Friday, November 03, 2006

O MEU CAMINHO


ESTA É A ÚNICA PORTA
QUE TODOS OS DIAS SE ME ABRE.
A TUA FECHOU-SE...
"A gente sempre destroi aquilo que mais ama - em campo aberto ou numa emboscada. Alguns, com a leveza do carinho; outros, com a dureza da palavra. Os covardes destroem com um beijo; os valentes, destroem com a espada..."
(Oscar Wilde)

Los amorosos callan

Los amorosos callan.
El amor es el silencio más fino,
el más tembloroso, el más insoportable.
Los amorosos buscan,
los amorosos son los que abandonan,
son los que cambian, los que olvidan.
Su corazón les dice que nunca han de encontrar,
no encuentran, buscan.


Los amorosos andan como locos
porque están solos, solos, solos,
entregándose, dándose a cada rato,
llorando porque no salvan al amor.
Les preocupa el amor. Los amorosos
viven al día, no pueden hacer más, no saben.
Siempre se están yendo,
siempre, hacia alguna parte.
Esperan,

no esperan nada, pero esperan.
Saben que nunca han de encontrar.
El amor es la prórroga perpetua,
siempre el paso siguiente, el otro, el otro.
Los amorosos son los insaciables,
los que siempre —¡qué bueno!— han de estar solos.
Los amorosos son la hidra del cuento.
Tienen serpientes en lugar de brazos.
Las venas del cuello se les hinchan
también como serpientes para asfixiarlos.
Los amorosos no pueden dormir
porque si se duermen se los comen los gusanos.

En la obscuridad abren los ojos
y les cae en ellos el espanto.


Encuentran alacranes bajo la sábana
y su cama flota como sobre un lago.
Los amorosos son locos, sólo locos,
sin Dios y sin diablo.
Los amorosos salen de sus cuevas
temblorosos, hambrientos,
a cazar fantasmas.
Se ríen de las gentes que lo saben todo,
de las que aman a perpetuidad, verídicamente,
de las que creen en el amor
como en una lámpara de inagotable aceite.

Los amorosos juegan a coger el agua,
a tatuar el humo, a no irse.
Juegan el largo, el triste juego del amor.
Nadie ha de resignarse.
Dicen que nadie ha de resignarse.
Los amorosos se avergüenzan de toda conformación.
Vacíos, pero vacíos de una a otra costilla,
la muerte les fermenta detrás de los ojos,
y ellos caminan, lloran hasta la madrugada
en que trenes y gallos se despiden dolorosamente.
Les llega a veces un olor a tierra recién nacida,
a mujeres que duermen con la mano en el sexo, complacidas,
a arroyos de agua tierna y a cocinas.
Los amorosos se ponen a cantar entre labios
una canción no aprendida


Y se van llorando, llorando
la hermosa vida.


JAIME SABINES

Wednesday, November 01, 2006

rubaiyat

CXXV

Se quiseres conquistar a solidão magnífica das estrelas e flores, separa-te de todos os homens afasta-te de todas as mulheres. Não te entendas com ninguém. Não te inclines sobre nenhuma chaga nem participes em nenhum festejo...

Omar Khayyam

arde o azul...

o meu país é um pássaro
que nunca mais cantou
um ramo de outono
aprisionado pela chuva

sobressaltou-se

o meu país caiu no lodo
quando cheguei
tinham roubado
uma árvore como a de Buda

disse para mim: ladrões
e de repente vi
ruas sem árvores
escolas sem estrelas
girassóis pisados pelos lobos
crianças vertiginosas e belas
sentadas em cálices de pedra.


às vezes ouço
uma harpa ou um sino
talvez um violino

há um cântico em segredo
nas folhas do vento
um anel feito de trevo


lá chegaremos



maat

Sunday, October 29, 2006

NO MEU CORAÇÃO...



Um Mestre é aquele que te conduz à vertigem do encontro
com o desconhecido, e que no momento certo larga a tua mão
e desaparece.

Há quem desespere com isso,
preferindo nunca o ter conhecido.


(texto in: A Pedra e a Espada)
COPIADO DO BLOG ARDE O AZUL

DIRIA ANTES,
O MESTRE É AQUELE QUE TE CONDUZ À VERTIGEM DO ENCONTRO CONTIGO MESMA...
AQUELE QUE TE SALVA DA ILUSÃO DO AMOR DOS OUTROS...

NA FEIRA QUE ATRAVESSAS...

Não procures muitos amigos, nem busques prolongar
a simpatia que alguém te inspirou;
antes de apertares a mão que te estendem,
considera se um dia ela não se erguerá contra ti.


Na feira que atravessas não procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.


Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.



Omar Khayyam

Friday, October 27, 2006



Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho ...
Porque cada pessoa é única pra nós,
E nenhuma substitui a outra...
Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho,
Mas não vai só...
Cada um que passa em nossa vida,
Leva um pouco de nós mesmos,
E nos deixa um pouco de si mesmo...
Há os que levam muito,
Mas não há os que não levam nada...
Há os que deixam muito,
Mas não há os que não deixam nada...
Esta é a mais bela realidade da vida.
A prova tremenda da importância de cada um,
É que ninguém se aproxima do outro por acaso...


Antoine de Saint-Exupéry

EM ARDE O AZUL...

Cresce-me um sentimento fino sem fim...
uma brisa que se vai formando ,
como os desenhos feitos à superfície dos lagos...
Meu coração é um cofre fechado,invisível...
Minha Alma sofre por saber que há Nada.

É Outono.
Porque sou ele?
Porque me destinaram o átrio da Espera defronte do Nada?

O Amor que tenho por si, já o perdi...dura-me a lembrança
de o ter sido numa verdade invisível em outra escondida...
Cada palavra sua é como uma porta que se fecha sem mim.
Cada frase sua , a mágoa do Outono vestido de chuva...

Talvez isto não lhe diga nada.
Talvez isto seja apenas uma notícia longínqua que reverbera
noutro mundo. Sinto que nasci depois do meu tempo.
Vivo no futuro de Alguém que não sou .
Agora, que é Outono, vou com a dança triste
do vento alegre... nas folhas...
Partilho consigo esta tragédia íntima...e não sei se lá está ...
Peço-lhe que em si mesmo guarde, quando me encontrar, o segredo deste deserto,
rasa de lágrimas nos olhos...que foram secar nas pequeninas pedras...

Escrever-lhe é dormir...é deixar-me embalar infinitamente ao colo de mim.
Talvez seja esta a minha antiga "fralda de fazer sono"
com que me adormecia em pequena.

Hoje é um dia, em que por não saber de mim (ou de si!),
o Sol escondeu-se na Lua.


Um beijo com muita ternura,

Ana

Cartas de Ana Soares
(Copiado de ARDE O AZUL)

Wednesday, October 11, 2006

TRANQUILIDADE NA TARDE

A Liene T. Eiten

Ah, derramar-me líquida sobre o mar
– ser onda indefinidamente –
esperar pela primeira estrela
e dela ser apenas
espelho.


NADA TE PEÇO, NADA.

DO POEMA

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —
o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.



A PAZ

Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?

Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?



Amo-te porque não me amo
inteiramente. O que me falta
é infinito
mas tu és do bem que me falta
o enigma onde se condensam
a terra e o sol o ar as águas
invioladas
e tenho a boca cheia
de música ondulação
do teu silêncio.


Casimiro de Brito

A LEMBRAR O POEMÁRIA DE MARIANA...

Saturday, September 16, 2006

ENSAIO DE CIÚME





Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,

vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!).

Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!


Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa


de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?


“Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!.” Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?


Ah... e a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
ir conviver com uma à-toa


da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?


Viver com uma boneca de gesso
— de feira!? Você me acha cara?
Depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?


(O deus que eu escavei de um bloco
só me deixou os ocos.) Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?


Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória,
que só possui cinco sentidos?

Enfim, por fim... você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?



Marina Tsvietáieva (1892/1941)



ESTE É O TEMPO

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam


Mar Novo (1958)

Sophia de Mello Breyner Andresen

Thursday, August 17, 2006

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS



Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos


Dual (1972)



EIS-ME

Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Livro Sexto (1962)



ESTE É O TEMPO

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam

Mar Novo (1958)

Sophia de Mello Breyner Andresen

Thursday, August 03, 2006

Indica-me, amor de minha alma...

PRIMEIRO CANTO

Anseios de amor

Ela .

2 Sua boca me cubra de beijos! São mais suaves que o vinho tuas carícias,

3 e mais aromáticos que teus perfumes

é teu nome, mais que perfume derramado;

por isso as jovens de ti se enamoram.

4 Leva-me contigo! Corramos!

O rei introduziu-me em seus aposentos.


Coro.

Queremos contigo exultar de gozo e alegria,

celebrando tuas carícias, superiores ao vinho.

Com razão as jovens de ti se enamoram.

Canção da amada



Ela.

5 Sou morena, porém graciosa,

ó filhas de Jerusalém,

como as tendas de Cedar,

como os pavilhões de Salomão.

6 Não me olheis com desdém, por eu ser morena!

Foi o sol que me bronzeou:

os filhos de minha mãe, aborrecidos comigo,

puseram-me a guardar as vinhas;

a minha própria vinha não pude guardar.

Ambição do amor


Ela.

7 Indica-me, amor de minha alma: onde pastoreias?

Onde fazes repousar teu rebanho ao meio-dia?

Para eu não parecer uma mulher perdida,

seguindo os rebanhos de teus companheiros.

Coro.

8 Se não o sabes, ó mais bela das mulheres,

segue os rastos das ovelhas

e leva teus cabritos a pastar

perto do acampamento dos pastores!

Ele.

9 Às parelhas das carruagens do Faraó

eu te comparo, minha amada.

10 Graciosas são tuas faces entre os brincos,

e teu pescoço entre colares.

11 Faremos para ti brincos de ouro

com filigranas de prata.


in O Cântico dos Cânticos de Salomão

Porque o amador é tudo...

" ' Transforma-se o amador na coisa amada' com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro.Traz ruído
e silêncio.Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador.Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.


Transforma-se em noite extintora.
, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta.O amador entra
por todas as janelas abertas.Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como no primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimenta
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor ".


Herberto Helder

Tuesday, July 25, 2006

O CÁLICE E A ESPADA

"Em Creta, pela derradeira vez na história registada, parece ter prevalecido um espírito de harmonia entre mulheres e homens, como participantes joviais e iguais na vida. É este espírito que parece iluminar a tradição artística de Creta, uma tradição que, ainda nas palavras de Platon, é única no seu "prazer da beleza, da graça e do movimento" e na sua "fruição da vida e proximidade da natureza".

de RIANE EISLER




Consagradas a la Diosa del Hogar, Vesta, estas sacerdotisas pertenecientes a una clase social libre, accedían a su labor a la temprana edad de entre seis y diez años. Ataviadas con una túnica blanca las seis vestales debían mantener encendido perennemente el fuego del templo ya que simboliza el destino del Imperio Romano.

AS SACERDOTISAS DE ASTARTEIA

As sacerdotisas de Astarteia amam-se ao erguer da lua;
depois se levantam e vão banhar-se, num pequeno lago de prata bordejado.

Com seus dedos recurvos penteiam os cabelos
e as suas mãos, tintas de púrpura, assim juntas a seus cachos negros
parecem ramos de coral num mar flutuante e sombrio.

Nunca arrancam os pelos, para que o triângulo da deusa
lhes assinale o ventre como um templo;
mas tingem-se com pincéis e profundamente se perfumam.

As sacerdotisas de Astarteia amam-se ao cair da lua;
e depois, em salas atapetadas onde no alto uma lâmpada de ouro brilha,
fortuitamente se retiram e vão dormir.


in AS CANÇÕES DE BILITIS de Pierre Louys

Thursday, July 20, 2006

Noturno

Espírito que passas, quando o vento

Adormece no mar e surge a Lua,

Filho esquivo da noite que flutua,

Tu só entendes bem o meu tormento...



Como um canto longínquo - triste e lento-

Que voga e sutilmente se insinua,

Sobre o meu coração que tumultua,

Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...



A ti confio o sonho em que me leva

Um instinto de luz, rompendo a treva,

Buscando. entre visões, o eterno Bem.



E tu entendes o meu mal sem nome,

A febre de Ideal, que me consome,

Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!




antero de quental

Intimidade

Antero de Quental







Quando, sorrindo, vais passando, e toda

Essa gente te mira cobicosa,

Es bela - e se te nao comparo a rosa,

E que a rosa, bem ves, passou de moda...





Anda-me as vezes a cabeca a roda,

Atras de ti tambem, flor caprichosa!

Nem pode haver, na multidao ruidosa,

Coisa mais linda, mais absurda e doida.





Mas e na intimidade e no segredo,

Quando tu coras e sorris a medo,

Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!





E nao te quero nunca tanto (ouve isto)

Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras

- mentindo - que me tens amor...

Saturday, July 15, 2006

Da poesia maldita...




"Minha adorada bela como tudo na terra e nas mais belas estrelas da terra que eu adoro minha mulher adorada por todos os poderes das estrelas bela com a beleza dos biliões de rainhas que adornam a terra a adoração que tenho pela tua beleza põe-me de joelhos para te suplicar que penses em mim ponho-me aos teus joelhos adoro a tua beleza pensa em mim minha beleza adorável minha enorme beleza que adoro faço rolar os diamantes no musgo mais alto que as florestas de que os teus cabelos mais altos pensam em mim (...) olho para ti na minha mão que me serve para me firmar por aquilo que sou minha mulher morena-loura minha bela minha louca pensa em mim nos paraísos com a cabeça nas minhas mãos. Eu não estava cansado dos cento e cinquenta castelos onde nos iamos amar irão construir-me amanhã outros cem mil cacei das florestas de baobás de teus ollhos os pavões as panteras e as aves-liras eu os encerrei nos meus castelos da Ásia da Europa da África da América que rodeiam os nossos castelos nas florestas admiráveis dos teus olhos que estão habituados ao meu esplendor."(...)

in A IMACULADA CONCEPÇÃO
em "tentativa de simulação da paralesia geral"
de breton e paul eluard

O meu gato...



o gato enroscou-se ao sol
na soleira da porta
como um deus que dorme
indiferente
ao mundo
e ao sofrimento dos homens:

um deus
que se renova
a cada som inexistente

mais tarde o vento
passeando pelo gato
(ou deus )
que se espreguiça ao sol

trouxe-me sem eu saber
uma folha verde
que foi nascer no chão

nasceu
como o que agora escrevo
que sempre esteve lá
sendo inexistente

talvez para mostrar
que deus e o gato
estão em toda a parte

e que toda o Poema é queda



sophia de carvalho
(heterónimo de maat)

Friday, July 07, 2006

"É uma vida de violência mágica. "

QUANDO AQUI NÃO VENHO É PORQUE ESTOU LONGE
OU ESQUECIDA DO DESTINO ÚNICO DO MEU CORAÇÃO...
É PORQUE...

"E eu vivo de lado - lugar onde a luz central não me cresta. E falo bem baixo para que os ouvidos sejam obrigados a ficar atentos e a me ouvir.

Mas conheço também outra vida ainda. Conheço e quero-a e devoro-a truculentamente. É uma vida de violência mágica. É misteriosa e enfeitiçante. Gotas de água enlançam enquanto as estrelas tremem. Gotas de água pingam na obsuridade fosforecente da gruta. Nesse escuro as flores se entrelaçam em um jardim feérico e humido. Sinto-me derrotada pela minha própria corruptibilidade.

E vejo que sou intrinsecamente má. É apenas por pura bondade que sou boa. Derrotada por mim mesma. Que me levo aos caminhos da salamandra, génio que governa o fogo e nele vive. E dou-me como oferenda aos mortos. Faço encantações no solstício, espectro de dragão exorcizado."


Clarice lispector

FLOR DE LOTUS



No dia em que a flor de lótus desabrochou
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu coração.
Verdades
Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela acompanho com olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.
Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.
Não faço perguntas.
Tenho medo das respostas que já sei.
Liberta do invólucro físico
Devolverei a matéria ao pó de que fora feito.
Vivi meus três caminhos na terra.
Purgatório. Inferno. Céu.
Tudo de acordo com meus projetos,
Minhas atitudes,
Procurando não cair nos mesmos erros.
Agora — vago e espero
Entre tropeços e flagelos
O ressurgir da verdade.


SE NÃO FALAS

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

Tagore

Tuesday, June 27, 2006

Viaja dentro de ti mesmo...

rassouli


Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.


««««««««««««

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

««««««««««««

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

««««««««««««

Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.


J.Rumi

Friday, June 16, 2006

"Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa. A garantia única é que eu nasci. Tu és a forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: eis os limites de minha possibilidade.

Estou numa delícia de se morrer dela. Doce quebranto ao te falar. Mas há a espera. A espera é sentir-me voraz em relação ao futuro. Um dia disseste que me amavas. Finjo acreditar e vivo, de ontem para hoje, em amor alegre. Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo."


Clarisse Lispector :" Água Viva"

ORAÇÕES DE AMOR

Ó puríssima e bela, - alva cecém,
Minha vida e meu bem;

Ó puríssima e triste, - amor sereno,
Meu bem e meu veneno.

Ó puríssima e doce - brando olhar.
Meu veneno e meu ar.

Ó puríssima e santa, - alma num beijo,
Meu ar e meu desejo:

Ó puríssima deusa, forma o céu
Do meu desejo e o teu!...


ANTÓNIO FOGAÇA :
Poeta lírico, nasce em 1863 e morre aos 24 anos com um livro publicado...


UMA ESTRELA...

Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação-
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E os nossos lábios dessejam beijar-se-
Por que hesitais?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.


ELSE LASKER-SCHULER (1869-1945)
Baladas Hebraicas

Thursday, June 01, 2006




Por vezes o teu coração festeja antes de tempo a presença que já dança no teu sangue; ela anuncia novas pulsações…
O teu coração sabe no silêncio que te arde tudo o que tua alma ainda te oculta…
Mas ela é-te fiel e sabe que tu esperas um sinal.
O sinal virá da música das esferas e o teu corpo dançará em uníssono com ela.


rlp

Todos os Dias


Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.



alberto caeiro

Passei Toda a Noite



Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Vai Alta no Céu

Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim
.

Alberto Caeiro

Saturday, May 27, 2006

O CORAÇÃO e A ALMA

A brisa da manhã trouxe-nos uma mensagem:
Viste tu no caminho um coração pleno de fogo,
Viste tu este coração abraçado e cheio de paixão
Que incendeia cem rochedos de sua chama?



Rumi
Rubâi’ât (Paris: Albim Michel, 1993)

NINGUNA MUJER ES MEJOR QUE EL MAR



ninguna mujer
es mejor que el mar
y aun así
todos los peces caben en su vientre
toda la historia se resume en su caverna
todos nuestros delirios se aplacan en sus senos

ninguna mujer
es mejor que el mar
y en todas las ensenadas interiores
está escrito su nombre
en todas las galerías del recuerdo
hay una flor de fuego entre la niebla
unos besos que se irán a la tumba con nosotros

ninguna mujer
es mejor que el mar
y el furor de su oleaje
nos lleva a la cima
o nos hunde en el silencio de la muerte

ninguna mujer
es mejor que el mar
y aun así
mi faro no deja de buscarla
entre el nutricio mar de los sargazos


Osvaldo Saua - Costa Rica

Thursday, May 25, 2006

A ALMA




Votada ao fogo obediente ao perigo

feroz do amor ser muito e o tempo pouco,

Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo

E eu não sei se por mim és anjo ou louco.



Num beijo infindo queres morrer comigo.

Nesse extremo és sagrado e eu não te toco.

Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.

Fujo-te: a tua chama mais provoco.



A incêndio do teu sangue me condenas

E com ciumentas ervas te envenenas

Dizendo às nuvens que só tu me viste.



Bebendo o vinho de amantes mortos queres

Que eu seja a mais prateada das mulheres.

E de ser tão amada eu fico triste.


natália correia

O ESPÍRITO

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.


In: Sonetos Românticos

NATÁLIA CORREIA
(dedicado a maat)

Saturday, May 20, 2006

“Ó! Não fujas, gritei, porque a natureza morre contigo”.



Esperava ver-te e cobrir o teu corpo nu com um véu de seda da Índia…
Do tamanho do céu o véu em espirais de infinito …


Deusas

Que memórias as vezes me acordam,
De onde vêm? luzentes e fulgurantes, como raios,
mais parecem fadas luxuriantes,
pontos distantes de luz, que me ofuscam a mente.
Que visão instantânea de um mundo oculto
por pensamentos obscuros, estranhos, permanentes!

Abre-se por momentos, a visão de outro ser
que já fui autrora. ..
Recordações , memórias de auroras luminosas,
seres radiantes, etéreos, brilhantes,
cheios de ternura deslumbrante que nunca aqui vi...
Deusas, Sim!
A anunciar reinos distantes perdidos de nós,
Robôs do século X XI.




Ó Deusa Branca,

Senhora das fontes e dos lagos,
esquecida nas brumas do tempo,
chamo-te do mais recôndito do meu ser,
em cada célula um apelo, no meu corpo,
em cada átomo.
Não sei porque te envolve esse véu diáfano,
que te esconde na penumbra dos meus sonhos,
onde às vezes por piedade me sorris
ou me tocas com teu manto
que te esconde de mim .
Outras vezes,
afagas-me o rosto com uma pena das tuas asas
e foges para longe.
Queria amar-te mais se eu pudesse
e trazer-te para bem perto ...
Pedir-te Senhora, nunca me esqueças...
Tu és a razão única da minha vida,
tu és a minha essência e cada nervo.
A carne, o sangue e o tecido,
cada fibra do meu ser te pertence!


rosa leonor pedro

Thursday, May 11, 2006

E a porta lhe foi aberta.

Alguém bateu à porta da Bem-Amada, e uma Voz lá de dentro perguntou:
- Quem está aí?
E ele respondeu - Sou eu.
A Voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o Amante foi para o deserto e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a Voz perguntou:
- Quem é?
E o Amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta.

RUMI

HORUS

Muito para lá de Deus há um país
Onde o luar é duma outra cor.
Adivinham-se as rosas, não dão flor.
E as árvores estão poisadas, sem raiz.


Ei-lo, passa ao Sol-posto na alameda
Evoca e fica quedo erguendo os braços.
Prende nos dedos longos dedos lassos,
Os dedos do Mais Longe que se enreda.


Salas nos modos. O Passado extenso.
N alma há um jardim quase suspenso
Onde não desde Sombra. Ânsia absorta.



Portas nas atitudes que adormece.
Uma das portas não abriu. Esquece.
Meu Deus, o que estará para além da porta?



(in «Mais Alto»)


UM POEMA DE "ELOGIO DA DESCONHECIDA"


Ela. Seus braços vencidos,
Naus em procura do mar,
Caminhos brancos, compridos,
Que conduzem ao luar.


Se ao meu pescoço os enrola
Eu julgo, com alegria,
Que trago ao pescoço o dia
Como se fosse uma gola.


O Luar, lâmpada acesa
Pra alumiar à princesa
Que em meus olhos causa alarde.


E o dia, longe, esquecido,
É um lençol estendido
Numa janela da Tarde.


(in «Ânfora»)
Alfredo Guisado (1891-1975)

Saturday, May 06, 2006

"No alto do ramo mais alto, uma tão rosa maçã. Mulher.
Esqueceram-na os apanhadores de frutas? Não.
Mãos não tiveram para a colher..."


(Safo)



CLXIII

És infeliz? Se deixares de pensar
na tua dor não sofrerás mais. Se a tua
mágoa é imensa, invoca os seres que
tão injustamente sofreram durante a
criação do mundo.

Escolhe uma mulher de seios alvos
e trata de a amar. E que ela, por sua vez,
seja incapaz de te amar.

CLXIV

Infeliz, nunca saberás nada! Jamais
serás capaz de resolver um único dos
mistérios que te rodeiam. Uma vez
que as religiôes te prometem o Paraíso,
tenta tu criar um nesta terra,
porque o outro talvez não exista.


in RUBAIYAT

Tuesday, May 02, 2006

— Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
— Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
— Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...


GILKA MACHADO


amo-te como todas as mulheres...


Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
O verso não descreve...
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em seu labor,
gostos de afagos de sabor.


És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesmo acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.


Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.


Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!


— Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
— Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
— Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...


Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me veste quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...


Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inféria e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...


Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,

te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à ideia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...


Gilka Machado

Saturday, April 29, 2006

O Meu Olhar



O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...



Alberto Caeiro

Friday, April 21, 2006

Os teus pés


Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.



Pablo neruda

onde o fogo...

a boca
onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.
________________________________________

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?


Eugénio de Andrade

Tuesday, April 18, 2006

Há palavras que nos beijam ...

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre o’neil

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Manuel bandeira
««««««««««««

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


Maria do Rosário Pedreira

Thursday, April 13, 2006

Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!




Se receoso se turba na alta noite
teu peito em flor,
ao sentires um hálito em teus lábios,
abrasador,
lembra-te que invisível ao teu lado
respiro eu.


Gustavo Adolfo Bécquer

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

«««««««««««


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Garcia Lorca

Wednesday, April 12, 2006

Quero fugir a cem léguas da razão

Quero fugir a cem léguas da razão,
Quero da presença do bem e do mal me liberar.
Detrás do véu existe tanta beleza: lá está meu ser.
Quero me enamorar de mim mesmo, ó vós que não sabeis!



Sobe-me na alma, que ando a procurar-te

Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as plumas.
Na leira rasa das aves, Tu que redras
Terra, névoas e espumas,
-Deus, de teu nome!- sabes
que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
no anjo e ergues o incenso.

Desfaleço a pensar-te
Ó ser de anjos e Deus
Que baixa em mim:
Sobe-me na alma, que ando a procurar-te
E dizendo-te Deus
Acho-te assim.

Lívidos, sem respiração
Ficávamos do toque
Da primeira asa vinda;
Mas eles rondam apenas a oração
Que murmura os evoque
E vão-se e tornam ainda.

Deles para cima, ainda mais graus de glória
Relutam ao sentido
Que deles vem á memória
Como uma bolha de ar na água de olvido:
No mais, são tão pesados,
Os anjos leves ao justo...
Tão alados,
Mas desgostosos do nosso susto!

É isso! Disse-mo agora
O verbo súbito surpreso:
Ser anjo é espanto da demora
Nossa e do peso pávido
Que nos estende.
Terrível é quem toca terra
Para a levar, e não a rende.

Que o anjo de si é ávido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo hora a hora
É ele que não entende
A nossa estupidez.


de Vitorino Nemésio

Thursday, April 06, 2006

A alma é a fonte


Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.
As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.
Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos
dois se detém?
A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.
Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?
Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo; um punhado de pó
vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.
Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne o mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.
Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre Um; com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.



Rumi

Wednesday, April 05, 2006



Sobre o meu rosto rolou uma lágrima solta,
sem que eu saiba de que fonte veio…





OS DOIS ROSTOS

Era o suspense de que ela vinha e trazia flores.
Sorrindo como nos filmes, vestia um vestido de fantasia,
ou um manto longo ás cores…
Parecia a fada que eu esperava quando era criança.
Subitamente transformava-se na madrasta
que nos ameaça de matar à fome…


r.l.p.

Tuesday, April 04, 2006

experiência



*
O dia é longo
muitas as horas e nelas todas
nem um minuto é de amor...


**
No princípio desta casa nós amavamo-nos.
Tu vinhas e o meu coração dançava...


***
É um estado singular este,
um respirar diferente.
A minha alma canta de prazer.

****
O coração é um Templo de onde imana a Luz
que inunda cada célula.
Nele se revela a essência do ser...

*****
Tem a vida um novo gosto
se de mim nasce a certeza.
Caminhar o além não é longe...


rosaleonorpedro

Quando Tornar a Vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.


Alberto Caeiro

Monday, April 03, 2006

« J’AI TANT BESOIN DE PITIÉ ET DE TENDRESSE… »

J’ADORE
(…)
Je t’adore. Je voudrais m’agenouiller, joindre les mains, t’embrasser partout à la fois. Près de toi je ne peux que recueillir en fermant les yeux et changer les minutes légères en sentiments profonds.
Il me serait égal d’être le plus pauvre de tous les pauvres et d’avoir froid pourvu que j’aime. Et il me serait égal d’être seul pourvu que j’aie de l’amour dans le cœur. Je suis devenu semblable à ma vie, semblable à moi-même, semblable à plus tard, à mon Paradis, ayant l’avenir dans la main puisque j’ai l’amour.
Existe-tu ? Est-ce à quelqu’un que je m’adresse ? Est-ce que je ne fais pas qu’appeler le vide ? Peut-être est-ce une étoile que j’entoure de mes rêves ?


In. J’ADORE de Jean Desbordes (né en 1906)

Thursday, March 30, 2006



"No inverno, os ramos nus
que parecem dormir
trabalham em segredo,
preparando-se para a primavera."


Rumi

PRECE

Senhora
das feras
e esferas

Senhora
do sangue
e do abismo

Senhora
do grito
e da angústia

Senhora
noturna
e eterna

— escuta-nos!



De Teia (1996)

MÉDIA


Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?


De Transposição (1969)

Orides Fontela

Monday, March 27, 2006

O TEU CORPO




É sagrado o teu corpo
abençoadas são as tuas mãos!
E os teus dedos que se recortam
e destinguem uns dos outros, preciosos.
É divino o teu rosto de rainha, sereno como uma deusa!
São luminosos os teus olhos, quando me olham
e perpassam o coração...
É redentor o teu colo
onde se refugia o homem e a criança,
quando choram, riem e sofrem
Mulher!


R.Leonor Pedro

«je sors de toi
mais indéfiniment retenue dans ton ventre»

LUCE IRGARAY

Minha Mãe meu Amor


1
Lembro-me do paraíso
No teu interior
O paraiso:
Com árvores
e oceanos
Penumbras incessantes
num enredado princípio
E havia também a maça
Do teu útero
Sítio: da tentação do início
***** ***
8
Este cordão umbilical
Que nos liga
Do chão do teu corpo
Ao chão da minha boca
A respirar-te
Devagar
O coração
**** ***
9
Deito-me junto do sal
Das tuas raízes
Na água salgada
Dos teus olhos
A ouvir respirar
o teu corpo
**** ****
6
A tapeçaria da tua
voz
feita com animais de asas
Com casas
Com aves
Bordadas
**** ****
1
Falei-te
De um passado
Cheio de ondinas
De sereias e de aves
Com uma mãe por detrás
A comandar as fadas

Tersa Horta
in Minha Mãe meu Amor

*** ****
«que nous puissions nous gouter, nous toucher,
nous sentir, nous écouter, nous voir – ensemble».

LUCE IRIGARAY

Friday, March 24, 2006

Pássaro-Poesia




Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.
No Amanhã.

HILDA HILST(1930-2004)

Ah quantas máscaras e submáscaras


Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fica mascarada.
Que consciência seja que se afirme.
O aceite uso de afirmar-se a ensona.
Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas
E um mundo inteiro na esquecida causa;
E quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.


FERNANDO PESSOA (1888-1935)
Tradução: Jorge de Sena.

Wednesday, March 22, 2006

Começa a raiva da saudade

LXIII

Não sou daquelas que ruminam rancor:
Meu coração é o da criança.

safo




Há algo nas manhãs que não entendo agora
e a um grito de minhas pernas não atendo.

Ainda depois da noite, noite me espia
e sonho dúvidas enormes e imóveis
como a imobilidade das aranhas.

Tão pouco tempo- e tenho de deixar-me
e queria nunca ter de repartir-me.

Começa a raiva da saudade
que inventei vou ter de mim.


««««««««««««


A ÁGUA




A água
se enovela pelas pernas
em fio de vigor espiralado
sobre o ventre e o alto das coxas.

O orgasmo é quem mede forças
sem ter ímpeto contra a água.

Quisera desabar sobre ti
como chuva forte.
As coisas são boas quando destroem
e se deixam destruir.
Só assim eu venho:
eco de profundas grutas,
nada leve
uma irrealidade
estar aqui.
Só sei amar assim
- e é assim que te lavro, deserto.


OLGA SAVARY (n.1933)

Tuesday, March 21, 2006

pelo amor da Deusa Artémis

Azuis as suas vestes da cor do céu...
De mármore os seus corpos talhados
pelo amor da Deusa Artémis




Com pés ligeiros, assim dançavam noutro tempo

as raparigas de Creta à volta do altar;

frescas eram e frágeis as flores da relva que pisavam...


SAFO

Ausencia

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde
.
Jorge Luis Borges

Thursday, March 16, 2006

Ternura, erva branca

Ternura, erva branca
Ternura, desespero, erva branca
(...)
Partir é renascer inteiramente
Extensos fogos sobre o Oceano
expostos à análise dos aventureiros
reconduzem a esperança
à interpretação dos signos
sob o céu maleável da beleza
O amor não é um símbolo
O amor não é natural
O amor não é felicidade
O amor não é sofrimento
O amor é uma arte mágica.

(...)

O rosto de Ísis

Seu rosto viera da sombra
Seu rosto talhado em ônix
puro e fragrante puro e nobre puro
e máscara-indissolúvel
entrevira-O nos precipícios aonde me levara
a ambição -
e rastejei com Ele gravado no peito
todas as grandes cidades do mundo
as letras que aprendi os Sinais
os gestos que multiplicaram as plantas
ressuscitaram os corpos
e fizeram oscilar a cúpula celeste
- não eram meus. Provinham
de Seu puro e nobilíssimo rosto.
talhei com Ele a proa das galeras
desenhei-O n’areia
caminhei com Ele pregado como cravos
nas vértebras
o rosto era o deserto
e o deserto o nostálgico canto árabe
cada ruído ou forma era Ele
viera nítido das faldas do Himalaia
contornara a Índia e lançara-se no Egipto
directo ao coração da vida
era o meu próprio rosto
- e esqueci-O . Vive em mim agora
como a DEUSA; outro corpo pede
outra memória
simplesmente cada manhã é o círio
que Lhe rende preito
cada pedra Seu pedestal
e o meu espírito
Seu véu sagrado


Mário de Sá-Carneiro

Wednesday, March 15, 2006

"A rosa tem de tornar a ser o botão, nascido da sua haste materna, antes que o parasita lhe tenha roído o seio e bebido a seiva da sua vida.

A árvore dourada dá flores de jóia, antes que o seu tronco esteja gasto pela tormenta.

O aluno tem de tornar ao estado de infância que perdeu
antes que o primeiro som lhe possa soar ao ouvido."




UM DIA QUE NÃO CHEGA

ando a inventar um dia
que não chega
desde o distante dia
em que nasci

tempo do não ruído
azul e violeta como os céus
numa pintura antiga

todos à escuta
de alguma coisa na linha muda do horizonte sem fim
alguma coisa que haveria de nos tocar
como a cor da terra
como sal de água espumosa e viva
na pele de alguém adormecido

um tempo
para entrançar
flores e esperança
nos membros soltos da mulher dançante
para abrigar
a luz e a sombra
na cova uterina dos princípios
um tempo
para juntar mortos e vivos
no mesmo mantra redentor

como
quando os cenários se apagam
no sentir do abraço
e tudo nos parece
desmedidamente
uma coisa só


MARIANA INVERNO

Tuesday, March 14, 2006

Pelo firmamento eu deslizo minha luzidia lua;
Abrigo-me no inferno acima da paz de minha gente pálida.
Sobre a terra, eu protejo, cuidando de minhas criaturas,
Cada loba grávida e cada ágil raposa,
E cada ninhada com penas das aves,
E todos os recantos verdejantes e isolados.


ó Lua amada

O que tens, ó Lua, que és capaz
De emocionar-me com tamanha força? Quando ainda criança
Eu costumava secar minhas lágrimas ao ver teu sorriso.
Tu te assemelhas a uma minha irmã: de mãos dadas caminhávamos
Do anoitecer à alvorada, pelo firmamento.


... e com o passar dos anos, tu ainda te mesclavas
a todos os meus desejos: tu eras os vales profundos,
Tu eras o cume das montanhas - e a pena do sábio
A harpa do poeta - a voz dos amigos - o sol;
Tu eras o rio - eras a glória conquistada;
Eras minha montaria - meu cálice pleno de vinho;
Meu feito mais extraordinário:
Tu eras o encanto das mulheres, ó Lua amada!

as elegias a duino e sonetos a orfeu




XXL

Canta, meu coração, os jardins que não conheces;
Jardins como que vazados em vidro, claros, inacessíveis.
Água e rosas de Ispahan ou de Xiraz,
canta-os ditosos, louva-os, a nenhum comparáveis.

Mostra, meu coração, que nunca deles te privas.
Que os seus figos a amadurecerem pensam em ti.
Que convives c'os seus ares que entre os seus ramos
em flor se sublimam como em faces.

Evita o erro das privações
para a resolução acontecida: de ser!
Fio de seda, vieste entrar na teia.

A qualquer das imagens que no íntimo venhas unir-te
(seja mesmo um momento da vida da dor),
sente que o que se tem em vista é o tapete, inteiro e glorioso.


RAINER MARIA RILKE

Thursday, March 09, 2006

Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.

De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é seu perfume.

(?)

POESIA DO ANTIGO EGIPTO


(...)
...Sete dias e eu sem a ver.
A minha doença cresce:
tenho pesados todos os membros!
Já nem me reconheço.

O alto sacerdote não é medicina, o exorcisismo é inútil:
esta é uma doença sem explicação.

Eu disse: Ela fará com que eu viva,
o seu nome fará com que eu me erga...
As suas mensagens são a vida do meu coração
chegando e partindo.

Mas a minha amada é a melhor medicina,
mais do que qualquer mezinha ou remédio.
A minha saúde está em vê-la aparecer...
Ficarei curado mal a veja.

Abra ela os meus olhos
e os meus membros retomarão a vida;
Basta que me fale e a minha força voltará.
Abraçá-la fará desaparecer todos os vestígios da minha doença...

Há sete dias que ela me abandonou...
ESFINGE

De que sono profundo meu amor me acordas,
quando no fundo dos olhos me olhas
e me dá esta vontade louca de chorar e o teu pescoço beijar?...

Que Deusa me lembras, que ritual me recordas,
que a minha alma estremece de mal se lembrar?

Que sede é esta que percorre o meu sangue
e o meu corpo se parece volatilizar?

Que tem a tua presença , ó enigmática figura,
que me lembras a Esfingie, imponente e fria
e, contudo, de te olhar, percorre-me um frémito.

Como se Hatshepsut em pessoa visse
e tivesse instintivamente que a teus pés me ajoelhar.

Como o neófito, trémulo de respeito, à porta do Templo
nem uma palavra conseguisse balbuciar.




MEMÓRIA

Imagino-te fechada numa cidade de cristal,
num horizonte longínquo de luz
no espaço sideral, onde vives submersa.

Vejo-te de muito longe num mar distante, vindo...
Chamo-te desesperada...Não sei quem és, onde estás,
mas sei que existes e me amas tanto como eu a ti.

Talvez me chames, talvez me esperes,
talvez me queiras dar tudo o que sonhei ou pressenti.
Vejo-te porém de muito longe...
numa câmara ardente, num leito branco de cetim.

Adivinho o teu corpo suave ou translúcido
o teu sorriso doce e profundo, os teus cbelos ondolados,
as tuas mãos aladas que puxam por mim...

Pudesse eu vencer esta distância e lonjura!
Queria tanto estar a teus pés rendida
ser tua escrava e não ser mais nada.

Ah! Quem me dera se éter, volatilizar-me, subir no ar;
ser a a essência que, no espaço infinito te dá alento e forma
ser minha a tua própria vida e eu não ser nada...

in "Mulher Incesto - Sonata e Prelúdio"

Tuesday, March 07, 2006

SONHO ORIENTAL

Vinde agora amadas Graças
e Musas de belas cabeleiras!
Safo


Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...

O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descanças debaixo palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.


Antero de Quintal - "Sonetos Selectos"

BAILARINA

XVIII

Bailarina: ó transposição
em marcha de todo o transitório: como tu a ofertavas!
E o turbilhão no fim, esta árvore de movimento,
não tomava ele posse plena do ano conquistado?

Não floria, para que o teu vibrar de há pouco como enxame o envolvesse,
de repente o seu cume de silêncio? E sobre ele,
não era sol, não era verão, o calor,
este calor inúmero que de ti saia?

Mas também dava fruto, sim, a árvore do êxtase.
Não são seus frutos tranquilos: o jarro,
listrado de maturidade, e o vaso ainda mais maduro?

E nos retratos: não ficou o desenho
que o traço escuro das tuas sobrancelhas
inscreveu na parede do próprio girar?

Raine Maria Rilke

Friday, March 03, 2006

SAUDADE




De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo
?

GILKA MACHADO
(in Velha poesia, 1965)

CORPO DE AROMA

Se foste corola ou barco,
mas quando?
minha irmã,
minha leve amante, minha árvore,
que o mundo levantava
na inocência absoluta
do instante.
Alta estavas no amplo e recolhida
como uma lâmpada,
alta estavas na varanda branca.
Se acaso ainda podes ser aroma
dos meus olhos,
corpo no corpo,
retiro e substância, linha alta
da delícia,
nada te pedirei na minha ânsia
de puro espaço,
de azul imediato,
de luz para o olvido e o deserto.


ANTÓNIO RAMOS ROSA(n. 1924)

Friday, February 24, 2006

Señora mía





Pedirte, señora, quiero
de mi silencio perdón,
si lo que ha sido atención
le hace parecer grosero.

Y no me podrás culpar
si hasta aquí mi proceder,
por ocuparse en querer,
se ha olvidado de explicar.

Que en mi amorosa pasión
no fue descuido, ni mengua,
quitar el uso a la lengua
por dárselo al corazón.

Ni de explicarme dejaba:
que, como la pasión mía
acá en el alma te veía,
acá en el alma te hablaba.

Y en esta idea notable
dichosamenta vivía,
porque en mi mano tenía
el fingirte favorable.

Con traza tan peregrina
vivió mi esperanza vana,
pues te pudo hacer humana
concibiéndote divina.

¡Oh, cuán loca llegué a verme
en tus dichosos amores,
que, aun fingidos, tus favores
pudieron enloquecerme!

¡Oh, cómo, en tu sol hermoso
mi ardiente afecto encendido,
por cebarse en lo lúcido,
olvidó lo peligroso!

Perdona, si atrevimiento
fue atreverme a tu ardor puro;
que no hay sagrado seguro
de culpas de pensamiento.

De esta manera engañaba
la loca esperanza mía,
y dentro de mí tenía
todo el bien que deseaba.

Mas ya tu precepto grave
rompe mi silencio mudo;
que él solamente ser pudo
de mi respeto la llave.

Y aunque el amar tu belleza
es delito sin disculpa
castígueseme la culpa
primero que la tibieza.

No quieras, pues, rigurosa,
que, estando ya declarada,
sea de veras desdichada
quien fue de burlas dichosa.

Si culpas mi desacato,
culpa también tu licencia;
que si es mala mi obediencia,
no fue justo tu mandato

Y si es culpable mi intento,
será mi afecto preciso,
porque es amarte un delito
de que nunca me arrepiento.

Esto en mis afectos hallo,
y más, que explicar no sé;
mas tú, de lo que callé,
inferirás lo que callo.


Sor Juana Inés de la Cruz

Tuesday, February 21, 2006

Parece uma dor, um amor, alguém que conheço...

"Deveria escrever um Tratado das Lágrimas. Senti sempre uma enorme necessidade de chorar (no que me sinto muito próximo das personagens de Tchekov). Lamentar tudo olhando o céu fixamente durante horas...eis no que emprego o meu tempo, embora esperem que eu apresente trabalhos e me exortem de todos os lados à actividade."

E.M. CIORAN (1911-1995)


Parece uma dor, um amor, alguém que conheço...

Algo me chama na minha alma,
me esmaga por dentro e faz doer...
bate no meu peito pancadas surdas de violento desespero...

Quem me ama ou amo eu e não sei quem é?
Porque não fala, não responde ou não tem voz?
Ó alma amada, diz-me onde estás...

Se eu pudesse, iria ter contigo mesmo sem asas...
Ao mais alto céu, ao mais fundo dos abismos,
ao centro da terra, no meio das trevas,

Iria ao inferno buscar-te!
ao fundo do mar...

Ó amor se não tens corpo,
escolhe um anjo, pede um guia,
um antepassado, um Orixá...
Que desça o santo!
Que venha Oxum, Jemanjá!

Mas diz-me peço-te, onde estás...


rosa leonor pedro
in ANTES DO VERBO ERA O ÚTERO

A fome do primeiro grito

XLII

As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.

De Amavisse (1989)


LXII

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

De Amavisse (1989)

HILDA HILST

Wednesday, February 15, 2006

Conversemos através da alma




Poucos me vêem cuidar do meu jardim antigo

Ninguém conhece a preferida rosa

Bebo na aragem o néctar da memória

De como fomos nos tempos de outro tempo


Se sou a rosa, o jardim, se sou memória

Alentai o fogo ainda, abram-se brechas

Quero morrer para mim e assim viver

O que não soube ser nos tempos do agora.

ANÓNIMO



Vem

Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes, sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos, sem língua, sem lábios.
Sem abrir a boca, contemo-nos todos os segredos do mundo, como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos que só são capazes de entender se escutam palavras e vêem rostos.
Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um, falemos desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão : "toca", se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fecho pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.


Jalaluddin RUMI (sec.XII)

Saturday, February 11, 2006

Último Brinde

Oh estrela da tarde,
dos astros todos o mais formoso...

SAFO - FRAGMENTOS



Último Brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...

Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
A Deus, por não salvar ninguém.



Anna Akhmátova

ROSAS

SEMPRE a rosa. Sempre:
a forma,
a cor,
o recendo,
a luz,
a perfeccisn da rosa.
Prefiro a rosa vermella.
E amo a rosa branca
porque, cando lle digo
simplesmentes: ROSA,
entrecerra os ollos,
treme
e ruborece.



MANUEL MARMA, Poeta galego

(1930-2004)


Minha mulher, a solidão,
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é o coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminho.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só - veste de seda -,
E fala só - leque animado.


Fernando Pessoa, 27-8-1930

Wednesday, February 01, 2006

Minha senhora de mim

Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.

De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é seu perfume.





Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito


Minha Senhora de Mim, Editorial Futura,
1974 - Lisboa, Portugal


Poema sobre a recusa


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

MARIA TERESA HORTA