Tuesday, September 02, 2008

En La Mar


En la mar

Oh! sim amo-te…
Mas não vou fazer nada,
Vou ficar quieta no meu canto.

Vou guardar bem fundo
E no mais secreto de mim
Tudo o que sinto por ti, por enquanto…

Não, não vou dizer-te nada
Confrontar-te ou seduzir-te,
Como qualquer vulgar amante!

Vou esperar que a minha alma
Por si só arda em mil fogos…
E que as suas chamas
Sejam mais fortes
Do que qualquer palavra,
Gesto, olhar ou encanto…

Quando sentires essas chamas
A queimar-te o peito…
E já não suportares o fogo que te consome
Virás a mim como quem busca en la mar
E nela mergulharás sem que nada nos separe…
Nem na vida nem na morte.


rlp

os sonhos

Se te possuir em sonhos és minha, pois não há prazer que não seja representado.
J. Donne

Só em sonhos te posso possuir…pois não há prazer na vida tão intenso e sublime como aquele que em sonhos te posso dar…
rlp

Sunday, August 31, 2008

a chave dos mistérios


MEDITAÇÃO


Por um brevíssimo lapso de tempo,
A visão súbita da Deusa na mulher…

Ela revela-se a ti através da beleza etérea
Que subjaz à imanência do seu corpo
Em harmonia com o momento
Na luz que rasga a densidade da matéria …
E dessa fracção ínfima de tempo
Toda a transparência
Toda a interioridade de um ser,
Na sua essência mais pura,
Nos fulmina com a sua Divina Presença.

Por segundos,
É com se ela dançasse nua à minha frente
No simples deslizar no espaço e tudo pára…

Olho-a nos olhos tudo se turva
E a minha alma voa ao encontro da sua
Enquanto ela se desloca como um raio
Para o centro do meu coração.

Senti-me como o dervixe que rodopia freneticamente
Sobre si mesmo até à consumação do êxtase…


VISÃO

A tua visão súbita
Transmuta e consubstancializa
Todo o meu ser
Todas as minhas células se unificam…
Todas as minhas penas se volatilizam
Ao beber do teu cálice o êxtase divino
Do teu corpo sagrado de mulher

Só pela visão do teu ser
A minha alma é iluminada
E todo o meu ser alçado
Ao samadi de sadus e ascetas
Ao céu inatingível dos místicos…
Ao paraíso perdido de Eva…

Tu és a minha respiração,
O meu néctar e o meu mantra,
Tu és o meu nirvana…
A chave de todos mistérios…


30 de Agosto
r.leonor

Saturday, August 02, 2008

sentir é outra questão


Não tenho ninguém que me ame.
’Spera lá, tenho; mas é
Difícil ter-se a certeza
Daquilo em que não se crê.

Não é não crer por descrença,
Porque sei: gostam de mim.
É um não crer por feitio
E teimar em ser assim.

Não tenho ninguém que me ame.
Para este poema existir
Tenho por força que ter
Esta mágoa que sentir.

Que pena não ser amado!
Meu perdido coração!
Etcetera, e está acabado
O meu poema pensado.

Sentir é outra questão…


Fernando Pessoa

palavras

DE QUE FALAMOS?

De que falamos
quando falamos das palavras
senão do tempo
que corre-escorre
por entre as malhas da voz?

Faladas
as palavras
são um combate encenado
uma insónia pessoal
Escritas
são reféns do olhar

No espaço da página
deslizam altivas como icebergues
ou então soçobram
desconhecidamente
no lado sombrio do funesto olvido


ANA HATHERLY
in O PAVÃO NEGRO

Tuesday, July 15, 2008

UNIDO COM ELA





A tua boca na boca dela – as tuas mãos
Nos seus seios cheios, maduros e redondos
Os braços dela à volta da tua cintura: as coxas levantadas,
E até a tua língua, como sonhaste dentro dela:

Mas não a podes ter.
Não podes tocar o que a ela pertence.
Essa boca forte é sua, ela é outra,

Porque o profundo ritmo da água é dela
Onde caminha a seu modo, como deve, sozinha

E tu? Tens de ser como ela
E encontrar todo o teu desejo em ti próprio
Para agora e para sempre.

Seres teu próprio rei.


In I CHING
O LIVRO DAS MUTAÇÕES



..." Depois disto vem a meditação sobre as árvores das jóias do país de Amitâbha, à qual se segue a meditação sobre a água"

quanto doi o meu coração...

Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
sem melodia nem razão.

Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele nada que ver.


Fernando Pessoa

TIMIDEZ


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
— e um dia me acabarei.


CECÍLIA MEIRELES (1901-1964)

Wednesday, April 23, 2008

Sou-me


"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca e sim outra coisa. Quando digo "águas abundantes" estou falando da força do corpo nas águas do mundo. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso. Lê a energia que está no meu silêncio. Ah tenho medo do Deus e do silêncio."


(...)


"Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Género não me pega mais."





CLARISSE LISPECTOR

INICIAÇÃO

INICIAÇÃO

"Não dormes sob os Ciprestes,
pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes,
que encobrem teu ser profundo.


Vem a noite, que é a morte,
e a sombra acabou sem ser.
Vais na noite, só recorte,
igual a ti sem querer.


Mas na estalagem do Assombro,
tiram-te os Anjos a capa:
segues sem capa no ombro,
com o pouco que te tapa.


Então Arcanjos da Estrada
despem-te e deixam-te nú.
Não tens vestes, não tens nada:
tens só teu corpo, que és tu.


Por fim, na funda caverna,
os Deuses despem-te mais,
teu corpo cessa, alma externa,
mas vês que são teus iguais.


A sombra de tuas vestes
ficou entre nós na Sorte
não estás morto entre ciprestes
neófito, não há morte."


Fernando Pessoa - 30/03/1933

Tuesday, February 26, 2008

em qualquer lingua


Por que me falas nesse idioma?
perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.



Cecília Meireles

poco tiempo

RECHAZANDI UNA INVITACION A IR AL CINE
O PARTICIPAR EN CUALQUIER OTRA ACTIVIDAD MUNDANA


Tengo tan poco tiempo y tanto amor,
tanta necesidad amontonada,
tan pocos ojos para tanta flor,
tanto preparativo para nada.

Días inútiles me han puesto avara
del privilegio de tu companía
y cuando alguún motivo nos separa
es como darle cuerda a la agonía.

? Para qué vamos a desperdiciar
entre la oscuridad, entre la gente,
tantas intimidades sin usar
como tenemos, tanta lur urgente?

La vida rigorea y multiplica
recíproca abundancia en tiempo escaso.
No te imaginas lo que significa
estar enamorada con atraso.

Somos gremio de zombis que no sabe
estar sino en rebaño distraído.
Si uno en su duración apenas cabe,
por qué precipitarse en el olvido.

Todo enajenamiento es agresión,
y en defensa legítima te mando
a diferir esta disipación
para mañana, para no sé cuándo.


Maria Elena Walsh

María Elena Walsh (born on February 1, 1930 in Ramos Mejía, Buenos Aires) is an Argentine musician and writer known for her songs and books for children.

Wednesday, January 23, 2008

desejo-me a mim mesma...


ALQUIMIA

Desejo-me a mim mesma
no corpo etéreo de uma mulher sublime,
como preciso do ar que respiro.

Desejo ver-me e sentir-me inteira
no meu corpo completo
como se reinventasse outro ser...

E como se os meus sentidos fossem mágicos
desdobrar-me...
e do ar, do éter ou do prana,

pela força do meu anseio
aparecesse um novo ser que me amasse

até à consumação.

Queria que por magia,
eu própria me transformasse em substância etérea
e libertasse a minha alma da escravidão
desde corpo denso de pele e desejo...

Queria ser águia e vencer o dragão


in Mulher Incesto - Sonata e Perlúdio

Rosa Leonor Pedro

Monday, December 31, 2007

MULHER SOL




Ela é o fogo no meu coração,
e ela é a néctar (o mel e fel) na minha língua.
Ela é a Palavra, o dizer que vibra em mim...
Ela é a Luz, Durga e Kali.

Força indómita, semente do diabo,
vertigem de sedução e morte:
uma vontade louca de lhe beijar o pescoço
uma lava incandescente, eu, uma loucura de ternura e sede,
uma premência de sentir o seu corpo gemer
ou os ossos ranger.
A violência primordial, a fome da boca, morder.
Devorá-la inteira ou comê-la como a serpente e
de duas só uma ser...

Ah! salamandras, mantras, artifícios e manhas:
Lamber-lhe o lóbulo da orelha esquerda
recitando OM AH HUM,
No seu coração meditar eternamente,
no seu corpo mandala renascer,
Kimari, Durga e Kali.


IN MULHER INCESTO ROSA LEONOR PEDRO

Saturday, November 24, 2007

a minha canção


Minha canção te envolverá com sua música, como os abraços sublimes do amor.

Tocará o teu rosto como um beijo de graças.

Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido.

Minha canção será como asas para os teus sonhos e elevará teu coração até o infinito.

Quando a noite escurecer o teu caminho, minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel.

Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas.

Quando minha voz se calar para sempre, minha canção te seguirá em teus pensamentos.


R. Tagore

Sunday, November 18, 2007

as mutações...


"... Elegante curva-se o botão, e é perfumado, eu sei. Mas não aprovo, e não me conformo: a luz dos teus olhos era mais preciosa do que todas as rosas deste mundo..."

(Edna St. Vicent Millay)
UNIDO COM ELA
A tua boca na boca dela – as tuas mãos
Nos seus seios cheios, maduros e redondos
Os braços dela à volta da tua cintura: as coxas levantadas,
E até a tua língua, como sonhaste dentro dela:
Mas não a podes ter.
Não podes tocar o que a ela pertence.
Essa boca forte é sua, ela é outra,
Porque o profundo ritmo da água é dela
Onde caminha a seu modo, como deve, sozinha
E tu? Tens de ser como ela
E encontrar todo o teu desejo em ti próprio
Para agora e para sempre. Seres teu próprio rei.
In I CHING O LIVRO DAS MUTAÇÕES ...
««««««««««««
" Depois disto vem a meditação sobre as árvores das jóias do país de Amitâbha, à qual se segue a meditação sobre a água"

Saturday, September 15, 2007

OH MADRE



Oh Madre
matriz das criaturas inferiores que rastejam
a teus pés cobertas de pó
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó
Oh que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah como nós lambemos tuas duras mãos
Oh que fustigas nossos olhos com tua sombra....



ANA HATHERLY

II - Canto-te





Canto-te para que tu definitivamente
existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
Canto-te
e tu definitivamente existes nos meus olhos
Sempre abertos porque é sempree os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar

e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura
E como é sempre
meus olhos abertos prescrutam-te

símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te

oh substância
Canto-te

com a fragilidade de tudo que existe perante
uma eternidade demasiado nocturna para os nossos
olhos infantis perante a tua antiguidade
futura
E a nossa voz é uma pequena onda no dorso
do teu oceano de matéria
Um leve arrepio apenas na espantosa espessura
de teu éter
Ah no ar é que tudo acontece
no ar nocturno das idades esquecidas
que previamente desconheceremos
No espaço é que tudo acontece
e o espaço é uma grande muito quieta
onde os nossos olhos penetram
no não sabermos até onde
ali
além
no além onde tudo acontece
Oh
oh espaço de tudo ser tão ligeiro e impalpável
e sermos nós a respiração da
teu bafo ritmado
imperceptível distância
Oh augusta majestática dignidade do silêncio
Oh impassibilidade da tua mecânica celeste
Oh organismo primeiro de todos os fins secretos
da compreensão das coisas
Oh inorgânico organismo dos seres
que se devoram
Oh diz
a quem servimos nós de pasto
Canto-te
como quem pronuncia o Mantra esotérico do teu nome
Canto-te e grito
para que a poeira que se infiltra em todas as
coisas se erga de ti como um plâncton
Oh Madre
matriz das criaturas inferiores que rastejam
a teus pés cobertas de pó
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó
Oh que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah como nós lambemos tuas duras mãos
Oh que fustigas nossos olhos com tua sombra
Enorme
Oh
que deixas tanto espaço para o silêncio
das mil pétalas
dos mil braços esplendorosos em seu abandono
dos murmúrios
dos afagos
sangue derramado sobre o mundo
Oh
Porque és sempre tão premente?
e sempre estás ausentemente
na tua constância em todas as coisas?

Oh sono
Oh morte tão desejada e longa
mágica povoada de átomos
milhões de espíritos enchem o teu sopro
E penetras em nós como uma bala
E tudo morre quando tu chegas
E tudo se dilui e se transforma em ti
alada presciência de tudo acontecer
tão longe de nós e tão antigamente
e tudo nos ultrapassar com soberana indiferença
ante os nossos olhos cegos pelo teu negrume
Oh
brilha para dentro de mim
Acende teus luzeiros em meus olhos
Ergue teus braços oh prenhe de tudo
Oh vaso
Oh via láctea de nos amamentares com teu leite
de sombra
Oh úbere e pródiga
Aleita tua ninhada faminta
Grande fera luzidia
Grande mito
Grande deus antigo
Oh urna onde todos dormimos
Oh
Meus olhos choram já de tanto prescrutar-te
E canto-te
Canto-te
Para que tu existas
E eu não veja mais nada além de ti
E nada mais deseje senão que venhas outra vez
levar-me para dentro do teu ventre
de nunca mais haver
E nada mais haver que


Oh tu definitivamente além



Ana Hatherly
Poemas de Eros Frenético e Contemporâneos
um calculador de improbabilidades
Quimera

Tuesday, September 04, 2007

ah minha amada


Ó minha amada

Que olhos os teus

São cais noturnos

Cheios de adeus

São docas mansasTrilhando luzes

Que brilham longe

Longe dos breus…


Ó minha amada

Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus

Quantos saveiros

Quantos navios

Quantos naufrágios

Nos olhos teus…


Ó minha amada

Que olhos os teus

Se Deus houvera

Fizera-os Deus

Pois não os fizera

Quem não soubera

Que há muitas era
Nos olhos teus.


Ah, minha amada

De olhos ateus

Cria a esperança

Nos olhos meus

De verem um dia

O olhar mendigo

Da poesia

Nos olhos teus..


vinicius de moraes
Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria…
Ó mar sem cais nem lado nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá em baixo estamos
E é subita a lembrança
Da velha quinta e do espalmar dos ramos

Sob os quais a merendar - Oh, amor da glória!
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos…


fernando pessoa