Saturday, January 10, 2009

O AMOR É UM PÁSSARO CEGO


Amo-te porque não me amo
inteiramente. O que me falta
é infinito
mas tu és do bem que me falta
o enigma onde se condensam
a terra e o sol o ar as águas
invioladas
e tenho a boca cheia
de música ondulação
do teu silêncio.
Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.


(...)
(excerto de poema de casimiro de brito)

Sunday, December 28, 2008

SONHEI TANTO A TUA FIGURA






Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Mário Cesariny

Monday, December 22, 2008

Anjos, anjos...e rosas...


Que um dia havias de vir, não respirei
eu, de tanta meia-noite, por amor de ti,
tal inundação?
Porque esperava acalmar-te o rosto
com quase intactos esplendores,
se ele em infinita expectativa
um dia repousasse em frente ao meu.
Em silêncio fez-se espaço nos meus traços:
para bastar ao teu enorme olhar
meu sangue se fez espelho, aprofundou-se.

Se pela sebe pálida do olival
a noite em estrelas mais forte me excedia,
erguia-me direito e curvava-me
para trás e aprendia a reconhecer
o que mais tarde a ti nunca referia.

Oh! tal expressão em mim foi semeada
que, se o teu sorriso vier a acontecer,
pra ti transfiro, com o olhar, espaço de mundos.
Mas tu não vens, ou vens tarde demais.
Anjos, precipitai-vos sobre esse linhar
azul. Anjos, anjos, vinde ceifar.

Rainer Maria Rilke.

só quem vive







A Abelha que voando
A abelha que, voando, freme sobre
A colorida flor, e pousa, quase
Sem diferença dela
À vista que não olha,
Não mudou desde Cecrops.
Só quem vive
Uma vida com ser que se conhece
Envelhece, distinto
Da espécie de que vive.
Ela é a mesma que outra que não ela.
Só nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte!
—Mortalmente compramos
Ter mais vida que a vida.
*
Poemas de Ricardo Reis
(heterônimo de Fernando Pessoa)

Friday, December 12, 2008

ferida que me atravessa

(...)

ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas ne desordem,
nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.


herberto helder

eu escrevo-te...


(...)


As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco
luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como
um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que
crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas


herberto helder - a carta da paixão - metade

NÃO POSSO ADIAR O CORAÇÃO


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

antónio ramos rosa

Sunday, December 07, 2008

Mãe, toma a minha dor

A ti, Mãe, primeira maravilha dada aos meus olhos, eu dedico estes poemas. Subida da tua carne, a minha luz pertence-te. Toma a minha dor e a minha alegria e este desespero que floresce à sombra do teu mistério.

Sou filha de marinheiros
pelo mar que também quis.
Pela linha da poesia
sou neta de D. Dinis.
Aquilo que nunca fiz
é a minha bastardia.

poesia para comer...




RETRATO TALVEZ SAUDOSO
DA MENINA INSULAR

Tinha o tamanho da praia
o corpo que era de areia.
E mais que corpo era indício
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho no barco
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o corpo se ergueu
voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além
guardada na claridade
do coração que a retém.

In “Poemas”



A DEFESA DO POETA

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



Natália Correia
Auto-Retrato e Ultrabiográfico

insensata rosa


"Porque brota de mim, quando o corpo repousa e a alma fica a sós, esta insensata rosa?"


(Jorge Luís Borges)

Saturday, November 15, 2008

VEM SE TE INTERESSA...

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.


RUMI

EM CADA CORAÇÃO


"Em cada coração há uma
janela para outros corações.
Eles não estão separados,
como dois corpos.
Mas, assim como duas lâmpadas
que não estão juntas,
Sua luz se une num só feixe."


(Jalaluddin Rumi)

A VOZ


Alguém bateu à porta da Bem-Amada, e uma Voz lá de dentro perguntou:
- Quem está aí?
E ele respondeu - Sou eu.
A Voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o Amante foi para o deserto e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a Voz perguntou:
- Quem é?
E o Amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta.


rumi

Wednesday, October 08, 2008

a luz que brilha


NASCER DO DIA

Fica, doçura, não te levantes;
A luz que brilha vem dos teus olhos neste instante;
Não é o dia que se quebra, é o meu coração que se parte,
Porque temos tu e eu de separar-nos tão depressa.
Fica, senão a minha alegria toda perece,
e mal nasce, já se extinguiu.

BREAK OF DAY

Stay, O sweet, and do not rise;
The light that shines comes from thine eyes;
The day breaks not, it is my heart,
Because that you and I must part.
Stay, or else my joys will die,
And perish in their infancy.

John Donne

ce rêve...


Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D'une femme inconnue, et que j'aime, et qui m'aime,
Et qui n'est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m'aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d'être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? Je l'ignore.
Son nom? Je me souviens qu'il est doux et sonore,
Comme ceux des aimés que la vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L'inflexion des voix chères qui se sont tues.


Paul Verlaine (Poèmes saturniens)

Saturday, September 27, 2008

o infinito da alma

O que é isto que aperta o meu peito? É minha alma que quer sair para o infinito…Ou a alma do mundo que quer entrar no meu coração?

Tagore

Monday, September 08, 2008

entorna o fogo...




LÍNGUA DE FOLIA,
BÁTEGAS DE FULIGEM NA ABÓBADA DA NOITE

a noite do nome numa hora de rosto amado
por alturas da bruma.
desse rosto nada sei além de sabê-lo de saboreá-lo
vivo ao redor do êxtase da boca a tactear a sede
rente à casa da língua desalinhada
em que crescem sintaxes amotinadas
iguais às águas desaguadas
nos escuros desertos.

a noite em que os braços me diziam
como barcos sonâmbulos num tumulto de ilhas
que a bruma faria de mim um náufrago
se os sentidos abandonara para sulcar
em tua boca as bátegas de estrelas
os rumores da fuligem.

a noite da folia a cantar beijos como figos
quando a língua já lascada e submersa
só no duro chão dos teus lábios
entorna o fogo
a fuligem da nova língua na boca retomada
para que órfãos os nomes ergam a noite
em que partem os navios do desejo
das estelares bátegas
dos incomensuráveis desertos.


luís filipe pereira

NO FUNDO DO MEU CORAÇÃO



No dia em que a flor de lótus desabrochou
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura

Tinha desabrochado no fundo do meu coração.


Rabindranath Tagore

SE NÃO FALAS

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.



Rabindranath Tagore

em sonhos


Se te possuir em sonhos és minha, pois não há prazer que não seja representado.
J. Donne

Só em sonhos te posso possuir…pois não há prazer na vida tão intenso e sublime como aquele que em sonhos te posso dar…

rlp