Thursday, May 05, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta

























Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite ...
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Ana Hatherly

Sunday, April 24, 2016

A ROSA DUBIA



ABANDONO


És o abandono límpido e sobre ti me inclino,
porque o amor é uma inflorescência indizível,
sobre galáxias de alfazema....
Perscruto-te numa errância obscura;
e procuro todas as metáforas em que te possa
transformar,
mas apenas as linhas se insinuam
e as sombras espalham-se na tua avidez porosa.
O vento é a tua imagem e o ar, com a sua cabeleira
volúvel, fascina-me,
tal como o teu rosto de olhos insones,
perdido entre a lua, o sol e a terra,
em seu pulsar vigoroso.
Afasto a neblina inerte e perco-me em ti,
porque os teus olhos são tâmaras azuis,
labirintos de música,
e o mar é uma explosão exótica que vibra,
galgado o corpo e as suas margens.
A totalidade é a chave que te inventa.
És a Primavera de espaços sucessivos, a rosa dúbia,
a sombra incandescente desses lugares
que emergem,
íris e caos, pedra volúvel, navio versátil.
Na vertigem exímia, perco-me nas tuas torrentes
de magma.
No teu rosto salgado, encontro o laço da volúpia,
o corpo das brisas, as poalhas de veludo,
as algas movediças
e um terror subterrâneo, fonte intranquila,
colmeia dulcíssima, vaga flutuando
num vazio errante de céu e nenúfares.

Thursday, April 21, 2016



Coreografia

No palco da noite bailado de corpos
Cenário de sombras...
esculpidas em nu

Tu danças as mãos
inscreves contornos
na minha nudez
Eu sou dimensão
que dança em teu espaço
Não temos cansaço
Só temos volúpia
Desejo
Harmonia
Vontade de luta
Ao longo de ti descubro caminhos. Trajecto de boca
E danço contigo
E esqueço a memória
Eu sou o teu sangue
A mesma saliva
O mesmo suor
Nós somos a mesma
Mulher-Repetida.

Manuela Amaral

Friday, April 08, 2016




Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo


fragmento de poema
Herberto helder

Wednesday, December 09, 2015

POR TI...



É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia ...

Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul

É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso


António Ramos Rosa.

Monday, October 12, 2015

nem todo o corpo...



"Nem todo o corpo é carne...
 Não, nem todo.
 Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
 às vezes linho, lago, tronco de árvore, nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
 E o ventre, inconsistente como o lodo?...
 E o morno gradeamento dos teus braços?
 Não, meu amor...
 Nem todo o corpo é carne: é também água, terra, vento, fogo...
 É... sobretudo sombra à despedida; onda de pedra em cada reencontro;
 no parque da memóra o fugidio vulto da Primavera em pleno Outono...
 Nem só de carne é feito este presídio, pois no teu corpo existe o mundo todo!"



Natália Correia

Saturday, August 15, 2015

SONHEI



SONHEI

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando dispertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são
Ob
scura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.



Fernando Pessoa, 28-9-1933.

Wednesday, August 05, 2015

ESTA NOITE MORRERÁS....

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

Ana Hatherly, in “Poesia 1958-1978”

Thursday, May 28, 2015

QUANDO A LUA VIER TOCAR-ME O ROSTO




Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito...
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

Ana Hatherly (n.1929)
(Esta excelente poetisa, muito esquecida, liderou o movimento da Poesia Experimental Portuguesa)

Sunday, December 07, 2014

DANÇA A TUA VALSA NOS MEUS CABELOS...



Dança a tua valsa nos meus cabelos
e permite que as almas se entrelacem,
sem limites nem cadeias.
Ah que anseio de coração,
este ressuscitar...
do Amor que detém a minha alma.
Desse uivo sobreposto
ao clamor do vento em noites de tempestade,
desse sussurro do Espírito
mavioso como vozes de anjos em coro celestial...
Afago-te o rosto distante
com os olhos postos nas silhuetas que dançam também
através dos teus olhos...
jogos de luz e sombra que ensinam
a ilusão do céu como um génio da lâmpada
que brilha só de vez em quando,
como se fossem irmãos, a Lua e o Sonho
cujo feitiço se mantém na noite escura.
Mas a dança continua,
num movimento de mentes e corações
queimando a alma e os sentidos
até ao vácuo absoluto
onde a caneta goteja
e o poeta só tem sede...


SLL2014

Friday, December 05, 2014

TU

TU


enlouqueces-me maravilhas-me atrapalhas-me apaixonas-me cegas-me confundes-me. Tu inspiras-me.
Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu .....

Quero tanto de ti e tão próximo que anseio que fosses o ar, o chão, as paredes, tudo.

Que tudo o que tocasse fossem os teus braços. Que tudo o que sentisse fossem os teus lábios.

Como quando fecho os olhos e tudo o que não vejo és tu. Como quando não durmo e tudo o que sonho és tu.

Contigo não consigo respirar. Sem ti não consigo viver.

Quero estar tão dentro de ti que nem a luz do dia exista para mim. Quero abraçar-te tanto que todo o mundo colapse e desapareça num pequeno ponto entre os meus braços.

Toca-me com as tuas mãos. Faz-me desaparecer com a tua pele. Sufoca-me na tua língua. Arrasta-me pelo ar com o teu perfume. Mata-me de vez.

Odeio-te porque existes. Odeio-te porque não estás aqui. Amo-te tanto.

De repente tomo consciência da tua ausência e faz-se noite. Porque não me respondes quando te falo? Porque não te sinto quando estendo o braço? Porque te escondes?

TU


se fosses chuva, do céu só cairiam pérolas ... E até o chão gritaria de prazer

maria teresa horta

Não te Fies do Tempo nem da Eternidade


 

Não te fies do tempo nem da eternidade
 que as nuvens me puxam pelos vestidos,
 que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
 Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
 que amanhã morro e não te vejo!

 
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
 nácar de silêncio que o mar comprime,
 ó lábio, limite do instante absoluto!
 Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
 que amanhã morro e não te escuto!

 
Aparece-me agora, que ainda reconheço
 a anêmona aberta na tua face
 e em redor dos muros o vento inimigo...
 Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
 que amanhã morro e não te digo...



Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

Monday, November 17, 2014

rosas



nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,...

ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas



( E. E. Cummings, tradução: Augusto de Campos )

Thursday, November 06, 2014

a cor da tua alma


 
 
A Cor da Tua Alma

Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro ...

da árvore que é a árvore de meu amor.

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!


Juan Ramón Jiménez, in "Ríos que se Van"

Friday, July 18, 2014

No meu peito calmo





 








Hoje é doce o meu amor
o meu peito calmo…
E arde…

Ele corre para te abraçar no mais fundo mar…
E o teu silêncio e o meu
São as nossas almas que falam
No mais secreto do nosso coração
alado.

Lá, 
Onde dançam as deusas 
Sem mácula 
 

Elas dançam em círculo
A magia do universo…
Que tudo contem…
E que só as mulheres sabem…
Quando ardem de ternura e fogo…
....

Só elas sabem da Magia
Que contem os seus corpos 
Quando o desejo abençoa
o amplexo
Pela força centrífuga,
Dos corpos que se atraem…
E que para lá deles, se misturam…
como ímanes
e se unem numa dança etérea…
Para lá do tempo e do espaço. 


Hoje…
O meu coração rejubila, 
Quando me lembro de ti
entregue… 
E ebriamente bebo do elixir
Do teu corpo Cálice…

Rlp – 6/6/2014

UM DIA VIESTE...

 
 
 
VII

Um dia virás,
Tu-que-eu-não-sei-quem-és,
com leveza de gás
no silêncio dos pés... ...

Um dia virás,
Tu-para-além-do-afago,
com o ruído que faz
o luar no lago...
Um dia virás,
Tu-por-quem-a-minha-voz-já-não-chama,
com mãos de tenaz
frio de chama...
Um dia virás
com asas nos tornozelos
por caminhos sem chão...
Sim, um dia virás
a deitar fogo dos cabelos
para me iluminar o coração.
Um dia virás
Um dia virás


 
JOSÉ GOMES FERREIRA

Ah se eu fosse Maga...



Homeopatia...


Hoje senti de repente ...
que não tinha lugar onde escrever...
e fez-se um silêncio enorme, ...

um vácuo...
Se eu pudesse escrever-te no éter...
inundava-te de uma doçura indizível,
de uma aura de luz infinita...
como a que eu ontem sentia
ao recordar-te......
Ah, Se eu fosse Maga, Druida
ou Bardo...
talvez tu soubesses a dor que o silêncio
da tua alma me causa...


rlp

julho 2014

Tuesday, July 15, 2014

Ó fome, quando é que eu como ?



Dá a Surpresa de Ser

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela tivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem Ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como ?

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

porque é por ti que vivo é por ti que nasço



É por Ti que Vivo

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias

porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

Monday, June 02, 2014

Por detrás dos meus olhos há águas



Uma canção

Por detrás dos meus olhos há águas
Tenho de as chorar todas.

Tenho sempre um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Respirar cores com os ventos
Nos grandes ares.

Oh, como estou triste...
O rosto da lua bem o sabe.

Por isso, à minha volta há muita devoção aveludada
E madrugada a aproximar se.

Quando as minhas asas se quebraram
Contra o teu coração de pedra,

Caíram os melros, como rosas de luto,
Dos altos arbustos azuis.

Todo o chilreio reprimido
Quer jubilar de novo

E eu tenho um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.


Else Lasker-Schüller
(1917)
(tradução de João Barrento)