Saturday, July 09, 2005

TER UMA RAINHA...



Ah, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! Ah, como eu ria.
Como com olhos de quem nunca via
Tinha o trono onde Ter uma rainha.

Sob os pés seus a vida me espesinha
Reclinas-te tão bem! A tarde esfria...
Ó mar sem cais nem lodo nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbrela de chá em baixo estamos
E é súbita lembrança opositoria
Da velha Quinta e do espalmar dos ramos

Sob aos quais a merenda...Oh amor, oh gloria!
Fechem-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos...




MEU AMOR PERDIDO...

Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.

Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos - gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias -
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.

Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...


(...)

fernando pessoa

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