Tenho saudades do teu corpo: ouviste correr-te toda a carne e toda a alma o meu desejo – como um anjo triste que enlaça nuvens pela noite calma?...
Anda a saudade do teu corpo (sentes?...) Sempre comigo: deita-se ao meu lado, dizendo e redizendo que não mentes quando me escreves: « vem, meu todo amado...»
É o teu corpo em sombra esta saudade... Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra: a luz do seu olhar é escuridade...
Fecho os olhos ao sol para estar contigo. Eh de noite este corpo que me assombra... Vês?! A saudade é um escultor antigo!
Sinto de ti uma saudade imensa, maior que a distância e o tempo, pois tempo ela não ousa, espaço ela não vive. Sinto de ti uma saudade imensa.
De palavras no meio da noite, de conchas que ouviam como ao mar, as vagas de meu pranto recolhidas, do afago incessante nos meus sonhos, um vento cálido que velava a alma, acalentando o cansaço de meus dias.
Sinto de ti uma saudade imensa, longa como meus olhos que se perdem, pois olhos ela não conhece, e perda sempre foi. Sinto de ti uma saudade imensa...
De teus desejos e rimas, de palavras que sorriam como o sol na madrugada em mim. E a lua-rede aos nossos corpos mais que escritos em nós mesmos.
Sinto de ti uma saudade imensa... e penso: não existe onde... o quando é infinito. Neste espaço lento da demora, pergunto ao sonho de um ainda: quem, neste vazio tão triste, soprou o sempre e apagou o horizonte?