Tuesday, April 18, 2006

Há palavras que nos beijam ...

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre o’neil

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Manuel bandeira
««««««««««««

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


Maria do Rosário Pedreira

Thursday, April 13, 2006

Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!




Se receoso se turba na alta noite
teu peito em flor,
ao sentires um hálito em teus lábios,
abrasador,
lembra-te que invisível ao teu lado
respiro eu.


Gustavo Adolfo Bécquer

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

«««««««««««


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Garcia Lorca

Wednesday, April 12, 2006

Quero fugir a cem léguas da razão

Quero fugir a cem léguas da razão,
Quero da presença do bem e do mal me liberar.
Detrás do véu existe tanta beleza: lá está meu ser.
Quero me enamorar de mim mesmo, ó vós que não sabeis!



Sobe-me na alma, que ando a procurar-te

Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as plumas.
Na leira rasa das aves, Tu que redras
Terra, névoas e espumas,
-Deus, de teu nome!- sabes
que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
no anjo e ergues o incenso.

Desfaleço a pensar-te
Ó ser de anjos e Deus
Que baixa em mim:
Sobe-me na alma, que ando a procurar-te
E dizendo-te Deus
Acho-te assim.

Lívidos, sem respiração
Ficávamos do toque
Da primeira asa vinda;
Mas eles rondam apenas a oração
Que murmura os evoque
E vão-se e tornam ainda.

Deles para cima, ainda mais graus de glória
Relutam ao sentido
Que deles vem á memória
Como uma bolha de ar na água de olvido:
No mais, são tão pesados,
Os anjos leves ao justo...
Tão alados,
Mas desgostosos do nosso susto!

É isso! Disse-mo agora
O verbo súbito surpreso:
Ser anjo é espanto da demora
Nossa e do peso pávido
Que nos estende.
Terrível é quem toca terra
Para a levar, e não a rende.

Que o anjo de si é ávido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo hora a hora
É ele que não entende
A nossa estupidez.


de Vitorino Nemésio

Thursday, April 06, 2006

A alma é a fonte


Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.
As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.
Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos
dois se detém?
A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.
Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?
Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo; um punhado de pó
vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.
Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne o mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.
Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre Um; com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.



Rumi

Wednesday, April 05, 2006



Sobre o meu rosto rolou uma lágrima solta,
sem que eu saiba de que fonte veio…





OS DOIS ROSTOS

Era o suspense de que ela vinha e trazia flores.
Sorrindo como nos filmes, vestia um vestido de fantasia,
ou um manto longo ás cores…
Parecia a fada que eu esperava quando era criança.
Subitamente transformava-se na madrasta
que nos ameaça de matar à fome…


r.l.p.

Tuesday, April 04, 2006

experiência



*
O dia é longo
muitas as horas e nelas todas
nem um minuto é de amor...


**
No princípio desta casa nós amavamo-nos.
Tu vinhas e o meu coração dançava...


***
É um estado singular este,
um respirar diferente.
A minha alma canta de prazer.

****
O coração é um Templo de onde imana a Luz
que inunda cada célula.
Nele se revela a essência do ser...

*****
Tem a vida um novo gosto
se de mim nasce a certeza.
Caminhar o além não é longe...


rosaleonorpedro

Quando Tornar a Vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.


Alberto Caeiro

Monday, April 03, 2006

« J’AI TANT BESOIN DE PITIÉ ET DE TENDRESSE… »

J’ADORE
(…)
Je t’adore. Je voudrais m’agenouiller, joindre les mains, t’embrasser partout à la fois. Près de toi je ne peux que recueillir en fermant les yeux et changer les minutes légères en sentiments profonds.
Il me serait égal d’être le plus pauvre de tous les pauvres et d’avoir froid pourvu que j’aime. Et il me serait égal d’être seul pourvu que j’aie de l’amour dans le cœur. Je suis devenu semblable à ma vie, semblable à moi-même, semblable à plus tard, à mon Paradis, ayant l’avenir dans la main puisque j’ai l’amour.
Existe-tu ? Est-ce à quelqu’un que je m’adresse ? Est-ce que je ne fais pas qu’appeler le vide ? Peut-être est-ce une étoile que j’entoure de mes rêves ?


In. J’ADORE de Jean Desbordes (né en 1906)

Thursday, March 30, 2006



"No inverno, os ramos nus
que parecem dormir
trabalham em segredo,
preparando-se para a primavera."


Rumi

PRECE

Senhora
das feras
e esferas

Senhora
do sangue
e do abismo

Senhora
do grito
e da angústia

Senhora
noturna
e eterna

— escuta-nos!



De Teia (1996)

MÉDIA


Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?


De Transposição (1969)

Orides Fontela

Monday, March 27, 2006

O TEU CORPO




É sagrado o teu corpo
abençoadas são as tuas mãos!
E os teus dedos que se recortam
e destinguem uns dos outros, preciosos.
É divino o teu rosto de rainha, sereno como uma deusa!
São luminosos os teus olhos, quando me olham
e perpassam o coração...
É redentor o teu colo
onde se refugia o homem e a criança,
quando choram, riem e sofrem
Mulher!


R.Leonor Pedro

«je sors de toi
mais indéfiniment retenue dans ton ventre»

LUCE IRGARAY

Minha Mãe meu Amor


1
Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:
Com árvores
e oceanos
Penumbras incessantes
num enredado princípio
E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início
***** ***
8
Este cordão umbilical
Que nos liga
Do chão do teu corpo
Ao chão da minha boca
A respirar-te
Devagar
O coração
**** ***
9
Deito-me junto do sal
Das tuas raízes
Na água salgada
Dos teus olhos
A ouvir respirar
o teu corpo
**** ****
6
A tapeçaria da tua
voz
feita com animais de asas
Com casas
Com aves
Bordadas
**** ****
1
Falei-te
De um passado
Cheio de ondinas
De sereias e de aves
Com uma mãe por detrás
A comandar as fadas

Tersa Horta
in Minha Mãe meu Amor

*** ****
«que nous puissions nous gouter, nous toucher,
nous sentir, nous écouter, nous voir – ensemble».

LUCE IRIGARAY

Friday, March 24, 2006

Pássaro-Poesia




Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.
No Amanhã.

HILDA HILST(1930-2004)

Ah quantas máscaras e submáscaras


Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fica mascarada.
Que consciência seja que se afirme.
O aceite uso de afirmar-se a ensona.
Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas
E um mundo inteiro na esquecida causa;
E quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.


FERNANDO PESSOA (1888-1935)
Tradução: Jorge de Sena.

Wednesday, March 22, 2006

Começa a raiva da saudade

LXIII

Não sou daquelas que ruminam rancor:
Meu coração é o da criança.

safo




Há algo nas manhãs que não entendo agora
e a um grito de minhas pernas não atendo.

Ainda depois da noite, noite me espia
e sonho dúvidas enormes e imóveis
como a imobilidade das aranhas.

Tão pouco tempo- e tenho de deixar-me
e queria nunca ter de repartir-me.

Começa a raiva da saudade
que inventei vou ter de mim.


««««««««««««


A ÁGUA




A água
se enovela pelas pernas
em fio de vigor espiralado
sobre o ventre e o alto das coxas.

O orgasmo é quem mede forças
sem ter ímpeto contra a água.

Quisera desabar sobre ti
como chuva forte.
As coisas são boas quando destroem
e se deixam destruir.
Só assim eu venho:
eco de profundas grutas,
nada leve
uma irrealidade
estar aqui.
Só sei amar assim
- e é assim que te lavro, deserto.


OLGA SAVARY (n.1933)

Tuesday, March 21, 2006

pelo amor da Deusa Artémis

Azuis as suas vestes da cor do céu...
De mármore os seus corpos talhados
pelo amor da Deusa Artémis




Com pés ligeiros, assim dançavam noutro tempo

as raparigas de Creta à volta do altar;

frescas eram e frágeis as flores da relva que pisavam...


SAFO

Ausencia

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde
.
Jorge Luis Borges