mais elevado fim."

"A mente devia ser mantida no coração enquanto não alcançar o Mais Alto Fim.
Isto é a Sabedoria, e isto é a libertação. Tudo o mais não passa de palavras."


HÁ NOITES

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
(...)
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que são só iguais
À mais longínqua onda do teu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo ...

Natália Correia

Saturday, April 23, 2005

A CONSCIÊNCIA, O AUTÓMATO E O GATO...

(...)
"O ser humano ainda não iluminado pela sua consciência espiritual quanto aos valores reais ou relativos, deixa o seu mental apoiar os desejos instintivos do seu ser inferior, cujas exigências anárquicas criam tumultos de aceleração de impaciência, e de caprichos incoerentes.
Sofrendo dessas influências, o Autómato humano assemelha-se a certo tipos de animais. O cão treme de impaciência diante do osso avidamente desejado. A inconstância do macaco é típica pela sua dispersão de ideias. A agitação da mosca lança-a para a armadilha da aranha. A pressa é a preocupação da abelha pelo dever social; é também a inquietação da formiga que tem sempre qualquer coisa que fazer, mas que se precipita em voltas supérfluas, sabendo a direcção, mas não a maneira de contornar os obstáculos.


Ao contrário de outros animais que nos dão uma lição de mestria, sendo exemplo disso o gato cuja sabedoria é um modelo porque junta a maior paixão à mais indiferente calma.
Na sua imobilidade reflecte o seu salto, sempre exacto;
a força dos seus rins é proporcional ao relaxe do seu sono:
há no seu sono, o abandono da criança recém-nascida, enquanto que o seu instinto está sempre de vigília;
a sua leveza sem resistência torna a sua queda sem perigo;
Caça e luta são para ele alegria do jogo: ele caça sem ódio e joga sem finalidade;
constantemente pronto ao ataque sem animosidade, e pronto a defender-se sem apreensão:
vencedor indiferente, ele nunca é vencido.

"A serenidade é o fruto da independência.
Cria em ti esta independência, que não é indiferença, mas neutralidade face às impressões recebidas do exterior: bonito e feio, bom e mau, alegre ou triste, agradável ou penível... Um a coisa é discernir as qualidades, outra é deixá-las afectar a nossa disposição."
(...)

In « L’OUVERTURE DU CHEMIN » de ISHA s. DE LUBCZ

LONGE E PERTO

Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais
(....)
Escrever seria amar-te? Seria
Interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu corpo frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz


ANTÓNIO RAMOS ROSA
Boca Incompleta, 1977

Tuesday, April 19, 2005

Meu ser vive na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim...


FERNANDO PESSOA



Feliz aquele que, para encontrar a sua "Imagem" eterna, ousa queimar sem piedade
os fantoches do seu passado ...


Isha Schwaller de Lubicz

Noite de saudade

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho


Florbela Espanca

Sunday, April 17, 2005

Há uma rosa caída



Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa


MARIA ÂNGELA ALVIM


“Il est mortel de se moquer d’un poète,
d’aimer un poète, d’être un poète".

amor que eu amo com amor sagrado



Pelo sagrado amor que vem de ti,
amor que eu amo com amor sagrado;
pelo Ideal descoberto e realizado,
- bendita seja a hora em que te vi!

Pelas malditas horas que vivi
no desejo de amor tão desejado;
pelas horas benditas ao teu lado,
- bendita seja a hora em que nasci!

Pelo triunfo enorme, pelo encanto
que me trouxeste, é que eu bendigo tanto
a hora suave que te viu nascer...

Amor do meu amor! Amor tão forte,
que se um dia sentir a tua morte,
será bendita a hora em que eu morrer!


VIRGÍNIA VITORINO (1897-1967)

Friday, April 15, 2005

OS TEUS OLHOS



"Onde estão os teus olhos – onde estão? – oh, milagre de amor que escorres dos meus olhos!
Na água iluminada dos rios da lua eu os vi descendo e passando e fugindo
Iam como as estrelas da manhã. Vem, eu quero os teus olhos, meu amor!"


VINICIUS DE MORAES,
Sonata do amor perdido (excerto)

AMAR

Amar! mas de um amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
De uma doida cabeça encanecida.

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetra o meu ser - não só de beijos
Dados no ar - delírios e desejos
Mas amor... dos amores que têm vida.


Antero de Quental



SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é caprixo ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-se em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebrando...
Timbres, elmos, punhais...A doida quer morrer-me:

Mordora-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...


Lisboa, 3 de Novembro de 1913

MÁRIO DE SÁ-CARBNEIRO