Friday, July 16, 2010

ACORDA...


Vem, minha dócil bem-amada! Eu quero pedir à embriaguez que me faça esquecer que nunca saberemos nada.


Khayyam


Noite, silêncio, folhas imóveis;

imóvel o meu pensamento.

Onde estás, tu que me ofereceste a taça?

Hoje caiu a primeira pétala.

Eu sei, uma rosa não murcha

perto de quem tu agora sacias a sede;

mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,

e que te fez desfalecer.

Acorda... e olha como o sol em seu regresso

vai apagando as estrelas do campo da noite;

do mesmo modo ele vai desvanecer

as grandes luzes da soberba torre do Sultão.

Omar Khayyam

Thursday, July 15, 2010

NÃO TE QUERO...



No sanguíneo cristal dos teus lábios ardentes a paixão esbraceja em rubra labareda: é a taça que contém um filtro que embebeda e oculta no seu mel venenos inclementes.

Colombina
»»»

NÃO TE QUERO


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,

e de esperar-te quando não te espero,

passa o meu coração do frio ao fogo.

Quero-te só porque a ti te quero,

Odeio-te sem fim e odiando te rogo,

e a medida do meu amor viajante,

é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,

seu raio cruel meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego,

nesta história só eu me morro,

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

Saturday, July 04, 2009

Mãe, Eu Estou tão Cansado


Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos
o chamamento da água, o chamamento sibilino
que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz
de me resgatar e que dentro dele se perfilem
as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida
das camas. Mãe, a luz não se demora no meu quarto,
morre nas corolas das flores que trouxeste
para o riso não murchar, e eu fico doente só de olhar
os muros onde a hera é espiral de espanto, raiz
de uma enfermidade latente. Não voltarei
às actas do desespero, que são sombrias e magras
como os corpos dos amantes que definham sobre a
[areia
na fúria da maré, com uma gramática de murmúrios
escondida na solidão branca das dunas, mãe.

José Jorge Letria, in "Actas da Desordem do Dia"

NOTA:

Os três poemas que se seguem em baixo como sendo de autoria de wenceslau de moraes, tal como este, SÃO de josé jorge letria, tendo-lhes apenas sido dedicados pelo poeta.

Friday, July 03, 2009

NUNCA SOUBE O QUE É SER FELIZ


DEUSA ESQUIVA

Eu nunca proporcionei felicidade àqueles que amei
porque nunca soube o que é ser feliz.
Será, talvez, este adormecimento dos sentidos
que apaziguam em mim as dores ancestrais e ferinas,
que me põe no sono o bálsamo das noites sem temores.
A felicidade é uma deusa esquiva e tumultuosa
que mal se deixa tocar pelos dedos vacilantes
de quem a quer dominada e cativa.
Ela que tudo tem para dar, para partilhar,
outra coisa não faz senão recusar-me o consolo de uma concha de água
nas horas delirantes e ambravecidas da sede.
Nunca mais lhe dedicarei preces nem oferendas,
porque o meu tempo não serve para conjugar
os verbos em que ela se corporiza e ganha voz.

wenceslau de moraes

COMO EU GOSTAVA DE ME SENTIR POETA...

*
 
Como eu gostava de me sentir poeta
para condensar nos minúsculos utas
as minhas inquietações e medos.
Havia de me servir deles, minúcia artesã,
para cantar o meu amor aos animais,
aos cães, as aves e às galinhas anãs,
para exaltar a beleza do amr interior,
que deixa esta pátria adoptiva
cercada de água por dentro e por fora.
Havia de confessar neles a inveja que tenho
da coragem latejante dos samorais
e a minha cobardia ocidental
que me tolhe o gesto e a máquina da vontade
quando quero acabar com a cruz dos meus dias.

**
De longe chegam as notícias de catástrofes;
a terra tremeu na Martinica, na Formosa e em Nápoles,
e aqui é a minha alma doente que estremece e vibra
sob o impulso de um vulcão secreto
que mistura sofrimento com júbilo,
que confunde doença com saúde eterna.
Podia encomendar a minha alma magoada
a estes acolhedores deuses da casa
com quem é possível falar e num instante
se tornam cúmplices em nome da eternidade.
Mas que hei-de eu dizer-lhes que eles não saibam já?
eu sou uma alma estremecida e indefesa
à espera que um tremor real da terra
daqui me leve para onde moram as outras almas.

Wenceslau de Moraes

Tuesday, June 16, 2009

os tentáculos da escrita



a benção das estrelas...


A Montanha

"Calma, entre os ventos, em lufadas cheias
De um vago sussurrar de ladainha
Sacerdotisa em prece, o vulto alteias
Do vale, quando a noite se avizinha

Rezas sobre os desertos e as areias,
Sobre as florestas e a amplidão marinha,
E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias.
Mudas servas aos pés de uma rainha.

Ardes, num holocausto de ternura...
E abres, piedosa, a solidão bravia
Para as águias e as nuvens, a acolhê-las;

E invades, como um sonho, a imensa altura,
- Última a receber o adeus do dia
Primeira a ter a bênção das estrelas"

Olavo Bilac

Sunday, April 26, 2009

Ausência


Ausência

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


VINICIUS DE MORAES 

terror de amar


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

*** 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa



Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa



Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas
Sophia

o jardim e o vento passa


A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


--------------------------------------------------------------------------------

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sunday, April 19, 2009

Põe-me as Mãos nos Ombros...



Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei por quê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Thursday, April 16, 2009

NÃO SEI DIZER...



"Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
De qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
Ou se quiseres me ver fechado, eu e
Minha vida nos fecharemos belamente, de repente
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
Nada que eu possa perceber neste universo iguala
O poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes,
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
E abre; só uma parte de mim compreende que a
Voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas"

Cummings

Sunday, February 22, 2009

Crepuscular




Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
--- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
--- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.


Camilo Pessanha

Interrogação




Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do <>.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha

Estátua


Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.


Camilo Pessanha

Saturday, February 07, 2009

CONHECER A DOR DA EXCESSIVA...



....

E não tentar guiar o curso do
amor; porque o Amor, se vos escolher, marcará
ele o vosso curso. O Amor não tem outro desejo
senão o de consumar-se.
Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão ser estes:
fundir-se e ser um ribeiro corrente a cantar
a sua melodia à noite.
Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do Amor
e sangrar de bom grado e alegremente.
Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de Amor. Descansar
ao meio dia e meditar no êxtase do Amor.
Voltar a casa ao crepúsculo e adormecer tendo no
coração uma prece pelo bem amado, e na boca
um canto de louvor.

(in Khalil Gibran, O Profeta)

Friday, January 16, 2009

A Alma da Dançarina


 

" Uma vez chegaram à corte do príncipe de Birkasha uma dançarina e os seus músicos. Tendo sido admitida na corte, ela dançou a música da flauta, do alaúde e da cítara. Executou a dança das chamas e do fogo e a dança das espadas e das lanças. Dançou as estrelas e o espaço e então, ela dançou a dança das flores ao vento. Quando terminou, aproximou-se do príncipe e curvou o corpo em reverência, diante dele. O príncipe ordenou que ela se aproximasse e perguntou-lhe: 
“Bela mulher, filha da graça e do encanto, de onde vem a sua arte e que poder é este o seu que domina todos os elementos nos seus ritmos e versos?” 
E a dançarina, aproximando-se, curvou mais uma vez o corpo em reverência e respondeu.
“Sua alteza, sereníssimo senhor, eu não sei a resposta para as suas perguntas. O que eu sei é apenas isto: que a alma do filósofo habita na sua mente, a alma do poeta habita no seu coração, a alma do cantor habita na sua garganta, mas a alma da dançarina habita todo o seu corpo.”

O viajante – Khalil Gibran

Saturday, January 10, 2009

O AMOR É UM PÁSSARO CEGO


Amo-te porque não me amo
inteiramente. O que me falta
é infinito
mas tu és do bem que me falta
o enigma onde se condensam
a terra e o sol o ar as águas
invioladas
e tenho a boca cheia
de música ondulação
do teu silêncio.
Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.


(...)
(excerto de poema de casimiro de brito)

Sunday, December 28, 2008

SONHEI TANTO A TUA FIGURA






Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Mário Cesariny

Monday, December 22, 2008

Anjos, anjos...e rosas...


Que um dia havias de vir, não respirei
eu, de tanta meia-noite, por amor de ti,
tal inundação?
Porque esperava acalmar-te o rosto
com quase intactos esplendores,
se ele em infinita expectativa
um dia repousasse em frente ao meu.
Em silêncio fez-se espaço nos meus traços:
para bastar ao teu enorme olhar
meu sangue se fez espelho, aprofundou-se.

Se pela sebe pálida do olival
a noite em estrelas mais forte me excedia,
erguia-me direito e curvava-me
para trás e aprendia a reconhecer
o que mais tarde a ti nunca referia.

Oh! tal expressão em mim foi semeada
que, se o teu sorriso vier a acontecer,
pra ti transfiro, com o olhar, espaço de mundos.
Mas tu não vens, ou vens tarde demais.
Anjos, precipitai-vos sobre esse linhar
azul. Anjos, anjos, vinde ceifar.

Rainer Maria Rilke.

só quem vive







A Abelha que voando
A abelha que, voando, freme sobre
A colorida flor, e pousa, quase
Sem diferença dela
À vista que não olha,
Não mudou desde Cecrops.
Só quem vive
Uma vida com ser que se conhece
Envelhece, distinto
Da espécie de que vive.
Ela é a mesma que outra que não ela.
Só nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte!
—Mortalmente compramos
Ter mais vida que a vida.
*
Poemas de Ricardo Reis
(heterônimo de Fernando Pessoa)

Friday, December 12, 2008

ferida que me atravessa

(...)

ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas ne desordem,
nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.


herberto helder

eu escrevo-te...


(...)


As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco
luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como
um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que
crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas


herberto helder - a carta da paixão - metade

NÃO POSSO ADIAR O CORAÇÃO


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

antónio ramos rosa

Sunday, December 07, 2008

Mãe, toma a minha dor

A ti, Mãe, primeira maravilha dada aos meus olhos, eu dedico estes poemas. Subida da tua carne, a minha luz pertence-te. Toma a minha dor e a minha alegria e este desespero que floresce à sombra do teu mistério.

Sou filha de marinheiros
pelo mar que também quis.
Pela linha da poesia
sou neta de D. Dinis.
Aquilo que nunca fiz
é a minha bastardia.

poesia para comer...




RETRATO TALVEZ SAUDOSO
DA MENINA INSULAR

Tinha o tamanho da praia
o corpo que era de areia.
E mais que corpo era indício
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho no barco
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o corpo se ergueu
voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além
guardada na claridade
do coração que a retém.

In “Poemas”



A DEFESA DO POETA

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.



Natália Correia
Auto-Retrato e Ultrabiográfico

insensata rosa


"Porque brota de mim, quando o corpo repousa e a alma fica a sós, esta insensata rosa?"


(Jorge Luís Borges)

Saturday, November 15, 2008

VEM SE TE INTERESSA...

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas, posso mostrar-te.


RUMI

EM CADA CORAÇÃO


"Em cada coração há uma
janela para outros corações.
Eles não estão separados,
como dois corpos.
Mas, assim como duas lâmpadas
que não estão juntas,
Sua luz se une num só feixe."


(Jalaluddin Rumi)

A VOZ


Alguém bateu à porta da Bem-Amada, e uma Voz lá de dentro perguntou:
- Quem está aí?
E ele respondeu - Sou eu.
A Voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o Amante foi para o deserto e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a Voz perguntou:
- Quem é?
E o Amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta.


rumi

Wednesday, October 08, 2008

a luz que brilha


NASCER DO DIA

Fica, doçura, não te levantes;
A luz que brilha vem dos teus olhos neste instante;
Não é o dia que se quebra, é o meu coração que se parte,
Porque temos tu e eu de separar-nos tão depressa.
Fica, senão a minha alegria toda perece,
e mal nasce, já se extinguiu.

BREAK OF DAY

Stay, O sweet, and do not rise;
The light that shines comes from thine eyes;
The day breaks not, it is my heart,
Because that you and I must part.
Stay, or else my joys will die,
And perish in their infancy.

John Donne

ce rêve...


Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D'une femme inconnue, et que j'aime, et qui m'aime,
Et qui n'est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m'aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d'être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? Je l'ignore.
Son nom? Je me souviens qu'il est doux et sonore,
Comme ceux des aimés que la vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L'inflexion des voix chères qui se sont tues.


Paul Verlaine (Poèmes saturniens)

Saturday, September 27, 2008

o infinito da alma

O que é isto que aperta o meu peito? É minha alma que quer sair para o infinito…Ou a alma do mundo que quer entrar no meu coração?

Tagore

Monday, September 08, 2008

entorna o fogo...




LÍNGUA DE FOLIA,
BÁTEGAS DE FULIGEM NA ABÓBADA DA NOITE

a noite do nome numa hora de rosto amado
por alturas da bruma.
desse rosto nada sei além de sabê-lo de saboreá-lo
vivo ao redor do êxtase da boca a tactear a sede
rente à casa da língua desalinhada
em que crescem sintaxes amotinadas
iguais às águas desaguadas
nos escuros desertos.

a noite em que os braços me diziam
como barcos sonâmbulos num tumulto de ilhas
que a bruma faria de mim um náufrago
se os sentidos abandonara para sulcar
em tua boca as bátegas de estrelas
os rumores da fuligem.

a noite da folia a cantar beijos como figos
quando a língua já lascada e submersa
só no duro chão dos teus lábios
entorna o fogo
a fuligem da nova língua na boca retomada
para que órfãos os nomes ergam a noite
em que partem os navios do desejo
das estelares bátegas
dos incomensuráveis desertos.


luís filipe pereira

NO FUNDO DO MEU CORAÇÃO



No dia em que a flor de lótus desabrochou
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura

Tinha desabrochado no fundo do meu coração.


Rabindranath Tagore

SE NÃO FALAS

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.



Rabindranath Tagore

em sonhos


Se te possuir em sonhos és minha, pois não há prazer que não seja representado.
J. Donne

Só em sonhos te posso possuir…pois não há prazer na vida tão intenso e sublime como aquele que em sonhos te posso dar…

rlp

Os olhos rasos de água


Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como um bosque.
É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.


Eugénio de Andrade

Friday, September 05, 2008

o que é isto...

O que é isto que aperta o meu peito?
É minha alma que quer sair para o infinito…
Ou a alma do mundo que quer entrar no meu
coração?


Tagore

que te diria o meu coração


canto

Já te disse muita coisa,
Mas ainda queria esclarecer
Uma coisa que ficou por dizer…
Sejas tu quem for ou a minha alma seja,
Nada mais há entre nós do que um Portal,
Um secreto e misterioso Umbral
Que se cruza na nossa memória…

Abre-se por magia ou milagre…
Ou quando os guias que o guardam querem
E nada tem a ver com este corpo e a matéria…
Abre-se por emergência de respirar a tua beleza
E de uma brisa fresca que me salva de enlouquecer…

Não tenhas medo que confunda a aragem
Com o desejo insano do ser humano
Nem a tua presença para mim etérea
Com o teu sexo de mulher…
Para mim és cor, vento, brisa e canto…
Nada que eu possa nesta vida possuir
Ou querer para a vida inteira.

««««


dizer

Que te diria o meu coração
se eu pudesse…
Se tu viesses como uma estrela cadente…
E tudo o que nos separa nela se dissolvesse
E nada mais restasse
Senão a nudez da tua alma diante da minha?

Que farias tu com o meu coração
Se ele se te confessasses só teu?
Se ele te dissesse que te ama mais,
Muito mais do que eu...
Do que a vida e a eternidade?
Que por ti daria tudo,
Que por ti morreria de amor e saudade…

Que farias tu com o meu coração
Se eu não soubesse…
Que todo este anseio é mera ilusão e quimera…
Que ninguém pode dar ou receber um coração
Que é só seu…
E pertence ao Criador mais do que à criatura?


2008 - rlp

Tuesday, September 02, 2008

a incógnita do instante

Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si.

No amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio de instantes.


Clarice lispector

En La Mar


En la mar

Oh! sim amo-te…
Mas não vou fazer nada,
Vou ficar quieta no meu canto.

Vou guardar bem fundo
E no mais secreto de mim
Tudo o que sinto por ti, por enquanto…

Não, não vou dizer-te nada
Confrontar-te ou seduzir-te,
Como qualquer vulgar amante!

Vou esperar que a minha alma
Por si só arda em mil fogos…
E que as suas chamas
Sejam mais fortes
Do que qualquer palavra,
Gesto, olhar ou encanto…

Quando sentires essas chamas
A queimar-te o peito…
E já não suportares o fogo que te consome
Virás a mim como quem busca en la mar
E nela mergulharás sem que nada nos separe…
Nem na vida nem na morte.


rlp

os sonhos

Se te possuir em sonhos és minha, pois não há prazer que não seja representado.
J. Donne

Só em sonhos te posso possuir…pois não há prazer na vida tão intenso e sublime como aquele que em sonhos te posso dar…
rlp

Sunday, August 31, 2008

a chave dos mistérios


MEDITAÇÃO


Por um brevíssimo lapso de tempo,
A visão súbita da Deusa na mulher…

Ela revela-se a ti através da beleza etérea
Que subjaz à imanência do seu corpo
Em harmonia com o momento
Na luz que rasga a densidade da matéria …
E dessa fracção ínfima de tempo
Toda a transparência
Toda a interioridade de um ser,
Na sua essência mais pura,
Nos fulmina com a sua Divina Presença.

Por segundos,
É com se ela dançasse nua à minha frente
No simples deslizar no espaço e tudo pára…

Olho-a nos olhos tudo se turva
E a minha alma voa ao encontro da sua
Enquanto ela se desloca como um raio
Para o centro do meu coração.

Senti-me como o dervixe que rodopia freneticamente
Sobre si mesmo até à consumação do êxtase…


VISÃO

A tua visão súbita
Transmuta e consubstancializa
Todo o meu ser
Todas as minhas células se unificam…
Todas as minhas penas se volatilizam
Ao beber do teu cálice o êxtase divino
Do teu corpo sagrado de mulher

Só pela visão do teu ser
A minha alma é iluminada
E todo o meu ser alçado
Ao samadi de sadus e ascetas
Ao céu inatingível dos místicos…
Ao paraíso perdido de Eva…

Tu és a minha respiração,
O meu néctar e o meu mantra,
Tu és o meu nirvana…
A chave de todos mistérios…


30 de Agosto
r.leonor

Saturday, August 02, 2008

sentir é outra questão


Não tenho ninguém que me ame.
’Spera lá, tenho; mas é
Difícil ter-se a certeza
Daquilo em que não se crê.

Não é não crer por descrença,
Porque sei: gostam de mim.
É um não crer por feitio
E teimar em ser assim.

Não tenho ninguém que me ame.
Para este poema existir
Tenho por força que ter
Esta mágoa que sentir.

Que pena não ser amado!
Meu perdido coração!
Etcetera, e está acabado
O meu poema pensado.

Sentir é outra questão…


Fernando Pessoa

palavras

DE QUE FALAMOS?

De que falamos
quando falamos das palavras
senão do tempo
que corre-escorre
por entre as malhas da voz?

Faladas
as palavras
são um combate encenado
uma insónia pessoal
Escritas
são reféns do olhar

No espaço da página
deslizam altivas como icebergues
ou então soçobram
desconhecidamente
no lado sombrio do funesto olvido


ANA HATHERLY
in O PAVÃO NEGRO

Tuesday, July 15, 2008

UNIDO COM ELA





A tua boca na boca dela – as tuas mãos
Nos seus seios cheios, maduros e redondos
Os braços dela à volta da tua cintura: as coxas levantadas,
E até a tua língua, como sonhaste dentro dela:

Mas não a podes ter.
Não podes tocar o que a ela pertence.
Essa boca forte é sua, ela é outra,

Porque o profundo ritmo da água é dela
Onde caminha a seu modo, como deve, sozinha

E tu? Tens de ser como ela
E encontrar todo o teu desejo em ti próprio
Para agora e para sempre.

Seres teu próprio rei.


In I CHING
O LIVRO DAS MUTAÇÕES



..." Depois disto vem a meditação sobre as árvores das jóias do país de Amitâbha, à qual se segue a meditação sobre a água"

quanto doi o meu coração...

Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
sem melodia nem razão.

Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele nada que ver.


Fernando Pessoa

TIMIDEZ


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
— e um dia me acabarei.


CECÍLIA MEIRELES (1901-1964)

Wednesday, April 23, 2008

Sou-me


"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca e sim outra coisa. Quando digo "águas abundantes" estou falando da força do corpo nas águas do mundo. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso. Lê a energia que está no meu silêncio. Ah tenho medo do Deus e do silêncio."


(...)


"Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Género não me pega mais."





CLARISSE LISPECTOR

INICIAÇÃO

INICIAÇÃO

"Não dormes sob os Ciprestes,
pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes,
que encobrem teu ser profundo.


Vem a noite, que é a morte,
e a sombra acabou sem ser.
Vais na noite, só recorte,
igual a ti sem querer.


Mas na estalagem do Assombro,
tiram-te os Anjos a capa:
segues sem capa no ombro,
com o pouco que te tapa.


Então Arcanjos da Estrada
despem-te e deixam-te nú.
Não tens vestes, não tens nada:
tens só teu corpo, que és tu.


Por fim, na funda caverna,
os Deuses despem-te mais,
teu corpo cessa, alma externa,
mas vês que são teus iguais.


A sombra de tuas vestes
ficou entre nós na Sorte
não estás morto entre ciprestes
neófito, não há morte."


Fernando Pessoa - 30/03/1933

Tuesday, February 26, 2008

em qualquer lingua


Por que me falas nesse idioma?
perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.



Cecília Meireles

poco tiempo

RECHAZANDI UNA INVITACION A IR AL CINE
O PARTICIPAR EN CUALQUIER OTRA ACTIVIDAD MUNDANA


Tengo tan poco tiempo y tanto amor,
tanta necesidad amontonada,
tan pocos ojos para tanta flor,
tanto preparativo para nada.

Días inútiles me han puesto avara
del privilegio de tu companía
y cuando alguún motivo nos separa
es como darle cuerda a la agonía.

? Para qué vamos a desperdiciar
entre la oscuridad, entre la gente,
tantas intimidades sin usar
como tenemos, tanta lur urgente?

La vida rigorea y multiplica
recíproca abundancia en tiempo escaso.
No te imaginas lo que significa
estar enamorada con atraso.

Somos gremio de zombis que no sabe
estar sino en rebaño distraído.
Si uno en su duración apenas cabe,
por qué precipitarse en el olvido.

Todo enajenamiento es agresión,
y en defensa legítima te mando
a diferir esta disipación
para mañana, para no sé cuándo.


Maria Elena Walsh

María Elena Walsh (born on February 1, 1930 in Ramos Mejía, Buenos Aires) is an Argentine musician and writer known for her songs and books for children.

Wednesday, January 23, 2008

desejo-me a mim mesma...


ALQUIMIA

Desejo-me a mim mesma
no corpo etéreo de uma mulher sublime,
como preciso do ar que respiro.

Desejo ver-me e sentir-me inteira
no meu corpo completo
como se reinventasse outro ser...

E como se os meus sentidos fossem mágicos
desdobrar-me...
e do ar, do éter ou do prana,

pela força do meu anseio
aparecesse um novo ser que me amasse

até à consumação.

Queria que por magia,
eu própria me transformasse em substância etérea
e libertasse a minha alma da escravidão
desde corpo denso de pele e desejo...

Queria ser águia e vencer o dragão


in Mulher Incesto - Sonata e Perlúdio

Rosa Leonor Pedro

Monday, December 31, 2007

MULHER SOL




Ela é o fogo no meu coração,
e ela é a néctar (o mel e fel) na minha língua.
Ela é a Palavra, o dizer que vibra em mim...
Ela é a Luz, Durga e Kali.

Força indómita, semente do diabo,
vertigem de sedução e morte:
uma vontade louca de lhe beijar o pescoço
uma lava incandescente, eu, uma loucura de ternura e sede,
uma premência de sentir o seu corpo gemer
ou os ossos ranger.
A violência primordial, a fome da boca, morder.
Devorá-la inteira ou comê-la como a serpente e
de duas só uma ser...

Ah! salamandras, mantras, artifícios e manhas:
Lamber-lhe o lóbulo da orelha esquerda
recitando OM AH HUM,
No seu coração meditar eternamente,
no seu corpo mandala renascer,
Kimari, Durga e Kali.


IN MULHER INCESTO ROSA LEONOR PEDRO

Saturday, November 24, 2007

a minha canção


Minha canção te envolverá com sua música, como os abraços sublimes do amor.

Tocará o teu rosto como um beijo de graças.

Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido.

Minha canção será como asas para os teus sonhos e elevará teu coração até o infinito.

Quando a noite escurecer o teu caminho, minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel.

Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas.

Quando minha voz se calar para sempre, minha canção te seguirá em teus pensamentos.


R. Tagore

Sunday, November 18, 2007

as mutações...


"... Elegante curva-se o botão, e é perfumado, eu sei. Mas não aprovo, e não me conformo: a luz dos teus olhos era mais preciosa do que todas as rosas deste mundo..."

(Edna St. Vicent Millay)
UNIDO COM ELA
A tua boca na boca dela – as tuas mãos
Nos seus seios cheios, maduros e redondos
Os braços dela à volta da tua cintura: as coxas levantadas,
E até a tua língua, como sonhaste dentro dela:
Mas não a podes ter.
Não podes tocar o que a ela pertence.
Essa boca forte é sua, ela é outra,
Porque o profundo ritmo da água é dela
Onde caminha a seu modo, como deve, sozinha
E tu? Tens de ser como ela
E encontrar todo o teu desejo em ti próprio
Para agora e para sempre. Seres teu próprio rei.
In I CHING O LIVRO DAS MUTAÇÕES ...
««««««««««««
" Depois disto vem a meditação sobre as árvores das jóias do país de Amitâbha, à qual se segue a meditação sobre a água"

Saturday, September 15, 2007

OH MADRE



Oh Madre
matriz das criaturas inferiores que rastejam
a teus pés cobertas de pó
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó
Oh que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah como nós lambemos tuas duras mãos
Oh que fustigas nossos olhos com tua sombra....



ANA HATHERLY

II - Canto-te





Canto-te para que tu definitivamente
existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
Canto-te
e tu definitivamente existes nos meus olhos
Sempre abertos porque é sempree os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar

e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura
E como é sempre
meus olhos abertos prescrutam-te

símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te

oh substância
Canto-te

com a fragilidade de tudo que existe perante
uma eternidade demasiado nocturna para os nossos
olhos infantis perante a tua antiguidade
futura
E a nossa voz é uma pequena onda no dorso
do teu oceano de matéria
Um leve arrepio apenas na espantosa espessura
de teu éter
Ah no ar é que tudo acontece
no ar nocturno das idades esquecidas
que previamente desconheceremos
No espaço é que tudo acontece
e o espaço é uma grande muito quieta
onde os nossos olhos penetram
no não sabermos até onde
ali
além
no além onde tudo acontece
Oh
oh espaço de tudo ser tão ligeiro e impalpável
e sermos nós a respiração da
teu bafo ritmado
imperceptível distância
Oh augusta majestática dignidade do silêncio
Oh impassibilidade da tua mecânica celeste
Oh organismo primeiro de todos os fins secretos
da compreensão das coisas
Oh inorgânico organismo dos seres
que se devoram
Oh diz
a quem servimos nós de pasto
Canto-te
como quem pronuncia o Mantra esotérico do teu nome
Canto-te e grito
para que a poeira que se infiltra em todas as
coisas se erga de ti como um plâncton
Oh Madre
matriz das criaturas inferiores que rastejam
a teus pés cobertas de pó
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó
Oh que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah como nós lambemos tuas duras mãos
Oh que fustigas nossos olhos com tua sombra
Enorme
Oh
que deixas tanto espaço para o silêncio
das mil pétalas
dos mil braços esplendorosos em seu abandono
dos murmúrios
dos afagos
sangue derramado sobre o mundo
Oh
Porque és sempre tão premente?
e sempre estás ausentemente
na tua constância em todas as coisas?

Oh sono
Oh morte tão desejada e longa
mágica povoada de átomos
milhões de espíritos enchem o teu sopro
E penetras em nós como uma bala
E tudo morre quando tu chegas
E tudo se dilui e se transforma em ti
alada presciência de tudo acontecer
tão longe de nós e tão antigamente
e tudo nos ultrapassar com soberana indiferença
ante os nossos olhos cegos pelo teu negrume
Oh
brilha para dentro de mim
Acende teus luzeiros em meus olhos
Ergue teus braços oh prenhe de tudo
Oh vaso
Oh via láctea de nos amamentares com teu leite
de sombra
Oh úbere e pródiga
Aleita tua ninhada faminta
Grande fera luzidia
Grande mito
Grande deus antigo
Oh urna onde todos dormimos
Oh
Meus olhos choram já de tanto prescrutar-te
E canto-te
Canto-te
Para que tu existas
E eu não veja mais nada além de ti
E nada mais deseje senão que venhas outra vez
levar-me para dentro do teu ventre
de nunca mais haver
E nada mais haver que


Oh tu definitivamente além



Ana Hatherly
Poemas de Eros Frenético e Contemporâneos
um calculador de improbabilidades
Quimera

Tuesday, September 04, 2007

ah minha amada


Ó minha amada

Que olhos os teus

São cais noturnos

Cheios de adeus

São docas mansasTrilhando luzes

Que brilham longe

Longe dos breus…


Ó minha amada

Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus

Quantos saveiros

Quantos navios

Quantos naufrágios

Nos olhos teus…


Ó minha amada

Que olhos os teus

Se Deus houvera

Fizera-os Deus

Pois não os fizera

Quem não soubera

Que há muitas era
Nos olhos teus.


Ah, minha amada

De olhos ateus

Cria a esperança

Nos olhos meus

De verem um dia

O olhar mendigo

Da poesia

Nos olhos teus..


vinicius de moraes
Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria…
Ó mar sem cais nem lado nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá em baixo estamos
E é subita a lembrança
Da velha quinta e do espalmar dos ramos

Sob os quais a merendar - Oh, amor da glória!
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos…


fernando pessoa

Saturday, August 25, 2007

DEUSA DE OLHOS VOLÚVEIS


DEUSA dos olhos volúveis

pousada na mão das ondas:

em teu colo de penumbras,

abri meus olhos atónitos.

Surgi do meio dos túmulos,

para aprender o meu nome.

Mamei teus peitos de pedra

constelados de prenúncios.

Enredei-me por florestas,

entre cânticos e musgos.

Soltei meus olhos no eléctrico

mar azul, cheio de músicas.

Desci na sombra das ruas,

como pelas tuas veias:

meu passo — a noite nos muros —

casas fechadas — palmeiras —

cheiro de chácaras húmidas —

sono da existência efêmera.

O vento das praias largas

mergulhou no teu perfume

a cinza das minhas máguas.

E tudo caíu de súbito,

junto com o corpo dos náufragos,

para os invisíveis mundos.

Vi tantos rôstos ocultos

de tantas figuras pálidas!

Por longas noites inúmeras,

em minha assombrada cara

houve grandes rios mudos

como os desenhos dos mapas.

Tinhas os pés sobre flôres,

e as mãos prêsas, de tão puras.

Em vão, suspiros e fomes

cruzavam teus olhos múltiplos,

despedaçando-se anônimos,

diante da tua altitude.

Fui mudando minha angústia

numa fôrça heróica de asa.

Para construir cada músculo,

houve universos de lágrimas.

Devo-te o modêlo justo:

sonho, dor, vitória e graça.

No rio dos teus encantos,

banhei minhas amarguras.

Purifiquei meus enganos,

minhas paixões, minhas dúvidas.

Despi-me do meu desânimo —

fui como ninguém foi nunca.

Deusa dos olhos volúveis,

rôsto de espêlho tão frágil,

coração de tempo fundo,

— por dentro das tuas máscaras,

meus olhos, sérios e lúcidos,

viram a beleza amarga.

E êsse foi o meu estudo

para o ofício de ter alma;

para entender os soluços,

depois que a vida se cala.

— Quando o que era muito é único

e, por ser único, é tácito.


cecilia meireles

Tuesday, August 21, 2007

a rosa do levante

As tuas mãos terminam em segredo.

Os teus olhos são negros e macios

Cristo na cruz os teus seios esguios

E o teu perfil princesas no degredo…


Entre buxos e ao pé de bancos frios

Nas entrevistas alamedas, quedo

O vendo põe o seu arrastado medo

Saudoso o longes velas de navios.


Mas quando o mar subir na praia e for

Arrasar os castelos que na areia

As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante…


Pobre do rei pai das princesas feias

No seu castelo à rosa do Levante!



Fernando Pessoa

Tuesday, August 14, 2007

deixa-te balançar entre a vida e a morte




DEIXA-TE estar embalado no mar noturno
onde se apaga e acende a salvação.

Deixa-te estar na exalação do sonho sem forma:
em redor do horizonte, vigiam meus braços abertos,
e por cima do céu estão pregados meus olhos, guardando-te.

Deixa-te balançar entre a vida e a morte, sem nenhuma saüdade.

Deslisam os planetas, na abundância do tempo que cai.
Nós somos um tênue pólen dos mundos...

Deixa-te estar neste embalo de água geando círculos.
Nem é preciso dormir, para a imaginação desmanchar-se em figuras
ambíguas.

Nem é preciso fazer nada, para se estar na alma de tudo.
Nem é preciso querer mais, que vem de nós um beijo eterno
e afoga a bôca da vontade e os seus pedidos...


(...imagem e poema de cecília meireles
retirado de http://princecristal.blogspot.com/search/label/Cecilia%20Meireles)

O GOSTO DA TERRA...

HUMIDO gôsto de terra,
cheiro de pedra lavada
— tempo inseguro do tempo! —
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.
Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,

— lábio da voz sem ventura! —
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.
A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,

— sòzinha, com o seu perfume! —
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.
Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
— de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrêlas e o vento.


cecília meireles

SOSSEGA CORAÇÃO


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.



Poesia de Fernando Pessoa

Thursday, August 02, 2007

O PODER DO AMOR

"UM CORAÇÃO ARDENTE É O QUE MAIS DESEJO. UM CORAÇÃO CHEIO DE ARDOR. ACENDE NO TEU CORAÇÃO A CHAMA DO AMOR"

RUMI

É URGENTE O AMOR



É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


EUGENIO DE ANDRADE

Saturday, July 14, 2007

Há doenças piores que as doenças




Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa

Cancioneiro



Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relêvo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?


Fernando Pessoa

Wednesday, June 20, 2007

a volúpia da terra mãe


Meu amor, como sofro a volúpia da terra,
atravessada pelas raízes!...

És minha árvore linda,
aos céus abrindo asas de esperança,
na gloriosa ascensão da mocidade.

Ninguém compreenderá a delícia secreta
das nossas núpcias profundas.

Quanto mais avultares,
mais subires,
mais mergulharás em mim.

Aguardei-te longos anos,
com a mesma avidez da gleba
pela semente...
Tive-te em minhas entranhas,
transfigurei-te:
és folha, és flor, és fruto, és agasalho, és sombra...
Mas vem do meu querer inviso e obscuro,
quanto prodigalizas ao desejo
dos que te gozam pela rama.
GILKA MACHADO