Friday, February 24, 2006

Señora mía





Pedirte, señora, quiero
de mi silencio perdón,
si lo que ha sido atención
le hace parecer grosero.

Y no me podrás culpar
si hasta aquí mi proceder,
por ocuparse en querer,
se ha olvidado de explicar.

Que en mi amorosa pasión
no fue descuido, ni mengua,
quitar el uso a la lengua
por dárselo al corazón.

Ni de explicarme dejaba:
que, como la pasión mía
acá en el alma te veía,
acá en el alma te hablaba.

Y en esta idea notable
dichosamenta vivía,
porque en mi mano tenía
el fingirte favorable.

Con traza tan peregrina
vivió mi esperanza vana,
pues te pudo hacer humana
concibiéndote divina.

¡Oh, cuán loca llegué a verme
en tus dichosos amores,
que, aun fingidos, tus favores
pudieron enloquecerme!

¡Oh, cómo, en tu sol hermoso
mi ardiente afecto encendido,
por cebarse en lo lúcido,
olvidó lo peligroso!

Perdona, si atrevimiento
fue atreverme a tu ardor puro;
que no hay sagrado seguro
de culpas de pensamiento.

De esta manera engañaba
la loca esperanza mía,
y dentro de mí tenía
todo el bien que deseaba.

Mas ya tu precepto grave
rompe mi silencio mudo;
que él solamente ser pudo
de mi respeto la llave.

Y aunque el amar tu belleza
es delito sin disculpa
castígueseme la culpa
primero que la tibieza.

No quieras, pues, rigurosa,
que, estando ya declarada,
sea de veras desdichada
quien fue de burlas dichosa.

Si culpas mi desacato,
culpa también tu licencia;
que si es mala mi obediencia,
no fue justo tu mandato

Y si es culpable mi intento,
será mi afecto preciso,
porque es amarte un delito
de que nunca me arrepiento.

Esto en mis afectos hallo,
y más, que explicar no sé;
mas tú, de lo que callé,
inferirás lo que callo.


Sor Juana Inés de la Cruz

Tuesday, February 21, 2006

Parece uma dor, um amor, alguém que conheço...

"Deveria escrever um Tratado das Lágrimas. Senti sempre uma enorme necessidade de chorar (no que me sinto muito próximo das personagens de Tchekov). Lamentar tudo olhando o céu fixamente durante horas...eis no que emprego o meu tempo, embora esperem que eu apresente trabalhos e me exortem de todos os lados à actividade."

E.M. CIORAN (1911-1995)


Parece uma dor, um amor, alguém que conheço...

Algo me chama na minha alma,
me esmaga por dentro e faz doer...
bate no meu peito pancadas surdas de violento desespero...

Quem me ama ou amo eu e não sei quem é?
Porque não fala, não responde ou não tem voz?
Ó alma amada, diz-me onde estás...

Se eu pudesse, iria ter contigo mesmo sem asas...
Ao mais alto céu, ao mais fundo dos abismos,
ao centro da terra, no meio das trevas,

Iria ao inferno buscar-te!
ao fundo do mar...

Ó amor se não tens corpo,
escolhe um anjo, pede um guia,
um antepassado, um Orixá...
Que desça o santo!
Que venha Oxum, Jemanjá!

Mas diz-me peço-te, onde estás...


rosa leonor pedro
in ANTES DO VERBO ERA O ÚTERO

A fome do primeiro grito

XLII

As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.

De Amavisse (1989)


LXII

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

De Amavisse (1989)

HILDA HILST

Wednesday, February 15, 2006

Conversemos através da alma




Poucos me vêem cuidar do meu jardim antigo

Ninguém conhece a preferida rosa

Bebo na aragem o néctar da memória

De como fomos nos tempos de outro tempo


Se sou a rosa, o jardim, se sou memória

Alentai o fogo ainda, abram-se brechas

Quero morrer para mim e assim viver

O que não soube ser nos tempos do agora.

ANÓNIMO



Vem

Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes, sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos, sem língua, sem lábios.
Sem abrir a boca, contemo-nos todos os segredos do mundo, como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos que só são capazes de entender se escutam palavras e vêem rostos.
Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um, falemos desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão : "toca", se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fecho pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.


Jalaluddin RUMI (sec.XII)

Saturday, February 11, 2006

Último Brinde

Oh estrela da tarde,
dos astros todos o mais formoso...

SAFO - FRAGMENTOS



Último Brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...

Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
A Deus, por não salvar ninguém.



Anna Akhmátova

ROSAS

SEMPRE a rosa. Sempre:
a forma,
a cor,
o recendo,
a luz,
a perfeccisn da rosa.
Prefiro a rosa vermella.
E amo a rosa branca
porque, cando lle digo
simplesmentes: ROSA,
entrecerra os ollos,
treme
e ruborece.



MANUEL MARMA, Poeta galego

(1930-2004)


Minha mulher, a solidão,
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é o coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminho.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só - veste de seda -,
E fala só - leque animado.


Fernando Pessoa, 27-8-1930

Wednesday, February 01, 2006

Minha senhora de mim

Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.

De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é seu perfume.





Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito


Minha Senhora de Mim, Editorial Futura,
1974 - Lisboa, Portugal


Poema sobre a recusa


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

MARIA TERESA HORTA

Friday, January 27, 2006

POSSE INTEMPORAL



Fazer amor contigo
não é espelhar teu corpo nu
no vítreo do meu espaço
não é sentir-me possuída
ou possuir-te

É ir buscar-te
ao abismo de milénios de existência
e trazer-te livre.


Manuela Amaral

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem
.


Natália Correia

Wednesday, January 25, 2006




"Em cada coração há uma
janela para outros corações.
Eles não estão separados,
como dois corpos.
Mas, assim como duas lâmpadas
que não estão juntas,
Sua luz se une num só feixe."


(Jalaluddin Rumi)

EU QUERO UM AMANTE...

que quando se mova,
ou se levante,
deva erguer-se da morte,
jorrando fogo para todos os lados.

Nós ansiamos por um amor
como o inferno;
um amor que queima
do inferno até a superfície;
um amor que desafia as ondas do mar
e atira centenas de mares no fogo.

Envolve os céus
como um lenço em suas palmas.
E suspende a luz inexaurível
no forro do mundo.

Com a humildade de um crocodilo
deve lutar como um leão,
não deixando ninguém exceto ele mesmo;
luta, então, com ele mesmo.

deve rasgar as sete cortinas do amor
com a intensidade da sua luz
e os céus devem responder:
'Maravilha! Maravilha!
Uma vez que ele encontre a saída do Sétimo Mar
e dirija-se ao Monte Kaf, ele deverá
distribuir muitas pérolas e corais
pelos continentes da terra...


(Rumi)

[In: "Mevlana: Gülseni"/ "Mevlana: The Rose Garden".

Thursday, January 19, 2006

MULHER TERRA MÃE


O CÁLICE

Beijar-te a planta dos pés…
As raízes, as ramificações, os meridianos...
o chão que pisas, a árvore, a semente,
o fruto,
o teu ventre doce e quente
e chegar ao teu coração.

Alimentar-me de ti,
crescer.
E como uma pantera, selvagem,
com as minhas garras,
revolver a terra, os veios, um a um.

Encontrar a água e beber
do teu corpo vaso redentor
até me saciar.

Seca ou húmida a via alquímica
da matéria prima...
Mulher-Matriz.


"ANTES DO VERBO ERA O ÚTERO"
Rosa Leonor Pedro


O AMANTE INVISÍVEL

Quero suprimir o tempo e o espaço
A fim de me encontrar sem limites unido ao teu ser,
Quero que Deus aniquile minha forma atual e me faça voltar a ti,
Quero circular no teu corpo com a velocidade da hóstia,
Quero penetrar nas tuas entranhas
A fim de ter um conhecimento de ti que nem tu mesma possuis,
Quero navegar nas tuas artérias e confabular com teu sangue,
Quero levantar tua pálpebra e espiar tua pupila quando acordares,
Quero baixar a nuvem para que teu sono seja calmo,
Quero ser expelido pela tua saliva,
Quero me estorcer nos teus braços
Quando os fundamentos da terra se abalarem nos teus pesadelos,
Quero escrever a biografia de todos os átomos do teu corpo,
Quero combinar os sons
Para que a música da maior ternura embale teus ouvidos,
Quero mandar teu nome nas flechas dos ventos
Para que outros povos te conheçam do outro lado do mar,
Quero forçar teu pensamento a pensar em mim,
Quero desenhar diante de teus olhos
O Alfa e Ômega nos teus instantes de dúvida,
Quero subir em ramagem pelas tuas pernas,
Quero me enrolar em serpente no teu pescoço,
Quero ser acariciado em pedra pelas tuas mãos,
Quero me dissolver em perfume nas tuas narinas,
Quero me transformar em ti.


(Murilo Mendes: A Poesia em Pânico. 1936-1937)

Super Homem

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver

Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher.


Gilberto Gil (canção)

Wednesday, January 18, 2006

PRELÚDIOS

-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.
de Hilda Hilst



I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca

Austera. Toma-me AGORA, ANTES

Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes

Da morte, amor, da minha morte, toma-me

Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute

Em cadência minha escura agonia.



Tempo do corpo este tempo, da fome

Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,

Um sol de diamante alimentando o ventre,

O leite da tua carne, a minha

Fugidia.

E sobre nós este tempo futuro urdindo

Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida

A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.



Te descobres vivo sob um jogo novo.

Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,

Antes do muro, antes da terra, devo

Devo gritar a minha palavra, uma encantada

Ilharga

Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar

Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo

Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.



II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.



Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.



Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.
(...)



[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]

Thursday, January 12, 2006

MULHER INCESTO - SONATA E PRELÚDIO


MA E MI
________________________________________
Meu amor, procuro o ritmo do teu corpo no meu corpo,
procuro o alento do teu peito no meu
o ar que a tua boca respira na minha.

Procuro em ti o ritmo interno, bem dentro,
no fundo de cada movimento, no centro do teu coração.

Quero-te inteira na minha vida na minha alma
quero dançar contigo esta harmonia de sentir
e saber-te em cada átomo, em cada elemento,
sentir-te bem fundo no meu ventre,
ser tua mãe e tua filha ao mesmo tempo, que é não ter tempo.

Quero ser a árvore e a semente, quero ser a terra lavrada
e por cima dela emergir para sempre:
como no mar me deitas e me embalas antes de nascer,
sempre nos teus braços,
recomeçar esta dança do ventre
da eterna bailarina
que neste mundo eu sou...


Labirinto
________________________________________
Abrem-se as Portas.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido

As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.

São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.

Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.

A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.





Quero Palavras Antigas
________________________________________
Quero palavras antigas, muito antigas
as mais antigas de todo o sempre:

A primeira de todas, a mais sagrada;
a palavra mágica que deu vida ao universo
e inteligência aos "hanimais" que somos.

Aquela que fez as águas aparecer primeiro
e depois as separou da terra.

Quero aquela palavra
que era o verbo e se fez carne,
que disse que o dia era bom e a noite também,
aquela mesma palavra
que fez com que da grande mãe nascesses
e fosses para sempre a imagem sagrada da mulher
sobre este planeta.

ROSA LEONOR PEDRO

Tuesday, January 03, 2006



SERENA

Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.


Henriqueta Lisboa

O último dia do ano (atrazado...)

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade

Thursday, December 29, 2005

FONTE DE VIDA




(...) Mas tu, com os teus braços de raiz aérea,

puxas-me para esse cimo de montanha onde o silêncio

se transforma em sílaba – a sílaba inicial

do mundo, a interrogação do gesto nascente de todas as

origens, o soluço de um suicídio de murmúrios,

percorrido pela única percepção inútil: a da vida

que se esvai no instante do amor. E encostamo-nos à pedra

abstracta do horizonte. A que nos deixou sem voz quando

as grutas do litoral se abriram; para que a pedra nos beba,

gota a gota, todo o sangue. Então, é nas suas veias

que correm as nossas pulsações. E afastamo-nos, devagar,

para que a terra viva através de nós

uma existência puramente interior, despida

do fulgor animal das manhãs. Sentamo-nos

no mais longínquo dos quartos, de janelas fechadas, e

abraçamo-nos com um rumor de primaveras clandestinas,

com o inverno nos olhos.



NUNO JÚDICE

In A Fonte da Vida (excertos), 1997



MEMÓRIA INTEGRAL

Sou uma memória integral

Carrego vidas recorrentes
na minha vida de agora
mas nada sei da memória causal
a definir-me no dia que ora passa

Habitam-me memórias de profundis
os manifestos efeitos
de existência em existência
Parto e chego
recomeço inconsciente
enquanto
as vozes abafadas
fundíssimas e subtis
incontroláveis
maniatam o livre ser
que eu me creio

Ergue-se um véu antigo
logo outros mil ocultam
histórias sem fim
cóleras águas velhos enredos
choro de alma aprisionada
intermináveis desvios

Sou uma memória integral
uma antiga colectânea
de registos infinitos
camadas sobre camadas
superimpostas
pelo passar inexorável dos tempos

Lembranças de amor e desamor
impressões vagas
sufocantes
do canto da alma

Feridas abertas mas não expostas

Sou
a criadora
da memória total
que eu sou



Sou
a zelosa guardiã
de prisões que me teci
e preservo


Património antigo não visitado
não entendido
á tíbia luz do momento que passa

Sou uma memória integral
caminhante uma vez mais
pelo mesmos gastos caminhos

De entre a luz espreitam as sombras
dos tropeços dos enganos
que engendrei

Sou uma memória integral
Sou memória



Mariana Inverno
Londres, 1 de Maio de 2000

Saturday, December 24, 2005

No Fim


No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

No lugar dos palácios desertos



No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinais
De quem sabe amar.
Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o vôo.

Por certo eles foram mais reais e felizes.


Álvaro de Campos

Sunday, December 18, 2005

AINDA PESSOA

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.



Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palác ios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Sunday, December 11, 2005

O Amor Em Visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite. Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele – imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
– Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.


Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
– o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
– E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
– No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
– aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
– no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Monday, December 05, 2005

"Nunca amamos alguém.

Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso – em suma é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade a toda a escala do amor.
(...)

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. Na própria arte em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constituia actividade da alma.
Estou hoje lúcido como se não existisse." (...)


O LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando pessoa

Sunday, December 04, 2005

FERNANDO PESSOA


Poemas dos Dois Exílios


Análogo começo.
Uníssono me peço.
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo.
Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.
E interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.
Timbre do vespertino.
Ali, carícia, o hino O
outonou entre preces,
Antes que, água, comeces.



Reticências

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...


Álvaro de Campos



Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos

Monday, November 21, 2005

A POESIA DÓI DENTRO DE MIM

A poesia dói dentro de mim
como quando meu pai podava a parreira
eu ia vendo caírem
as folhas
eu ia vendo caírem
as folhas
e ninguém sabia
como os ramos derramavam os sons
dolorosos


Vera Lúcia de Oliveira



ESPELHO

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele
[ falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.


Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça
[ sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem
[ verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um
[ peixe terrível.



Sylvia Plath

Sede de voar

ESCUTA

Ocorre que há uns lapsos na história,
há uns lapsos. Então vêm, videntes,
relatar histórias conhecidas
em noites longas de calor, insônia.
Ouvimos. Pacientemente.
Sob discursos jazem outras vozes.

Necessário cantar.
Animais se aninham ao nosso ânimo,
baixam seu brado à espera da canção.
E os leões de pedra dos portões
deixam rolar os globos que os sustentam.

Falamos línguas obscenas.
Não. Endureceu-se o ouvir.
Indefinidamente?
Afrontar a rija espada dos confrontos,
permitir soluções, se o peito arfa
curvado de rajadas imprudentes.
Se não se deixa a alma nesses lances
em que transidos vagamos dementes,
como afrontar as rugas, decifrar mensagens
(não correm ventos nas paisagens mortas,
largadas ao relento)?

Necessário é amar.
Primeiro e último tormento.


Maria da Conceição Paranhos

Monday, November 14, 2005

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo é apenas
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível. [...]




A volúpia carnal...

"A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a, fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência."

Rainer Maria Rilke,
in 'Cartas a um Jovem Poeta'


PRIMEIRA ELEGIA


Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse
Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é
Senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha
Destruir-nos. Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo
De obscuro soluço. Ah! A quem podemos
Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens,
E os animais sagazes logo percebem
Que não estamos muito seguros
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Alguma árvore na encosta que diariamente
Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem
E a mimada fidelidade de um hábito,
Que se compraz connosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços
Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada,
Levemente decepcionante, que para o solitário coração
Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num voo mais íntimo.
Sim, as primaveras precisavam de ti. Muitas estrelais
Esperavam que tu as percebesses. Do passado
Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou
Ao passares sob uma janela aberta,
Um violino se entregava. Tudo isso era missão.
Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre
Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse
A bem amada? (onde queres abrigá-la
Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram
E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito
Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu
Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas. Começa
Sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi
Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma
Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.
Já pensaste pois em Gaspara Stampa
O bastante para que alguma jovem,
A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo
Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar
Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos,
Amando, do objecto amado e a ele tremendo resistirmos Como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma?
Pois parada não há em /parte alguma.
Vozes, vozes. Escuta, coração como outrora somente
os santos escutavam: até que o gigantesco apelo
levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados,
inabaláveis, sem desviarem a atenção:
eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar
a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro,
a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direcção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas
De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranquilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti
Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar
A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco
O puro movimento de seus espíritos.
Certo, é estranho não habitar mais terra,
Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos,
Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas
Não dar sentido do futuro humano;
O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo
Não ser mais, e até o próprio nome
Deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho,
Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto
No espaço. E estar morto é penoso
E cheio de recuperações, até que lentamente se divise
Um pouco da eternidade. - Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.
Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,
Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno
suavemente se deixa, ao crescer. Mas nós que de tão grandes
mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes
o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar /sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,
A primeira música ousando atravessou o árido letargo,
Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente
escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou
naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?


Reiner Maria Rilk

Sunday, November 06, 2005

Ísis



E diz-me a desconhecida:
"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! . . .

"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados! . . ."
Eu não sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados . . .

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,

Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera . . .

Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura . . .

Tudo em volta sente medo . . .
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo . . .

Lá me vou, sem despedida . . .
Às vezes, quem vai, regressa . . .
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa" Mais depressa" . . .




Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.


Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.


Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.


Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.


Fico ao teu lado.


CECÍLIA MEIRELES

Monday, October 31, 2005

Encontro





Quisera fosse um suspiro
que me seduzisse
inteira.

Algo sussurrado
aos ouvidos
que me fizesse
prisioneira.

Quisera mãos
me afagassem
a procura do outro
ser que há em
mim:
pele, pêlos, penugem,
a tua boca
na minha boca
a tua língua a deslizar
como uma serpente
entre meus dentes.

Suor, a transpirar
pelos poros,
pernas a entrelaçar
meu corpo,
olhos entreabertos.

Narinas aguçadas
a captar odores
daqueles seres que
se abraçam
daquele monte de carne,
objeto tridimensional
esculturas móveis
sal e beleza
e a sensualidade,
geografia obscena.

Obscenas também
nossas cabeças
que vão da fantasia
transformando
signos em matérias,
palavras soltas,
desejos que irrompem,
murmúrios,
lambidos.

Um grito transborda.

O infinito...



Angela Schaun

Dilema do adeus



Quero dizer-te adeus
e não encontro palavra
para dizer-te adeus.

Simplesmente adeus
não traduz o que sinto
por fora e por dentro
ao dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro sentido
para dizer-te adeus.

Certamente adeus
não arranca de mim
a vontade de ficar
para dizer-te um adeus-sem-fim.

Quero dizer-te adeus
e dissolver todas as lembranças
e apagar a esperança
de rever um dia depois do adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro coragem
para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
para que o tempo passe
as rugas e as pedras apareçam
e ainda assim dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro caminho
para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e mansamente sumir na estrada
assim calada, no silêncio profundo
ao dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e não encontro o tempo certo
para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na monotonia das palavras vãs,
na agonia da consciência cristã
que só permite dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e poder ser a mesma
depois do adeus.

Quero dizer-te adeus
e sair incólume
desse encontro inesperado
e ter a certeza de dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e continuar como antes,
antes e depois de dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na busca frenética de mil adeuses
na cena erótica de um quarto vazio
para conseguir dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
tantas e quantas vezes for preciso
pois só assim me conscientizo
de que é preciso dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
no anoitecer de um dia claro
no afã de um beijo desesperado
e encontrar força para dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na transparência das minhas lágrimas
e no mesmo instante afogar-me em mágoas
para poder dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na busca do absurdo
do acaso surdo e mudo
daquele encontro que tornou-se adeus.

Quero dizer-te adeus
quantas vezes eu já nem sei
quantas noite eu vaguei
na busca infinita de dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
pelos motivos que já sabemos
porém não cremos
por isso tão difícil dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e interromper este dilema
deixar mudo este poema
e silenciar este adeus.

Quero dizer-te adeus
no afã de um suspiro profundo
no elã de um olhar fecundo
e pronunciar docemente o adeus.

Quero dizer-te adeus
nas entrelinhas de uma poesia obscena,
no jogar pelo chão esta paixa terrena
sair correndo e dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
como um raio que fulmina,
como uma bebida que alucina,
bruscamente, dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
e poder cair no esquecimento
pois não pensarei no tormento
quero simplesmente dizer-te adeus.

Quero dizer-te adeus
na rapidez de um trem veloz,
não quero que ouças a minha voz,
quando gritar finalmente,
ADEUS


Angela Schaun
Este poemeto, no modo mulher, é uma variante
(e homenagem) do poema Lembranças,
de Angela Schaun

Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.
Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.
Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.
Nem aqueles lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos,
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.
Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.


Soares feitosa
Salvador, madrugada alta, 6.10.95

Motivo da rosa





Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.



Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...


— mas só esse eu não farei.


Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...


— palavra que não direi.


Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,


— que amargamente inventei.


E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...


— e um dia me acabarei.

Tuesday, October 25, 2005

O homem deseja e odeia a verdade


O homem deseja e odeia a verdade. Quer mentir aos outros - quer que o enganem (prefere a ficção à realidade), mas por outro lado receia o engano, quer o fundo das coisas, o verdadeiro verdadeiro, etc.
Somente a razão conduz à verdade. Mas só os fanáticos, os visionários e os iluminados fazem as coisas grandiosas, mudanças, descobertas. A verdade, de tanto se tornar necessária, conduz à secura, à dúvida, à inércia - à morte.
É muito natural que os homens odeiem aqueles que dizem ou tentam dizer a verdade. A verdade é triste (dizia Renan) - mas, com maior frequência, é horrível, temível, anti-social. Destrói as ilusões, os afectos. Os homens defendem-se como podem. Isto é, defendem a sua pequena vida, apenas suportável à força de compromissos, de embustes, de ficções, etc. Não querem sofrer, não querem ser heróis. Rejeição do heroísmo-mentira.


Giovanni Papini,
in 'Relatório Sobre os Homens'

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.


Carlos Drummond de Andrade

Friday, October 21, 2005

MARÂNUS


(...)
"Neste íntimo deserto que se estende
Sempre através de mim, apenas vejo
Um delicado vulto de mulher;
Sombra bela e gentil do meu desejo
Indefinido e vago...aparição
Desta melancolia fraternal,
Que me surgiu, à flor do coração;
E beijando, amorosa, as minhas lágrimas,
Dentro delas, espalha o azul do dia..."

(...)
Teixeira de Pascoais

O meu desejo


Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deu
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho,
Até a morte me levar consigo...


FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

Wednesday, October 19, 2005

Sei que amo, mas não sei a quem...





Sei que amo,
mas não sei a quem...
Sei que adoro,
mas não sei quem adoro!
Sei que rezo, choro e peço,
mas não sei a quem ao certo...

Existe alguém,
algures no firmamento
Ou nos confins de um qualquer outro mundo,
No céu ou no inferno,
no centro de terra...
que eu amo
sem que consiga saber,
adivinhar ou descortinar quem
e que a minha razão não compreende ...

Que segredo é este que a minha alma guarda,
que excede o meu coração,
o meu entendimento prende,
e me faz sentir a mim numa prisão?
Amar tanto um ser que sempre procurei,
mas nem sequer se existe sei...







Parece uma dor, um amor, alguém que conheço...

Algo me chama na minha alma,
me esmaga por dentro e faz doer...
bate no meu peito pancadas surdas de violento desespero...

Quem me ama ou amo eu e não sei quem é?
Porque não fala, não responde ou não tem voz?
Ó alma amada, diz-me onde estás...

Se eu pudesse, iria ter contigo mesmo sem asas...
Ao mais alto céu, ao mais fundo dos abismos,
ao centro da terra, no meio das trevas,

Iria ao inferno buscar-te!
ao fundo do mar...

Ó amor se não tens corpo,
escolhe um anjo, pede um guia,
um antepassado, um Orixá...
que desça o santo!
Que venha Oxum, Jemanjá!

Mas diz-me peço-te, onde estás...


rosa leonor pedro
in ANTES DO VERBO ERA O ÚTERO

Abre tus sentidos

Abre tus sentidos,
dispónlos para cada gesto.

Arráigate en la luz
que inaugura los colores.

Ansía el gozo
de las palabras heredadas,
de los libros que te esperan,
de la música límpida
de quienes te preceden.

Alégrate de la fruta,
de los labios que acogen tu beso,
del mar inalcanzable,
del Dios indescifrable.

Instaura en tus ojos
el eco azul del infinito.


CARLES DUARTE
(Poeta catalão)

Tuesday, October 18, 2005

Seios



Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!
Por que não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p´la manhã?
Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em desesperadas, quarentonas lágrimas...
Seios fortes como os da Liberdade
- Delacroix - guiando o povo.
Seios que vão à escola p´ra de lá saírem
Direitinhos p´ra casa...
Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes folhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...
O amor excessivo dum poeta:
«E hei-de mandar fazer um almanaque
Na pele encadernado do teu seio!» (Gomes Leal)
Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.
Botas, botifarras
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!
«Oculta, pois, oculta esses objectos,
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos» (Abade de Jazente)
Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...
Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...
Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...
Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne
Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser.


Alexandre O'Neill

Monday, October 10, 2005

Meu coração, coisa de aço

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-te num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.


Cecília meireles

Sunday, October 09, 2005

La Luxure est une force

Muitas vezes alteramos a Verdade,
mas só para dar a máxima expressão de verdade
á nossa fantasia.

Judith de Teixeira



Predestinada

Sou amargura em recorte
numa sombra diluida...
Vivo tão perto da morte!
Ando tão longe da vida...

Quis vencer a minha sorte,
Mas fui eu que fui vencida!
Ando na vida sem norte,
Já nem sei da minha vida...

Eu sou a alma penada
de outra que foi desgraçada!
—A tara da desventura...

Sou u Castigo fatal
dum negro crime ancestral,
en convulsões de loucura!



A minha amante

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…

Dizem —e eu não protesto—
Que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo—
Não entendem deste luar de beijos…
—Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal—
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos—
Não faltes aos meus apelos dolorosos
—Adormenta esta dor que me domina!



(Judith Teixeira. Poemas. Lisboa. Edicições Culturais do Subterráneo. 1996.)

Wednesday, October 05, 2005

Nunca são as coisas mais simples...

"Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios."


Nuno Júdice

CAMPO DE FLORES

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.
Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visáo extasiada.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

Carlos Drummond de Andrade


As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade

Saturday, October 01, 2005

Se eu fosse apenas uma rosa



Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!
Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!
Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
- de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...


Cecília Meireles



Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.


NATÁLIA CORREIA(1923-1993)

Friday, September 30, 2005

HIJAB

(adaptação e plágio a Rumi)

Aventurado o momento ó amada,
em que tu e eu sentadas, nas escadarias do teu palácio,
a tua face e a minha, uma só alma, juntas escutávamos
o cântico das aves nas árvores do teu jardim.

Esse momento de júbilo em que tu e eu,
unidas em êxtase e sem palavras,
por fim nos encontrámos à entrada do teu ninho.
Onde enlaçadas nos vimos, tu no Irão
e eu aqui sòzinha...

Tu e eu, irmanadas na mesma fé e sem véus.
Livres do jugo dos homens
que serão devorados pelo seu ciúme
de nos verem de novo unidas tu e eu
ó minha irmã, no amor da Deusa-Mãe!

E no globo inteiro saberão da nova
como a paz anunciada, entre as mulheres...
Tu e eu sós, ó amada, Ocidente e Oriente,
passado e futuro, unidas neste amor para sempre
libertas dos grilhões do pecado e da beleza...


in Antes do Verbo era o Útero
Rosa Leonor Pedro


Minha amiga intocável

IV

A Marrakesh
Chego ao por do sol
Acolhida por um bosque de palmeiras
Singularmente esbeltas na sua pequenês

Na confusão do trânsito
Sinto a vida em perigo
Sinto que de repente
Vou sumir
Num eterno olvido

De repente
Os olhos negros
De uma mulher velada
A quem apelo
Mudamente me guiam
Na confusão do medo:
Seguem-me de longe
Amorosamente
Preocupam-se comigo

Quando chego ao meu destino
Ela me acena de longe
Meu anjo de olhos tristes
Minha mãe desconhecida
Minha amiga intocável


ITINERÁRIOS - ANA HATHERLY

Tuesday, September 27, 2005

Depois da cinza morta destes dias

Depois da cinza morta destes dias,

Quando o vazio branco destas noites

Se gastar, quando a névoa deste instante

Sem forma, sem imagem, sem caminhos,

Se dissolver, cumprindo o seu tormento,

A terra emergirá pura do mar

De lágrimas sem fim onde me invento.




Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen -

Estranha noite velada

Estranha noite velada,

Sem estrelas e sem lua.

Em cuja bruma recua

Fantasma de si mesma cada imagem

Jaz em ruínas a paisagem,

A dissolução habita cada linha.

Enorme, lenta e vaga

A noite ferozmente apaga

Tudo quanto eu era e quanto eu tinha



E mais silenciosa do que um lago,

Sobre a agonia desse mundo vago,

A morte dança

E em seu redor tudo recua

Sem força e sem esperança.



Tudo o que era certo se dissolve;

O mar e a praia tudo se resolve

Na mesma solidão eterna e nua.




Sophia de Mello Breyner Andresen-

Friday, September 23, 2005

Mim

Se tenho que depender de alguém, que seja de mim
Vou ser minha criada
Abonada
Aos outros, de alma abandonada
Lendo as horas passadas
com a luz condenada dos infernos
Mas sou mim
Sou-me só a mim
Não sou parte de nenhum Deus sem fim
Que me julgue, que me ame, que me condene
eu só sozinha
E não qualquer outra existência plural
ou indivisível
A sombra do tecto divino
ofusca-me os olhos
Eu sei que sou o meu próprio caminho
Não sou ramo de um galho ou galhos
da árvore do Universo
Indivíduo me confesso
Eu sou o meu único caminho
Sou a embriaguez ébria do vinho
e seu recipiente
Sou chuva de caudal, sou enchente
de uma barragem de águas a transbordar
das lágrimas de São Pedro
Sou a lama do penedo alto
Lá, do abismo, que eu salto e ressalto
Sou cair belo no pairar
de uma mente que pensa
mesmo em direcção à morte
Por tudo isto digo:
Que Deus creia em mim!
Que por Seus pecados me peça perdão
E me implore benesses
E à noite, no leito, me
reze uma prece
E a mim, só a mim,
Se confesse



xangri_lah
1/96

A porta branca

Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.


Fiama Hassa Pais Brandão
Cena Vivas
Relógio d´Água



A um poema

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-Ihe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938)
Três Rostos



O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

Friday, September 16, 2005

Última frase




Minha alma ergueu-se para além de ti...
Tive a ânsia de mais alto
— abri as asas, parti!


Judith Teixeira

Predestinada

Sou amargura em recorte
numa sombra diluida...
Vivo tão perto da morte!
Ando tão longe da vida...

Quis vencer a minha sorte,
Mas fui eu que fui vencida!
Ando na vida sem norte,
Já nem sei da minha vida...

Eu sou a alma penada
de outra que foi desgraçada!
—A tara da desventura...

Sou u Castigo fatal
dum negro crime ancestral,
en convulsões de loucura!


Ilusão

Vens todas as madrugadas
prender-te nos meus sonhos,
—estátua de Bizâncio
esculpida em neve!
e poisas a tua mâo
mavia e leve
nas minhas pálpebras magoadas...

Vens toda nua, recortada em graça
rebrilhante, iluminada!
Vejo-te cegar
como uma alvorada
de sol!...
E o meu corpo freme,
e a minha alma canta,
como um enamorado rouxinol!

Sobre a nudez moça do teu corpo,
dois cisnes erectos
quedam-se cismando em brancas estesias
e na seda roxa
do meu leito,
em rúbidos clarões,
nascem, maceradas,
as orquídeas vermelhas
das minhas sensações!...

Es linda assim; toda nua,
no minuto doce
em que me trazes
a clara oferta do teu corpo
e reclamas firmemente
a minha posse!...

Quero prender-me á mentira loira
do teu grácil recorte...
E os teus viejos perfumados,
nenúfares desfolhados
pela rajada dominante e forte
das minhas crispações,
tombam sobre eu meus nervos
partidos... estilhaçados!


A estátua

O teu corpo branco e esguio
Prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido…

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei…

—Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados

JUDITH TEIXEIRA
(Poemas. Lisboa. Edicições Culturais do Subterráneo. 1996.)

Saturday, September 10, 2005

Não te sintas só...



FRAGÂNCIAS...

Não te sintas só
mesmo na aparente ausência

Por mistério ascendem
das nossas almas inquietas
brancas silhuetas ecos perdidos
pulsantes como um coração cósmico
retido muito tempo no Olvido

Há cruzamentos já
nós a atarem-se
um tumulto imenso de ascensão

Sobre nós só Força
a repuxar a alma e os sentidos

Não te sintas só
que eu nunca largo
os portos bem amados da minha alma

Se ao menos hoje
eu pudesse deixar-te
o meu antigo vaso de fragrâncias
para que a hora te não doesse tanto

Mariana inverno



Vôo

Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.


Cecília Meireles

A FLOR MAIS BELA ...

“[...] O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!”

Florbela Espanca,
Carta no. 147, volume V, Lisboa, junho de 1930



Voz Que Se Cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.


Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.


Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!


Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

Florbela Espanca




Nihil novum

Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado...

Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,
Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,
E o coração ? a mesma chaga aberta!

Florbela Espanca

Tuesday, September 06, 2005

o que sonha tanto

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.
A minha vida é como se me batessem com ela.




MARÂNUS

(...)

"Neste íntimo deserto que se estende
Sempre através de mim, apenas vejo
Um delicado vulto de mulher;
Sombra bela e gentil do meu desejo
Indefinido e vago...aparição
Desta melancolia fraternal,
Que me surgiu, à flor do coração;
E beijando, amorosa, as minhas lágrimas,
Dentro delas, espalha o azul do dia..."

(...)

Teixeira de pascoais

Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


Fernando Pessoa

Wednesday, August 31, 2005

Dizer! Saber dizer!

"Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subtergúgios da digestão e do esquecimento, gente remexendo-se, como bichos quando se levanta uma pedra, sob o grande pedregulho abstracto do céu azul sem sentido." (27-7-1930 )

in LIVRO DO DESASSOSSEGO
Fernando Pessoa



"Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita;
A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,
Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro
Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração."


Yeats

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.



(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado)



Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.




Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso

Ainda que o grito sufoque na garganta

Ainda que o ódio estale e crepite e arda

Sob montanhas cinzentas

E montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço

Que é uma arma de dois gumes

Amor e ódio

Não posso adiar

Ainda que a noite pese séculos sobre as costas

E a aurora indecisa demore

Não posso adiar para outro século a minha vida

Nem o meu amor

Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


- A. Ramos Rosa

Sunday, August 28, 2005

Mulheres correndo, correndo pela noite



Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.


Herberto Helder

Friday, August 26, 2005

AS AFINIDADES...

“A mística das afinidades não se sabe onde começa. As pessoas são acometidas de um desejo desmesurado de se relacionarem com o seu próprio retrato, mas retrato infiel, só que implacável na sedução que exerce”
(“Todos queremos ser o que não somos”)


AS PAIXÕES...

“(...) Mas quem suspende as paixões, se a sua mesma origem se desconhece, posto que se desconhece a composição atómica dos seres e das coisas? Nascem duma lógica terrível que nos parece delirante; nascem de medos subtis, de alianças imperceptíveis, de emoções talvez sepultadas há muito tempo, de afinidades de raça extinta e que despertam na denúncia dum apetite, algo de hibernante e glaciar, fora de toda a experiência. A paixão exclui o estado de relação com o objecto; este é um símbolo. (...)”

In OS MENINOS DE OURO
Agustina Bessa-Luís

Sobre o amor

(...)"Como sempre que se pede a alguém que se justifique, exige-se-lhe e dá-se-lhe ocasião, na realidade, para que mostre o seu ser e sentido último; porque toda a exigência é avidez, amor “que não se cura/senão com a presença e a figura”.”

- Maria Zambrano