Friday, December 09, 2011

NÃO MEU AMOR...




"Nem todo o corpo é carne...
Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore, nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor...
Nem todo o corpo é carne: é também água, terra, vento, fogo...
É... sobretudo sombra à despedida; onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memóra o fugidio vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio, pois no teu corpo existe o mundo todo!"

Natália Correia

Friday, June 24, 2011

teus olhos me olham..

Fecundação



Teus olhos me olham

longamente,

imperiosamente

de dentro deles teu amor me espia.



Teus olhos me olham numa tortura

de alma que quer ser corpo,

de criação que anseia ser criatura



Tua mão contém a minha

de momento a momento

é uma ave aflita

meu pensamento

na tua mão.



Nada me dizes,

porém entra-me a carne a persuasão

de que teus dedos criam raízes

na minha mão.



Teu olhar abre os braços,

de longe,

à forma inquieta de meu ser,

abre os braços e enlaça-me toda a alma.



Tem teu mórbido olhar

penetrações supremas

e sinto, por senti-lo, tal prazer,

há nos meus poros tal palpitação,

que me vem a ilusão

de que se vai abrir

todo meu corpo

em poemas.





Gilka Machado

Thursday, June 09, 2011

As palavras que escrevo



"As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
...
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.»

Herberto Helder

Levantava-te em mim como uma coroa.



Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trêmulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
- aterrada pela riqueza -
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anônimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra
Nome do mundo, diadema.

herberto helder

Sunday, May 15, 2011

ELA É A FONTE

 

Fonte - I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo ---
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, 
uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.
                

Herberto Helder

O AMOR EM VISITA


Começa o tempo onde a mulher começa,

é sua carne que do minuto obscuro e morto

se devolve à luz.

Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras

com uma imagem.

Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito

de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade

uma ideia de pedra e de brancura.

És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,

que te alimentas de desejos puros.

E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,

a sombra canta baixo.



Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,

onde a beleza que transportas como um peso árduo

se quebra em glória junto ao meu flanco

martirizado e vivo.

- Para consagração da noite erguerei um violino,

beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada

darei minha voz confundida com a tua.



Oh teoria de instintos, dom de inocência,

taça para beber junto à perturbada intimidade

em que me acolhes.



Começa o tempo na insuportável ternura

com que te adivinho, o tempo onde

a vária dor envolve o barro e a estrela, onde

o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida

ingénua e cara, o que pressente o coração

engasta seu contorno de lume ao longe.

Bom será o tempo, bom será o espírito,

boa será nossa carne presa e morosa.

- Começa o tempo onde se une a vida

à nossa vida breve.

(…)



Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz

o perfume da tua noite.

Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua

e branca das mulheres. Correm em mim o lacre

e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca

ao círculo de meu ardente pensamento.

Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam

sobre o teu sorriso imenso.

Em cada espasmo eu morrerei contigo.



E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente

das urzes, um silêncio, uma palavra;

traz da montanha um pássaro de resina, uma lua

vermelha.

Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,

casa de madeira do planalto,

rios imaginados,

espadas, danças, superstições, cânticos, coisas

maravilhosas da noite. Ó meu amor,

em cada espasmo eu morrerei contigo.

(…)

Excerto de poema – herberto helder

Se houvesse degraus na terra...



Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

 Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

 Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

 Herberto Helder

Tuesday, February 15, 2011

MANANCIAL FECHADO ...

"Quem é esta que surge como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, majestosa como um exército embandeirado?"


Cântico dos cânticos...

MINHA MÃE MEU AMOR...



***

Fecha agora os teus olhos oh meu Amor, e deixa-me ver o teu Nascimento…

Adormeceram as águas, fizeram silêncio as almas, e, sobre as ondas do grande Mar do silêncio, caminha para nós a serena Aparição da tua figura.

Leonardo Coimbra
***

7

Que será feito da luz
Dos teus cabelos
Que me acendiam nos teus ombros?

Nos teus pulsos...

Enquanto eu adormecia
Na fundura morna
Da sombra do teu colo



In “MINHA MÃE MEU AMOR” de Maria Teresa Horta



Roses du soir

Des roses sur la mer, des roses dans le soir,
Et toi qui viens de loin, les mains lourdes de roses !
J'aspire ta beauté. Le couchant fait pleuvoir
Ses fines cendres d'or et ses poussières roses...

Des roses sur la mer, des roses dans le soir.

Un songe évocateur tient mes paupières closes.
J'attends, ne sachant trop ce que j'attends en vain,
Devant la mer pareille aux boucliers d'airain,
Et te voici venue en m'apportant des roses...

Ô roses dans le ciel et le soir ! Ô mes roses !

RENÉE VIVIEN, (1877-1909)

Tuesday, January 18, 2011

A COBRA...


COBRA

D. H. Lawrence


Uma cobra veio à minha cisterna
Num dia escaldante, e eu em pijama por causa do calor,
Beber água.

Desci as escadas de jarro na mão
Na sombra funda e estranho odor de grande alfarrobeira negra
E tive de ficar à espera, tive de ficar à espera ali em pé, pois lá estava ela na cisterna antes de mim.
Entrou vinda de uma fenda na parte escura do muro de terra
E desceu, arrastando a frouxidão amarelo-castanha do seu ventre mole sobre o bordo da cisterna de pedra,
E apoiou a garganta no fundo de pedra
E, onde a água gotejara da torneira, numa pequena pureza,
Sorveu com a boca reta,
Bebeu suavemente a água que penetrou por entre as gengivas retas no longo corpo mole,
Silenciosamente.

Alguém chegara à cisterna antes de mim,
E eu, como quem chega em segundo lugar, à espera.
Deixou de beber e ergueu a cabeça como faz o gado,
E olhou-me vagamente como faz o gado ao beber,
E fez vibrar a língua bífida de entre os lábios e cismou um instante,
E curvou-se e bebeu um pouco mais,
Um ser castanho-de-terra, dourado-de-terra, vindo das entranhas ardentes da terra,
No dia de Julho siciliano, com o Etna a fumegar.


A voz da minha educação disse-me:
É preciso matá-la,
Pois na Sicília as cobras pretas são inocentes, as douradas, venenosas.

E vozes em mim disseram: se és homem,
Pega num pau e esmaga-a já, acaba com ela.

Mas devo eu confessar como gostei dela?
Como estava contente por ter vindo, qual hóspede tranquilo, beber na minha cisterna
E partir pacífico, apaziguado e sem agradecimentos
Para as entranhas ardentes da terra?
Foi por cobardia que não ousei matá-la?
Foi por perversidade que ansiei falar-lhe?
Foi por humildade que me senti honrado?
E senti-me tão honrado.

E, contudo, aquelas vozes:
Se não tivesses medo, matá-la-ias!
E era verdade, tinha medo, muito medo,
Mas mais ainda me sentia honrado
Por ela ter buscado a minha hospitalidade,
Vinda da porta negra da secreta terra.

Bebeu o que quis
E ergueu a cabeça, sonhadoramente, como quem bebeu,
E fez vibrar a língua como uma noite bífida no ar, tão preta,
Parecendo lamber os lábios,
E olhou à volta para o ar, sem ver, como um deus,
E devagar virou a cabeça,
E devagar, muito devagar, como que três vezes mais em sonho,
Pôs-se a arrastar a lenta linha longa do corpo em curva
E a trepar a rampa em ruínas do meu talude.


E, ao introduzir a cabeça naquele buraco horrível,
Ao içar-se lentamente, ajustando os ombros de cobra e entrando mais,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra aquela fuga para o horrendo buraco preto,
Aquele penetra deliberado na escuridão, aquele arrastar-se lento para lá,
Apossou-se de mim, agora que ela estava de costas.


Olhei à volta, pousei o jarro,
Peguei num pau desajeitado
E atirei-o com estrépito à cisterna.
Penso que não lhe acertou,
Mas, de súbito, a parte dela que ainda não entrara contorceu-se
Em pressa pouco digna,
Vibrou como um relâmpago e desapareceu


No buraco preto, a fenda de lábios de terra no meu muro
Que eu fiquei fitando fascinado na intensa calma do meio-dia.

Arrependi-me logo.
E pensei: que ato torpe, grosseiro e desprezível!
Odiei-me e às vozes da minha maldita educação humana.

E pensei no albatroz,
E desejei que regressasse, a minha cobra.
Pois de novo me aparecia como um rei,
Como um rei em exílio, deposto no submundo
E que há-de outra vez ser coroado.

E assim perdi a oportunidade com um dos senhores
Da vida.
E tenho algo a expiar;
Uma mesquinhez.



(Tradução de Herberto Helder)

se te despes...





Se te despes, um deus
contempla, fulminado,
a própria criação

És uma mensageira da luz e dos primeiros acordes.
Trazes espanto no rosto e o movimento
nos olhos inquietos de vermelhos.

Vens cheia de orvalho, lágrima da noite.
Há revoadas sonoras nos teus gestos.
Em ti há a harmonia e a cor duma alvorada de estio.


albano martins

Friday, December 10, 2010

OS DIAS...


"Estou triste. Um mal estar que vem do êxtase não caber na vida dos dias. Ao êxtase devia seguir o dormir para atenuar a vibração de cristal ecoante. O êxtase tem de ser esquecido.

"Os dias. Fiquei triste por causa desta luz diurna de aço em que vivo. Respiro o odor de aço no mundo dos objectos."


CLARICE LISPECTOR

A SUPERFÍCIE


Nada, Esta Espuma


Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.


Ana Cristina cesar

Thursday, August 26, 2010

...Já antes foste minha


“Já aqui estive antes,
Mas quando ou como não sei dizer;
Conheço a relva para lá da porta,
O cheiro doce e penetrante,
O som sussurrante, as luzes junto à costa.
...Já antes foste minha
- Há quanto tempo, não sei dizer:
Mas no momento em que ao voo daquela andorinha
O teu pescoço curvou assim,
Algum véu caiu, - soube tudo dos tempos antigos”.

Dante Gabriel Rossetti
(1828-1882, poeta e pintor inglês)

Monday, July 26, 2010

Quero me transformar em ti...


O AMANTE INVISÍVEL

Quero suprimir o tempo e o espaço
A fim de me encontrar sem limites unido ao teu ser,
Quero que Deus aniquile minha forma atual e me faça voltar a ti,
Quero circular no teu corpo com a velocidade da hóstia,
Quero penetrar nas tuas entranhas
A fim de ter um conhecimento de ti que nem tu mesma possuis,
Quero navegar nas tuas artérias e confabular com teu sangue,
Quero levantar tua pálpebra e espiar tua pupila quando acordares,
Quero baixar a nuvem para que teu sono seja calmo,
Quero ser expelido pela tua saliva,
Quero me estorcer nos teus braços
Quando os fundamentos da terra se abalarem nos teus pesadelos,
Quero escrever a biografia de todos os átomos do teu corpo,
Quero combinar os sons
Para que a música da maior ternura embale teus ouvidos,
Quero mandar teu nome nas flechas dos ventos
Para que outros povos te conheçam do outro lado do mar,
Quero forçar teu pensamento a pensar em mim,
Quero desenhar diante de teus olhos
O Alfa e Ômega nos teus instantes de dúvida,
Quero subir em ramagem pelas tuas pernas,
Quero me enrolar em serpente no teu pescoço,
Quero ser acariciado em pedra pelas tuas mãos,
Quero me dissolver em perfume nas tuas narinas,
Quero me transformar em ti.

(Murilo Mendes: A Poesia em Pânico. 1936-1937)

Monday, July 19, 2010

aquela que eu adoro...


IDEAL

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios e nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do desejo...



Antero de Quental

Friday, July 16, 2010

ACORDA...


Vem, minha dócil bem-amada! Eu quero pedir à embriaguez que me faça esquecer que nunca saberemos nada.


Khayyam


Noite, silêncio, folhas imóveis;

imóvel o meu pensamento.

Onde estás, tu que me ofereceste a taça?

Hoje caiu a primeira pétala.

Eu sei, uma rosa não murcha

perto de quem tu agora sacias a sede;

mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,

e que te fez desfalecer.

Acorda... e olha como o sol em seu regresso

vai apagando as estrelas do campo da noite;

do mesmo modo ele vai desvanecer

as grandes luzes da soberba torre do Sultão.

Omar Khayyam

Thursday, July 15, 2010

NÃO TE QUERO...



No sanguíneo cristal dos teus lábios ardentes a paixão esbraceja em rubra labareda: é a taça que contém um filtro que embebeda e oculta no seu mel venenos inclementes.

Colombina
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NÃO TE QUERO


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,

e de esperar-te quando não te espero,

passa o meu coração do frio ao fogo.

Quero-te só porque a ti te quero,

Odeio-te sem fim e odiando te rogo,

e a medida do meu amor viajante,

é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,

seu raio cruel meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego,

nesta história só eu me morro,

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

Saturday, July 04, 2009

Mãe, Eu Estou tão Cansado


Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos
o chamamento da água, o chamamento sibilino
que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz
de me resgatar e que dentro dele se perfilem
as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida
das camas. Mãe, a luz não se demora no meu quarto,
morre nas corolas das flores que trouxeste
para o riso não murchar, e eu fico doente só de olhar
os muros onde a hera é espiral de espanto, raiz
de uma enfermidade latente. Não voltarei
às actas do desespero, que são sombrias e magras
como os corpos dos amantes que definham sobre a
[areia
na fúria da maré, com uma gramática de murmúrios
escondida na solidão branca das dunas, mãe.

José Jorge Letria, in "Actas da Desordem do Dia"

NOTA:

Os três poemas que se seguem em baixo como sendo de autoria de wenceslau de moraes, tal como este, SÃO de josé jorge letria, tendo-lhes apenas sido dedicados pelo poeta.