Saturday, April 21, 2007


Figueira
ó árvore que irrompes da tua secura
suportando o penoso desdobrar de teus ramos
amaldiçoada
ofereces ainda a doçura de teus frutos
a sombra de tuas folhas
a firmeza do teu apego à terra

Ó dura bruta forma
heroína da escassez
ó teimosa
que insistes e insistes
e nos ensinas
que a vida é feita de incessantes mortes
e que a nós
suas futuras vítimas
nos aguarda
a todo o momento
a derrocada do templo
sem nenhum outro fruto
além da amargura

Ó doçura
porque amargas tanto
a nossa tentação de florir
ao mesmo tempo sendo tudo
e nada ?

Ana Hatherly, Rilkeana
Pequena elegia de setembro


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura, sentada,
olhando as rosas,
e tão alheia que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade (1923 - 2005)"Coração do dia"

Saturday, April 07, 2007

PALAVRAS




Não me peças palavras, nem baladas,

Nem expressões, nem alma... Abre o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas

E entre os seios me apertes sem receio (...)


José Régio

MINHA SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,
ela não me segue, eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nascia
distância imutável de minha sombra a mim
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-mee finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros, in "poemas" assírio & alvim (2005)

Saturday, March 31, 2007

BEBER-TE! COMO BEBO O AR DA VIDA

Beber-te! como bebo o ar da vida...
E como bebo a luz do sol doirado...
E a poesia do templo consagrado...
E o consolo no olhar da mãe querida...

(...)
ANTERO DE QUENTAL

DIGAM QUE FOI MENTIRA


Digam que foi mentira, que não sou ninguém,

que atravesso apenas ruas da cidade abandonada

fechada como boca onde não encontro nada:

não encontro respostas para tudo o que pergunto

nem na verdade pergunto coisas por aí além


Eu não vivi ali em tempo algum

Nomeei-te no meio dos meus sonhos

chamei por ti na minha solidão

troquei o céu azul pelos teus olhos

e o meu sólido chão pelo teu amor


Contigo aprendi coisas tão simples

como a forma de convívio com o meu cabelo ralo

e a diversa cor que há nos olhos das pessoas

Só tu me acompanhastes súbitos momentos

quando tudo ruía ao meu redor e me sentia só e no cabo do mundo

Contigo fui cruel no dia a dia mais

que mulher tu és já a minha única viúva

Não posso dar-te mais do que te dou

este molhado olhar de homem que morre e

se comove ao ver-te assim presente tão subitamente



MEDITAÇÃO ANCIÃ


Aqui eu fui feliz aqui fui terra

aqui fui tudo quanto em mim se encerra

aqui me senti bem aqui o vento veio

aqui gostei de gente e tive mãe em cada árvore

e até em cada folha aqui enchi o peito e mesmo

até desfeito eu fui aquele que da vida vil se orgulha

Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei

um avião um riso uns olhos uma luz

eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus


RUY BELO (1933-1978)

Saturday, March 24, 2007

uma lágrima invisível

(...)

"Talvez o seu corpo astral esteja ferido. E se chorar cair-lhe-á dos olhos uma lágrima invisível porque o corpo é o leito onde dormimos permanentemente até ao momento de sabermos que estamos sempre abertos para a cegueira irreal, a única verdadeira. E se o deslumbramento cessa, cessa o canto.”

In SIGMA - 1965 ANA HATHERLY

Saturday, March 17, 2007

MULHER FLOR...

Eu colhi a tua flor, ó Mundo! Cheguei-a muito ao meu coração: e o seu espinho feriu-me. Quando o dia declinou, sombrio, a flor murchou: mas a dor ficou. Muitas flores terás ainda, perfumadas e gloriosas, ó Mundo! Mas para mim já passou a hora de colher flores. E já não tenho a minha rosa, na noite profunda que vem: tenho apenas a dor que ficou.


Ó mulher, não és apenas a obra-prima de Deus, mas também a dos homens. Estes te enfeitam com a beleza do seu coração. Os poetas tecem os teus véus com os fios de ouro da sua fantasia; os pintores imortalizam a forma de teu corpo. Dá suas pérolas o mar, as minas dão seu ouro, dão suas flores os jardins estivais - para que sejas mais linda e mais preciosa. O desejo do homem coroa de glória tua mocidade. És metade mulher, metade sonho.
R.N.Tagore

O CORAÇÃO DE OURO...

"O meu coração, pássaro do deserto, revoa no céu dos teus olhos. Teus olhos são o berço da manhã, o reino das estrelas e a profundeza onde as minhas canções se perdem. Deixa que eu mergulhe neste céu imenso e solitário. Deixa que eu penetre as tuas nuvens e abra minhas asas em teu sol."(R.Tagore)


CANTO DE TAGORE


Se não falas, vou encher o meu coração
com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando,
como a noite em sua vigília estrelada,
com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
a escuridão se dissipará, e a tua voz se
derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão em
canções de cada ninho dos meus pássaros,
e as tuas melodias brotarão em flores por
todos os recantos da minha floresta.

Monday, March 12, 2007

FRAGÂNCIAS...



Não te sintas só

mesmo na aparente ausência


Por mistério ascendem

das nossas almas inquietas

brancas silhuetas ecos perdidos

pulsantes como um coração cósmico

retido muito tempo no Olvido


Há cruzamentos já nós a atarem-se

um tumulto imenso de ascensão


Sobre nós só Força

a repuxar a alma e os sentidos


Não te sintas só

que eu nunca largo

os portos bem amados da minha alma


Se ao menos hoje

eu pudesse deixar-te

o meu antigo vaso de fragrâncias

para que a hora te não doesse tanto


MARIANA INVERNO

és uma ilha

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

David Mourão-Ferreira

Tuesday, February 13, 2007

PÁSSARO-POESIA

Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só te cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.

Carrega-me contigo.
No Amanhã.




HILDA HILST

Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Tuesday, January 30, 2007

o livro do desassossego





(...)Com que vigor da minha alma sozinha fiz página sobre página reclusa, vivendo sílaba a sílaba a magia falsa, não do que escrevo mas do que supunha que escrevia! Com que encantamento de bruxedo irónico me julguei poeta da minha prosa, no momento alado em que ele nascia, mais rápida do que os movimentos da pena, como um desforço falaz nos insultos da vida! E afinal, hoje, relendo, vejo rebentar meus bonecos, sair-lhes a palha pelos rasgos, despejarem-se sem sentido...


fernando pessoa

DE CORAÇÃO PARTIDO

O que me espanta
não é a morte
mas a vida, diga-se
a subvida da sobrevida.
O que me espanta
é a inércia do corpo
seu cego apetite
sob a alma inapetente.
O que me espanta
é o fôlego de fera
hibernando na crise
gelo sem primavera.
O que me espanta
é a resistência masoquista
que entre a ferida e o nada
do nada se acovarda
e resigna-se à ferida.




O FOGO


Juntos urdimos a noite
mais seu manto de trevas
quando as paredes recuam
discretas em horizontes
de além-cama e num espaço
de altiplano rolamos
nossos corpos bravios
de animais sem coleira
e juntos acendemos o dia
em cachoeiras de luz
com as centelhas que nós
seres primitivos forjamos
com a pedra lascada
dos sexos vivos.


Astrid Cabral

Monday, January 22, 2007

A porta branca

Gato que me fitas com olhos e vida, quem tens lá no fundo?
Fernando pessoa


Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.


Fiama Hassa Pais Brandão
Cena Vivas
Relógio d´Água

Às vezes as coisas dentro de nós

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.



Para Maria de Lourdes Pintasilgo
em breve homenagem

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Lisboa sob névoa


Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba.
Informes, as casas
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada,
as paredes são menires,
pedras antigas vagas
sem princípio, sem fim.




Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas
edições quasi

Friday, January 19, 2007

algumas das palavras


(...)
Para que falar
Seja tão generoso
Como beijar

Para misturar a mulher e o rio
O cristal e a dançarina da tempestade
A aurora e a estação dos seios
Os desejos e a sabedoria das crianças

Para dar à mulher
Pensativa e só
A forma das carícias
Que ela sonhou

(...)

PAUL ELUARD

CÂNTICO

Num impudor de estátua ou de vencida,
Coxas abertas, sem defesa..., nua
Ante a minha vigília, a noite, e a lua,
Ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxos-azuis, em ferida,
Meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
Sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...,
Enquanto o luar na nimba, inerte, gasta
Da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias, poemas nunca feitos...
E eu pouso a boca, religiosa e casta,
Sobre a flor esmagada do seu sexo.



José Régio,
in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica"
antígona/frenesi (1999)