Beber-te! como bebo o ar da vida...
E como bebo a luz do sol doirado...
E a poesia do templo consagrado...
E o consolo no olhar da mãe querida...
(...)
ANTERO DE QUENTAL
Saturday, March 31, 2007
DIGAM QUE FOI MENTIRA

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto
nem na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum
Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor
Contigo aprendi coisas tão simples
como a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia mais
que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre e
se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
MEDITAÇÃO ANCIÃ
Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe em cada árvore
e até em cada folha aqui enchi o peito e mesmo
até desfeito eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus
RUY BELO (1933-1978)
Saturday, March 24, 2007
uma lágrima invisível
(...)
"Talvez o seu corpo astral esteja ferido. E se chorar cair-lhe-á dos olhos uma lágrima invisível porque o corpo é o leito onde dormimos permanentemente até ao momento de sabermos que estamos sempre abertos para a cegueira irreal, a única verdadeira. E se o deslumbramento cessa, cessa o canto.”
In SIGMA - 1965 ANA HATHERLY
"Talvez o seu corpo astral esteja ferido. E se chorar cair-lhe-á dos olhos uma lágrima invisível porque o corpo é o leito onde dormimos permanentemente até ao momento de sabermos que estamos sempre abertos para a cegueira irreal, a única verdadeira. E se o deslumbramento cessa, cessa o canto.”
In SIGMA - 1965 ANA HATHERLY
Saturday, March 17, 2007
MULHER FLOR...
Eu colhi a tua flor, ó Mundo! Cheguei-a muito ao meu coração: e o seu espinho feriu-me. Quando o dia declinou, sombrio, a flor murchou: mas a dor ficou. Muitas flores terás ainda, perfumadas e gloriosas, ó Mundo! Mas para mim já passou a hora de colher flores. E já não tenho a minha rosa, na noite profunda que vem: tenho apenas a dor que ficou.
Ó mulher, não és apenas a obra-prima de Deus, mas também a dos homens. Estes te enfeitam com a beleza do seu coração. Os poetas tecem os teus véus com os fios de ouro da sua fantasia; os pintores imortalizam a forma de teu corpo. Dá suas pérolas o mar, as minas dão seu ouro, dão suas flores os jardins estivais - para que sejas mais linda e mais preciosa. O desejo do homem coroa de glória tua mocidade. És metade mulher, metade sonho.
O CORAÇÃO DE OURO...
"O meu coração, pássaro do deserto, revoa no céu dos teus olhos. Teus olhos são o berço da manhã, o reino das estrelas e a profundeza onde as minhas canções se perdem. Deixa que eu mergulhe neste céu imenso e solitário. Deixa que eu penetre as tuas nuvens e abra minhas asas em teu sol."(R.Tagore)
CANTO DE TAGORE
Se não falas, vou encher o meu coração
com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando,
como a noite em sua vigília estrelada,
com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
a escuridão se dissipará, e a tua voz se
derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão em
canções de cada ninho dos meus pássaros,
e as tuas melodias brotarão em flores por
todos os recantos da minha floresta.
CANTO DE TAGORE
Se não falas, vou encher o meu coração
com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando,
como a noite em sua vigília estrelada,
com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
a escuridão se dissipará, e a tua voz se
derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão em
canções de cada ninho dos meus pássaros,
e as tuas melodias brotarão em flores por
todos os recantos da minha floresta.
Monday, March 12, 2007
FRAGÂNCIAS...

Não te sintas só
mesmo na aparente ausência
Por mistério ascendem
das nossas almas inquietas
brancas silhuetas ecos perdidos
pulsantes como um coração cósmico
retido muito tempo no Olvido
Há cruzamentos já nós a atarem-se
um tumulto imenso de ascensão
Sobre nós só Força
a repuxar a alma e os sentidos
Não te sintas só
que eu nunca largo
os portos bem amados da minha alma
Se ao menos hoje
eu pudesse deixar-te
o meu antigo vaso de fragrâncias
para que a hora te não doesse tanto
MARIANA INVERNO
és uma ilha
Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias
David Mourão-Ferreira
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias
David Mourão-Ferreira
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