Saturday, July 14, 2007

Há doenças piores que as doenças




Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa

Cancioneiro



Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relêvo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?


Fernando Pessoa

Wednesday, June 20, 2007

a volúpia da terra mãe


Meu amor, como sofro a volúpia da terra,
atravessada pelas raízes!...

És minha árvore linda,
aos céus abrindo asas de esperança,
na gloriosa ascensão da mocidade.

Ninguém compreenderá a delícia secreta
das nossas núpcias profundas.

Quanto mais avultares,
mais subires,
mais mergulharás em mim.

Aguardei-te longos anos,
com a mesma avidez da gleba
pela semente...
Tive-te em minhas entranhas,
transfigurei-te:
és folha, és flor, és fruto, és agasalho, és sombra...
Mas vem do meu querer inviso e obscuro,
quanto prodigalizas ao desejo
dos que te gozam pela rama.
GILKA MACHADO

POEMAS ERÓTICOS DA VELHA ÍNDIA




1.

Esta mesma lua ilumina a minha amada

O vento acariciou já o seu rosto

A lua impregnou-se da sua beleza

E o vento do seu perfume
Quem ama de verdade pouco lhe basta

Para suportar a separação
Que ela e eu respiremos o mesmo ar

E que os nossos píes pisem o mesmo chão

2.

Suspiro por vê-la quando estamos separados

Anseio por abraçá-la quando a vejo

E quando abraço essa beleza de olhos rasgados

Fundir-me com ela é o meu único desejo

3.

Não pode o lótus florir de noite

Nem a lua brilhar durante o dia

Apenas o teu rosto

Consegue realizar essa magia

TRADUZIDOS DO SANSCRITO...


4.


A lua tenta todos os meses em vão
Captar a beleza do teu rosto
Descontente com o resultado
Destrói tudo e começa de novo


5.

Se a floresta negra dos seus cabelos
Te convida a explorar os vales
E os seios essas abruptas montanhas
Acordam o montanhista que há em ti
O melhor é parares antes que seja tarde
Escondido como se fosse um salteador
Jaz à espera o amor

POEMAS ANTIGOS DA INDIA


8.

Quando verei de novo firmes as tuas coxas
Que em defesa se cerram uma contra a outra
Para depois se entreabrirem ao desejo obedientes
E aos cair do vestido de súbito revelarem
Como um selo de lacre sobre um segredo obscuro
Húmidas ainda as marcas das minhas unhas


9.

A beleza não está no que dizem as palavras
Mas no que dizem sem dizê-lo

Mais desejáveis são os seios entrevistos
Através das madeixas do teu cabelo

Friday, June 08, 2007

POEMAS DE AMOR DO ANTIGO EGIPTO



São tão pequenas as flores de Seanu

Que quem as olha se sente um gigante.

Sou a primeira entre os teus amores,

Como jardim há pouco regado de ervas e perfumadas flores.

Ameno é o canal que tu cavaste

Pela frescura do vento norte.

Tranquilos os nossos caminhos

Quando a tua mão descansa na minha em alegria.

A tua voz dá vida, como o néctar.

Ver-te é mais do que alimento e bebida.




Se fores à casa coberta de hera

Antes dos outros convidados chegarem,

Põe-te à vontade

Na sala dos banquetes.


As flores mexem-se com a brisa,

A qual, se não estiver toda envolta em perfume,

Há-de conseguir levar até ti

Pelo menos a excelência de alguma da sua fragância.


O perfume alastra,

A embriaguês começa.


Aquela rapariga ali, a que se parece com Noubt:

Se tiveres a sorte de a receber como presente,

Meu amigo, deves estar preparado para oferecer em sacrifício a tua vida

Pois é a única coisa que podes dar em troca.


A mansão do meu amor tem portas duplas,

Abertas de par em par.

Agora que se dana zangada

Eu queria ser o seu guarda

E receber as chicotadas da sua língua.

Assim poderia ouvi-la quando está zangada,

Como o ouriço novo a chiar de terror.



DA CONTRADIÇÃO


Ai de mim por teus olhos vagos.

Digo ao meu coração :"O meu amo Partiu.

Durante A noite partiu E deixou-me.

Sinto-me um túmulo."

E a mim própria pergunto:

Não fica nenhuma sensação, quando

Vens até mim?

Mesmo nenhuma?


Ai de mim por esses olhos que te afastaram do caminho,

Sempre tão vagos.

E apesar disso confesso com sinceridade

Que andem eles por onde andarem

Se vierem ter comigo

Eu reentro na vida.


A casa da minha namorada é uma barafunda

É o único modo de descrevê-la.

Toda a noite com música e dança até fartar

Cerveja e vinho sempre a correr.


Noto como as melodias se entrelaçam,

E por fim, depois do meu amor insistir

Num pedido para uma colaboração mais activa,

Concluo que a noite valeu a pena, apesar de tudo.

E amanhã?

A velha canção do costume.



POEMAS DE AMOR DO ANTIGO EGIPTO

Friday, June 01, 2007

XVIII


Bailarina: ó transposição

em marcha de todo o transitório: como tu a ofertavas!

E o turbilhão no fim, esta árvore de movimento,

não tomava ele posse plena do ano conquistado?


Não floria, para que o teu vibrar de há pouco como enxame o envolvesse,

de repente o seu cume de silêncio?

E sobre ele, não era sol, não era verão,

o calor, este calor inúmero que de ti saia?


Mas também dava fruto, sim, a árvore do êxtase.

Não são seus frutos tranquilos: o jarro,

listrado de maturidade, e o vaso ainda mais maduro?


E nos retratos: não ficou o

desenho que o traço escuro das tuas sobrancelhas

inscreveu na parede do próprio girar?


Raine Maria Rilke as elegias a duino e sonetos a orfeu

vem...

Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes, sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos, sem língua, sem lábios.
Sem abrir a boca, contemo-nos todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos que só são capazes de entender
se escutam palavras e vêem rostos.
Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um, falemos desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão : "toca", se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fecho pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Jalaluddin RUMI (sec.XII)

Saturday, May 19, 2007

ROSAS



Não quero rosas, desde que haja rosas.

Quero-as só quando não as possa haver.

Que hei-de fazer das coisas

Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora

A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora

É isso que quero possuir. Para quê?...

Se o soubesse, não faria Versos para dizer que inda o não sei.

Tenho a alma pobre e fria...

Ah, com que esmola a aquecerei?...

Fernando Pessoa, 7-1-1935.
BEBIDO O LUAR


Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN

Saturday, April 21, 2007

AMAR O PRÓXIMO


"Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar opróximo ou então ter muito cuidado com o que se come."


ANA HATHERLY

Figueira
ó árvore que irrompes da tua secura
suportando o penoso desdobrar de teus ramos
amaldiçoada
ofereces ainda a doçura de teus frutos
a sombra de tuas folhas
a firmeza do teu apego à terra

Ó dura bruta forma
heroína da escassez
ó teimosa
que insistes e insistes
e nos ensinas
que a vida é feita de incessantes mortes
e que a nós
suas futuras vítimas
nos aguarda
a todo o momento
a derrocada do templo
sem nenhum outro fruto
além da amargura

Ó doçura
porque amargas tanto
a nossa tentação de florir
ao mesmo tempo sendo tudo
e nada ?

Ana Hatherly, Rilkeana
Pequena elegia de setembro


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura, sentada,
olhando as rosas,
e tão alheia que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade (1923 - 2005)"Coração do dia"

Saturday, April 07, 2007

PALAVRAS




Não me peças palavras, nem baladas,

Nem expressões, nem alma... Abre o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas

E entre os seios me apertes sem receio (...)


José Régio

MINHA SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,
ela não me segue, eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nascia
distância imutável de minha sombra a mim
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-mee finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros, in "poemas" assírio & alvim (2005)

Saturday, March 31, 2007

BEBER-TE! COMO BEBO O AR DA VIDA

Beber-te! como bebo o ar da vida...
E como bebo a luz do sol doirado...
E a poesia do templo consagrado...
E o consolo no olhar da mãe querida...

(...)
ANTERO DE QUENTAL

DIGAM QUE FOI MENTIRA


Digam que foi mentira, que não sou ninguém,

que atravesso apenas ruas da cidade abandonada

fechada como boca onde não encontro nada:

não encontro respostas para tudo o que pergunto

nem na verdade pergunto coisas por aí além


Eu não vivi ali em tempo algum

Nomeei-te no meio dos meus sonhos

chamei por ti na minha solidão

troquei o céu azul pelos teus olhos

e o meu sólido chão pelo teu amor


Contigo aprendi coisas tão simples

como a forma de convívio com o meu cabelo ralo

e a diversa cor que há nos olhos das pessoas

Só tu me acompanhastes súbitos momentos

quando tudo ruía ao meu redor e me sentia só e no cabo do mundo

Contigo fui cruel no dia a dia mais

que mulher tu és já a minha única viúva

Não posso dar-te mais do que te dou

este molhado olhar de homem que morre e

se comove ao ver-te assim presente tão subitamente



MEDITAÇÃO ANCIÃ


Aqui eu fui feliz aqui fui terra

aqui fui tudo quanto em mim se encerra

aqui me senti bem aqui o vento veio

aqui gostei de gente e tive mãe em cada árvore

e até em cada folha aqui enchi o peito e mesmo

até desfeito eu fui aquele que da vida vil se orgulha

Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei

um avião um riso uns olhos uma luz

eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus


RUY BELO (1933-1978)

Saturday, March 24, 2007

uma lágrima invisível

(...)

"Talvez o seu corpo astral esteja ferido. E se chorar cair-lhe-á dos olhos uma lágrima invisível porque o corpo é o leito onde dormimos permanentemente até ao momento de sabermos que estamos sempre abertos para a cegueira irreal, a única verdadeira. E se o deslumbramento cessa, cessa o canto.”

In SIGMA - 1965 ANA HATHERLY